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Reportagem |
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| edição 88 - Setembro 2009 |
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| Surpresas da Doença Celíaca |
| O estudo de uma enfermidade induzida por alimentos e potencialmente fatal levou à descoberta de um processo que pode tratar de muitos outros distúrbios autoimunes |
| por Alessio Fasano |
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JUPITER IMAGES (foto); JEN CHRISTIANSEN (foto-ilustração) |
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Meu voto para a revolução científica mais importante de todos os tempos iria para o Oriente Médio de 10 mil anos atrás, quando se notou pela primeira vez que novas plantas se originam de sementes caídas no chão a partir de outras plantas – constatação que levou ao nascimento da agricultura. Antes dessa observação, as pessoas baseavam sua dieta em frutas, castanhas, tubérculos e eventuais carnes. Tinham de se deslocar para onde a comida estivesse, à mercê dos eventos, tornando impossíveis planejamentos de longo prazo.
Ao descobrir o segredo das sementes, rapidamente aprenderam a cultivar vegetais em casa e, finalmente, a cruzar diferentes plantas gramíneas para criar grãos fundamentais como trigo, centeio e cevada, que eram nutritivos, versáteis, estocáveis e valiosos para comercialização. Pela primeira vez, as pessoas tiveram a chance de abandonar a vida nômade e construir cidades. Não por coincidência, as primeiras áreas agrícolas também se tornaram “berços de civilização”.
Esse avanço, entretanto, cobrou um preço alto: o aparecimento de uma enfermidade agora conhecida como Doença Celíaca (DC), induzida pela ingestão de uma proteína do trigo chamada glúten, ou por proteínas similares no centeio e na cevada. O glúten e seus parentes não faziam parte antes da dieta humana. Mas, uma vez que os grãos começaram a alimentar as crescentes comunidades estáveis, as proteínas passaram também a matar pessoas (frequentemente crianças), quando seus corpos reagiam de forma anormal a elas. A ingestão repetida dessas proteínas resultou em indivíduos sensíveis e incapazes de absorver adequadamente nutrientes dos alimentos. Essas vítimas também sofreriam de dores abdominais recorrentes e diarreia, exibindo corpos definhados e barrigas inchadas de pessoas famélicas. A nutrição deficiente e várias de outras complicações tornaram suas vidas relativamente curtas e sofridas.
Se essas mortes fossem noticiadas na época, sua causa teria sido um mistério. Nos últimos 20 anos, entretanto, os cientistas vêm sistematizando o conhecimento detalhado da DC. Agora sabem que é um distúrbio autoimune, onde o sistema imunológico ataca os tecidos do próprio organismo. E sabem que a doença surge não apenas do consumo do glúten e de seus congêneres, mas também de uma combinação de fatores que incluem genes predisponentes e anomalias na estrutura do intestino delgado. |
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| Alessio Fasano é professor de Pediatria, Clínica Médica e Fisiologia e diretor do Centro de Pesquisas em Biologia de Mucosas e do Centro de Pesquisas em Doença Celíaca da University of Maryland School of Medicine. Muito de suas pesquisas básicas e clínicas focaliza o papel da permeabilidade intestinal no desenvolvimento da Doença Celíaca e outros distúrbios autoimunes. |
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