Reportagem
  
edição 59 - Abril 2007
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Uma vida digital
“Ele freqüentemente precisava de uma memória artificial, portátil, infalível.” –Patrick O’Brian, The fortune of war
por Gordon Bell e Jim Gemmell
[continuação]

Será crucial proteger a privacidade das memórias digitais. A perspectiva de que ladrões de identidade, disseminadores de fofocas ou Estados autoritários possam ter acesso a tais gravações é assustadora. Mas a maioria das pessoas já tem informações sensíveis em seu PC. A segurança é uma preocupação importante em qualquer contexto, não apenas quando se pensa em armazenar memórias digitalmente (apesar de que o armazenamento de uma vida inteira em um único arquivo torna o problema quantitativamente pior, se não qualitativamente). Além disso, mesmo se nossos computadores fossem muito mais seguros, os usuários deveriam ter muito cuidado ao compartilhar informações; com um simples apertar errado de tecla, um prontuário médico poderia ser distribuído inadvertidamente para todos os contatos de uma lista de endereços. Para impedir tais erros, as interfaces do usuário para memórias digitais devem ser melhores do que as de que dispomos atualmente, e será necessário desenvolver software inteligente para fornecer alertas quando o compartilhamento de dados for arriscado.

Outro desafio técnico será assegurar que os usuários sejam capazes de abrir seus arquivos digitais décadas após armazená-los. Atualmente é comum a perda de dados porque seus formatos se tornam obsoletos. Arquivistas digitais terão que converter constantemente seus arquivos para os formatos mais recentes, e em alguns casos poderão precisar rodar emuladores de máquinas mais antigas para recuperar os dados. Uma pequena indústria provavelmente surgirá apenas para impedir que as pessoas percam informação por causa da evolução dos formatos.

Um desafio ainda maior será conceber um software que permitira aos computadores a realização de tarefas úteis explorando o volume gigante de conhecimento coletado. A meta final é desenvolver uma máquina que possa atuar como assistente pessoal, antecipando as necessidades de seu usuário. Os computadores devem melhorar sua capacidade de organização da informação. Estratégias de busca que funcionam bem para algumas estantes de livros podem não servir para uma coleção do tamanho da Biblioteca do Congresso americano (29 milhões de livros e milhões de documentos de outros tipos). A maioria de nós não deseja ser bibliotecário de nossos arquivos digitais – queremos que o computador seja o bibliotecário.
Conseqüentemente, nosso grupo de pesquisa está muito interessado na aplicação de inteligência artificial (IA) nas memórias digitais. Apesar de muitos especialistas se mostrarem céticos em relação aos esforços de IA, nós acreditamos que tal tipo de software pode produzir resultados práticos se puder fazer uso dos tremendos depósitos de dados contidos nos arquivos pessoais. Um sistema IA projetado para trabalhar com informações abundantes provavelmente funcionará melhor do que um que precisa fazer uma recomendação baseada em alguns poucos dados. Nós começamos a trabalhar nessa área, desenvolvendo software capaz de organizar arquivos com base em seu conteúdo, mas ainda resta muito a ser feito.

De certa forma, a era das memórias digitais é inevitável. Mesmo aqueles que repudiam essa idéia terão uma capacidade de armazenamento muito maior em seus computadores nos próximos anos e utilizarão software que os ajude a utilizá-la. Apesar de alguns se assustarem com a perspectiva de ter a vida gravada, para nós a empolgação supera em muito o medo. As memórias digitais produzirão benefícios em um grande espectro de áreas, fornecendo valiosas informações sobre como as pessoas pensam e sentem. Ao monitorarem constantemente a saúde de seus pacientes, os médicos do futuro poderão desenvolver tratamentos melhores para problemas cardíacos, câncer e outros males. Os cientistas poderão vislumbrar a evolução do pensamento de seus predecessores, e os historiadores do futuro poderão examinar o passado em detalhes como nunca foi feito antes. As oportunidades são limitadas apenas pela nossa capacidade de imaginá-las.
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Gordon Bell e Jim Gemmell GORDON BELL e JIM GEMMELL trabalham juntos no projeto MyLifeBits da Microsoft Research desde 2001. Um dos pioneiros da indústria de informática, Bell supervisionou o desenvolvimento do famoso minicomputador VAX para a Digital Equipment Corporation nos anos 70. Durante os anos 80, ele ingressou na Microsoft como líder do grupo de pesquisa eSearch. Gemmell é pesquisador sênior do grupo de pesquisa Next Media da Microsoft. Seu atual foco de estudo é o armazenamento vitalício de experiências pessoais, mas seus interesses também incluem gerenciamento de mídia, telepresença e multicast.
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