Reportagem
  
edição 10 - Março 2003
Um brinde à sua saúde?
Três décadas de pesquisas comprovam que o consumo de bebidas alcoólicas em quantidades reduzidas ou moderadas tem efeitos cardiovasculares benéficos. Uma questão espinhosa para os médicos é se devem recomendar a bebida a todos os pacientes
por Arthur L. Klatsky
Em palestra a uma associação de combate ao alcoolismo do Illinois, em 1842, Abraham Lincoln fez uma declaração que provavelmente não teve recepção calorosa. "É verdade que muitos foram seriamente prejudicados por \\'bebidas embriagantes\\' ", disse aquele que seria o presidente dos Estados Unidos, "mas ninguém parece pensar que esses danos vieram não de uma coisa ruim, mas do abuso de uma coisa muito boa".

Sempre se discutiu se as bebidas alcoólicas eram boas ou ruins. Nos Estados Unidos, pessoas que viveram sob a Lei Seca testemunham hoje uma corrente publicitária incessante onde fabricantes estimulam consumidores a beber mais. Apesar da popularidade atual das bebidas alcoólicas, muitos acreditam que a abstinência é uma virtude. É verdade que o consumo excessivo de bebidas e o alcoolismo devem ser motivo de grande preocupação, diante dos terríveis problemas que podem causar às pessoas e à sociedade em geral. Mas muitas vezes os temores com relação aos perigos do álcool levam a refutações de caráter puramente emocional de seus benefícios para a saúde. Essa postura não considera a quantidade cada vez maior de indícios de que o consumo moderado de álcool reduz o risco de alguns problemas cardiovasculares, especialmente ataques cardíacos e derrames isquêmicos (causados pelo bloqueio de vasos sangüíneos). Alguns poucos estudos indicam até uma certa proteção contra a demência, que pode estar ligada a problemas cardiovasculares.

Para discutir o consumo moderado de bebidas alcoólicas, precisamos primeiro definir o que é moderado. As definições simples de reduzido, moderado e excessivo são de certa forma arbitrárias. Mas existe um consenso na literatura médica que coloca como limite mais alto para moderado duas doses padrão por dia, equivalentes a duas latas de cerveja, dois cálices de vinho ou duas doses de destilados. Estudos demonstram que o consumo de bebida acima desse nível pode ser perigoso para a saúde. O limite, porém, pode ser mais alto ou mais baixo conforme a pessoa, dependendo de fatores como sexo e idade.

O principal benefício médico do uso razoável do álcool parece ser a diminuição do risco da ocorrência de doenças cardíacas coronarianas (DCCs), resultantes do aumento da ocorrência da arteriosclerose (placas gordurosas) nos vasos que levam sangue ao coração. A palavra arteriosclerose, aliás, é de fato uma união descritiva de duas palavras gregas: athera, mingau, para a consistência dos depósitos de gordura, e sclera, duro, para a perda de flexibilidade do vaso.
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Arthur L. Klatsky é consultor sênior de Cardiologia e pesquisador adjunto da divisão de pesquisas do Kaiser Permanente Medical Center, de Oakland, Califórnia. Formado em Medicina pela Harvard Medical School, dirigiu a divisão de cardiologia do centro médico de 1978 a 1994 e sua unidade de tratamento coronariano de 1968 a 1990. Desde 1977 vem sendo o pesquisador principal de uma série de estudos sobre as ligações entre a ingestão de bebidas alcoólicas e as doenças cardíacas. Um artigo que publicou em 1974 (ver Para saber mais) foi o primeiro relatório epidemiológico a registrar a relação inversa entre o consumo de álcool e as doenças cardíacas. Esse artigo foi citado em 1995 pelo national Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism como um dos 16 textos básicos relativos a pesquisas sobre o álcool. Klatsky completou seis maratonas e escalou o Monte Kilimanjaro em 1992.
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