Reportagem
  
edição 59 - Abril 2007
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Uma vida digital
“Ele freqüentemente precisava de uma memória artificial, portátil, infalível.” –Patrick O’Brian, The fortune of war
por Gordon Bell e Jim Gemmell
PASSEIOS DIÁRIOS podem ser documentados com a SenseCam (pendurada no pescoço de Bell na foto acima), câmera que tira fotos automaticamente quando seus sensores detectam mudanças de luminosidade ou a presença de uma pessoa próxima. Um dispositivo de Sistema de Posicionamento Global rastreia continuamente a localização de Bell, permitindo a criação de diários visuais de suas viagens
[continuação]

Pensamentos em Teia
A idéia de uma memória expandida por máquina foi apresentada pela primeira vez no final da Segunda Guerra Mundial por Vannevar Bush, diretor da agência do governo americano que controlava a pesquisa em tempos de guerra. Bush propôs um dispositivo chamado Memex (uma abreviação de memory extender, ou extensor de memória) – uma máquina baseada em microfilme que armazenaria todos os livros, gravações e comunicações de um indivíduo. O Memex seria montado em uma mesa e equipado com um teclado, um microfone e vários visores. A pessoa sentada à mesa poderia usar uma câmera para fazer cópias em microfilme de fotos e papéis, ou criar novos documentos escrevendo em uma tela sensível ao toque. O usuário do Memex também poderia montar uma câmera em sua testa para registrar imagens enquanto estivesse distante da mesa. Uma das idéias mais prescientes de Bush foi a sugestão de que o Memex deveria ser projetado para imitar o pensamento associativo da mente humana, que ele descreveu vividamente: “Com um item ao seu alcance, ela passa instantaneamente ao próximo, que é sugerida pela associação de pensamentos, de acordo com uma intrincada teia de acontecimentos executados pelas células do cérebro”.

Ao longo do meio século seguinte, intrépidos pioneiros da ciência da computação, incluindo Ted Nelson e Douglas Engelbart, desenvolveram algumas das idéias de Bush, e os inventores da World Wide Web emprestaram o conceito da “teia” para construir seu sistema de sites lincados. Quanto ao Memex, ele permaneceu tecnologicamente fora do alcance. Mas nos últimos anos rápidos avanços em sensores, tecnologias de armazenamento e processamento abriram caminho para novos sistemas de gravação digital e de recuperação que poderão ir muito além do que Bush idealizou.

O crescimento da capacidade de armazenamento digital foi impressionante: hoje, um disco rígido de US$ 600 pode armazenar um terabyte (1 trilhão de bytes) de dados, o suficiente para armazenar tudo o que você ler (incluindo e-mails, páginas de internet, documentos e livros), toda a música que você comprar, oito horas de fala e dez fotos por dia ao longo de 60 anos (ver tabela na pág. 68). Se a atual tendência continuar, em uma década será possível carregar a mesma quantidade de informação na memória flash de seu celular, assim como conectar sem fio ao drive de quatro terabytes de US$ 100 de seu PC. Em 20 anos, US$ 600 comprarão 250 terabytes de armazenamento – o suficiente para guardar dezenas de milhares de horas de vídeo e dezenas de milhões de fotografias. Esta capacidade deverá ser suficiente para satisfazer as necessidades de gravação de qualquer um por mais de 100 anos.

Além disso, já está disponível uma nova geração de sensores baratos que em breve se tornarão ubíquos. Alguns desses dispositivos são capazes de gravar várias informações sobre a saúde e a movimentação física do usuário. Outros podem medir temperatura, umidade, pressão atmosférica e luminosidade no ambiente ao redor e até mesmo detectar a presença de corpos quentes nas proximidades. Alguns sensores podem ser usados no corpo, outros são projetados para ser colocados em recintos ou incorporados a aparelhos domésticos, como refrigeradores. (Um dispositivo no refrigerador poderia controlar seus hábitos alimentares medindo o número de vezes que a porta é aberta.) E microfones e câmeras agora são tão baratos que estão sendo instalados virtualmente em todos os lugares – um exemplo são os celulares, onde a inclusão da câmera e a gravação de voz já é norma.
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Gordon Bell e Jim Gemmell GORDON BELL e JIM GEMMELL trabalham juntos no projeto MyLifeBits da Microsoft Research desde 2001. Um dos pioneiros da indústria de informática, Bell supervisionou o desenvolvimento do famoso minicomputador VAX para a Digital Equipment Corporation nos anos 70. Durante os anos 80, ele ingressou na Microsoft como líder do grupo de pesquisa eSearch. Gemmell é pesquisador sênior do grupo de pesquisa Next Media da Microsoft. Seu atual foco de estudo é o armazenamento vitalício de experiências pessoais, mas seus interesses também incluem gerenciamento de mídia, telepresença e multicast.
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