Reportagem
  
edição 59 - Abril 2007
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Uma vida digital
“Ele freqüentemente precisava de uma memória artificial, portátil, infalível.” –Patrick O’Brian, The fortune of war
por Gordon Bell e Jim Gemmell
[continuação]

Concretizando uma Idéia
Para ilustrar o impacto que esses registros digitais poderiam ter, imaginamos um dia na vida de uma família fictícia fazendo pleno uso dessa tecnologia num futuro não muito distante. Vários pedaços da memória digital da família estão armazenados em seus dispositivos pessoais – celulares, laptops, computadores domésticos e assim por diante – mas toda a informação também é transmitida em segurança pela internet para um servidor administrado por uma empresa hipotética chamada LifeBits Inc. Esta empresa administra o armazenamento de dados, realiza backups regulares (para recuperar qualquer material apagado inadvertidamente) e coloca cópias de um arquivo em vários locais para assegurar que não seja destruído em um desastre natural ou causado pelo homem.
Como grande parte da informação está disponível por meio de acesso seguro à internet, os membros da família podem acessá-la a qualquer momento e em qualquer lugar. Informação particularmente sensível que poderia colocar uma pessoa em apuros legais poderia ser mantida em uma conta de armazenamento de dados no exterior – “um banco suíço de dados” – para deixá-la fora do alcance dos tribunais americanos. Menores de idade poderiam criptografar suas gravações, mas o serviço LifeBits poderia dar aos pais acesso aos dados em caso de emergência. Da mesma forma, algumas memórias digitais dos pais seriam regulamentadas em seus contratos de trabalho, que estipulariam que os dados relacionados aos seus empregos pertencem aos seus empregadores. Quando tais funcionários deixassem seus empregos, eles teriam de realizar uma espécie de “lobotomia parcial” em suas memórias, expurgando tudo considerado propriedade da empresa.

Algumas das situações que descrevemos não são tão futuristas. Plataformas de sensores que podem ser usadas no corpo, coletando dados de saúde e monitorando sinais vitais como batimento cardíaco, respiração e o número de calorias queimadas, já são comercializadas por empresas como a VivoMetrics, da Califórnia, e BodyMedia, da Pensilvânia. E a Dust Networks, da Califórnia, desenvolveu um dispositivo sem fio para retransmissão de sinais entre uma rede de sensores. O Projeto Human Speechome, liderado por Deb Roy do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, consiste em gravar tudo o que uma criança – o filho de Roy, atualmente com um ano de idade – pronuncia nos primeiros três anos de vida, para estudar a aquisição da linguagem. E Kiyoharu Aizawa e seus colaboradores da Universidade de Tóquio estão trabalhando em sistemas de câmeras que identificariam momentos interessantes para registro, monitorando as ondas alfa no cérebro do usuário.

A Microsoft Research está patrocinando projetos no campo de memórias digitais realizados por 14 universidades. Um deles é o MyHealthBits, chefiado por Bambang Parmanto da Universidade de Pittsburgh; esse esforço tem como desafio gravar um volume imenso de dados de saúde e administrar os registros resultantes. Estudos recentes conduzidos na Universidade de Washington mostraram os benefícios do monitoramento contínuo de pacientes com diabetes e indivíduos com distúrbios de sono.

Os progressos atuais são encorajadores, mas o advento de uma era de memórias digitais não será isento de problemas. Alguns países e estados americanos atual-mente impõem restrições a gravar conversas e a fotografar pessoas. Muitos indivíduos se preocupam com a gravação de informações que poderiam ser usadas contra eles em tribunal. As memórias digitais, diferentes daquelas em nosso cérebro, seriam aceitas em um processo judicial. Notoriamente, Richard Nixon aconselhou seus assessores a dizerem “não me lembro” quando depusessem perante o júri, mas as gravações de suas conversas foram sua ruína. Para quem considera as memórias digitais como uma extensão de nossas próprias mentes, o uso de tais materiais em um tribunal seria como uma auto-incriminação. Mas as novas tecnologias podem ajudar a minimizar riscos potenciais. Quando gravando outros, por exemplo, é possível obscurecer suas imagens ou distorcer sua fala para evitar gravação ilegal.
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Gordon Bell e Jim Gemmell GORDON BELL e JIM GEMMELL trabalham juntos no projeto MyLifeBits da Microsoft Research desde 2001. Um dos pioneiros da indústria de informática, Bell supervisionou o desenvolvimento do famoso minicomputador VAX para a Digital Equipment Corporation nos anos 70. Durante os anos 80, ele ingressou na Microsoft como líder do grupo de pesquisa eSearch. Gemmell é pesquisador sênior do grupo de pesquisa Next Media da Microsoft. Seu atual foco de estudo é o armazenamento vitalício de experiências pessoais, mas seus interesses também incluem gerenciamento de mídia, telepresença e multicast.
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