Reportagem
  
edição 26 - Julho 2004
Saturno, Afinal!
Depois de sete anos de viagem, a nave Cassini-Huygens se prepara para desvendar os mistérios do planeta, seus anéis e sua lua gigante, Titã
por Jonathan I. Lunine
A descida da sonda Huygens através da espessa atmosfera de Titã, a maior lua de Saturno, será um dos destaques da missão Cassini-Huygens.
Titã, mais do que qualquer outro corpo do Sistema Solar, merece ser descrito como um mundo misterioso

Na manhã de 15 de outubro de 1997, na borda de um igarapé infestado de jacarés perto de cabo Canaveral, na Flórida, eu assistia, com milhares de outras pessoas, ao surgimento de uma pequena chama embaixo de um foguete, numa plataforma de lançamento localizada a quilômetros de distância. A mais sofisticada nave espacial não-tripulada de todos os tempos, composta pelo orbitador Cassini e pela sonda Huygens, estava posicionada no topo do veículo lançador, e sete anos de viagens interplanetárias vinham pela frente. Comecei a me envolver no projeto dessa missão quando ainda era aluno de pós-graduação e tive de esperar até a metade da minha carreira para ver seu ponto alto: a primeira exploração prolongada do sistema saturniano.

Espera-se que, neste mês, a nave Cassini-Huygens entre em órbita do segundo maior planeta do Sistema Solar. Os pesquisadores aguardam ansiosamente por esse dia desde que as missões Pioneer 11 e Voyager 1 e 2 aguçaram o seu interesse por Saturno há mais de 20 anos. Embora o planeta seja menor do que Júpiter e sua superfície tenha aparência muito menos violenta, Saturno pode conter pistas vitais para entender a evolução de longo prazo de todos os planetas gigantes gasosos. O séquito de luas de Saturno inclui 30 pequenos satélites gelados e uma lua do tamanho de um planeta, Titã, que possui atmosfera densa e fascina os cientistas, porque poderia revelar como a vida surgiu na Terra. Os pesquisadores também querem descobrir como se formaram os anéis de Saturno e como o intenso campo magnético do planeta afeta suas luas geladas e a atmosfera superior de Titã.

Os cientistas esperam que a Cassini-Huygens repita o sucesso da nave Galileo, que revolucionou nosso conhecimento sobre Júpiter e suas luas durante seus oito anos em órbita. Contudo, há diferenças fundamentais entre essas duas missões. Enquanto a Galileo lançou uma sonda para investigar a atmosfera de Júpiter, o orbitador Cassini vai lançar a sonda Huygens em Titã, e não em Saturno. Ao contrário da Galileo, a Cassini-Huygens é o resultado de um verdadeiro esforço internacional. Embora a Nasa tenha construído o orbitador Cassini e seja a gerenciadora da missão, a Agência Espacial Européia (ESA) desenvolveu a sonda Huygens, e as equipes responsáveis por todos os instrumentos da nave são formadas por europeus e americanos.

Pelo fato de Saturno estar quase duas vezes mais afastado do Sol do que Júpiter - 1,4 bilhão de km contra 780 milhões de km - ele sempre pareceu mais misterioso. Se o compararmos a Júpiter, Saturno tem menos cinturões visíveis e há menos zonas de turbulência de ventos na atmosfera. A magnetosfera de Saturno - a região dominada pelo campo magnético do planeta - é muito mais calma do que a de Júpiter, o que produz um ruído na faixa de rádio, facilmente detectado na Terra. Os astrônomos descobriram em 1943 uma atmosfera em torno de Titã, mas muito pouco se soube sobre ela ou sobre as outras luas de Saturno até a chegada da era espacial. Para os astrônomos presos à Terra, Saturno era um contraponto sereno e misterioso à violência de Júpiter, pairando num reino frígido e distante.
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