Entrevista

 

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Salve Jorge
Ben Jor

 

Se dependesse da mãe, ele seria pediatra. Do pai, seria advogado. Por ele mesmo, teria se tornado jogador de futebol. Mas ele acredita que um dia Deus disse: "Meu filho, pára com isso, vai cantar, vai. Futebol você joga na praia, com os amigos". Jorge Duilio Ben Zabella Lima de Menezes, 50 anos em algumas biografias, 55 em outras, seguiu o fictício conselho divino e acabou revolucionando a música brasileira, dando um trabalhão para quem tinha de classificar o seu som. Seu violão tem três afinações diferentes, comandadas por uma mão direita veloz e cheia de suingue. As letras são verdadeiras crônicas do cotidiano, inspiradas em manchetes de jornais. Voyeur da vida pública e privada, pintor nas horas de folga, com quadros que acabaram nas paredes dos amigos, Jorge Ben Jor acaba de lançar mais um disco: Músicas para Tocar em Elevador. Nada neutras. Ao contrário. Ele está de volta para, mais uma vez, animar a festa.

Raça Brasil - Como o público jovem se comporta nos seus shows?

Jorge Ben Jor - A maioria conhece as coisas mais recentes. Tanto que escolhem mais sucessos dos anos 70 para cantar comigo. A música "W Brasil" me trouxe para esta geração teen. Depois, eu consegui manter com o disco 23, que teve o sucesso "Engenho de Dentro". Nessa época, fiz meu último disco para a Warner, o World Dance, que acabou sendo lançado também por aqui. Assinei com a Sony e tive que fazer um disco muito rápido, o Homo Sapiens.

Raça - Qual dos seus discos vendeu mais em todos os tempos?

Ben Jor - O 23 me deu disco de platina. Mestre da MPB, também, mas os outros venderam e continuam vendendo. Não saem de catálogo. E agora a PolyGram relançou tudo em CD. Ao todo, tenho 28 discos.

Raça - Quais das suas composições definem melhor seu estilo?

Ben Jor - Sem pensar muito, eu diria "Mas que Nada" e "A Banda do Zé Pretinho", que é a minha cara. Tábua de Esmeraldas, um dos meus discos preferidos, tem "O Homem da Gravata Florida". Mas existem várias. Entre as mais recentes eu escolho "Ela Mora na Pavuna", "Homem do Espaço", "W Brasil", "Engenho de Dentro", "Spyro Gyra" e "Cabelo", que eu fiz com o Arnaldo Antunes.

Raça - Quando você decidiu que não seria jogador de futebol, e sim artista?

Ben Jor - Eu nem decidi. Até meu primeiro sucesso, "Mas que Nada", eu não pensava em seguir carreira artística. Mas surgiu um convite para participar de um show em São Paulo, da Rodhia, no Ibirapuera. Eu ainda disse: "Não canto mais, estou fora. Não estou a fim". Eu estava querendo estudar. Queria ser médico, pediatra, porque a minha mãe queria. Meu pai queria que eu fosse advogado. E a minha consciência brigava comigo porque eu não queria nada disso. Eu queria ser jogador de futebol, jogar bola no Flamengo, principalmente. Aí, veio esse show e, depois, o convite para participar do programa O Fino da Bossa, com a Elis Regina e o Jair Rodrigues.

Raça - Você nunca teve dúvidas se ia cantar bossa-nova ou iê-iê-iê?

Ben Jor - Não. Eu pensei, tá legal, não tenho nada a perder. Vou cantar minhas músicas aqui, tudo bem. Nisso, Erasmo Carlos, que já me conhecia da Tijuca, me convidou: "Você não quer participar da Jovem Guarda, aqui, no domingo?". E eu fui.

Raça - Mas, na época, quem fizesse O Fino da Bossa não podia fazer parte da Jovem Guarda.

Ben Jor - É verdade. E por isso agradeci a Deus por ter escolhido a Jovem Guarda. Lá, estava na minha praia, podia tocar guitarra. Quem me acompanhava, na época, era o grupo The Fevers.

Raça - E sua guitarra já soava diferente?

Ben Jor - Já. Eu tenho três afinações: a normal, que é universal, a afinação de viola caipira e uma afinação de country music. A primeira viola caipira que experimentei foi a do Luis Carlos Paraná, compositor que era dono da boate Jogral. Ele insistiu, eu gostei e comecei a cantar com aquela afinação tradicional da música caipira.

Raça - O que os críticos diziam na época?

Ben Jor - Nem sacavam nem sabiam o que era aquilo. Achavam que estava errado ...(risos).

Raça - Todo mundo costuma dizer que você é original, que é quase impossível enquadrá-lo nos gêneros da música brasileira. No começo você tinha consciência dessa originalidade?

Ben Jor - Para mim, tudo fluía normalmente. Hoje tenho um padrão de composição que estou conseguindo aperfeiçoar. Sou pelas pessoas, pelo clima atual, pelo ambiente que me inspira. Me considero um cronista musical, um poeta urbano, suburbano, gosto da cidade, do subúrbio do dia-a-dia, manchete de revista, de jornal, de telejornal. Pego uma idéia, vou costurando e desenvolvo um tema em cima daquilo, com realidade e com um pouco de ficção, pra ficar legal.

Raça - Você se acha melhor agora ou nos tempos do Mas que Nada?

Ben Jor - Me acho melhor agora porque estou mais maduro. Nos tempos do Mas que Nada eu não sabia música. O estilo já estava lá, mas depois é que fui aprender para poder dizer para os músicos e maestros o que eu queria.

Raça - E onde você estudou?

Ben Jor - Por incrível que pareça, ganhei uma bolsa de estudos em Berkeley, na Califórnia. Foi em 1966, eu já tinha parado, não queria mais nada. Então, pensei: "Vou aproveitar a viagem, que é boa". Fiquei seis meses em Berkeley. O meu inglês era do ginásio, eu não sabia nada. A minha aula era com um professor que falava um espanhol que ninguém entendia. Era uma turma de terceiro mundo. Tinha português, africano, gente da América Central, da América do Sul, todos bolsistas. Quando voltei para o Rio de Janeiro, comecei a compor mais, a tocar com outros músicos, fui pegando dicas com todo mundo.

Raça - Sua passagem por Berkeley foi fundamental?

Ben Jor - Foi, embora eu já tivesse a coisa intuitiva. Em 1966, eu já estava desistindo de cantar e de compor. Queria fazer faculdade ou jogar futebol, mas não rolou. Aí, acabei ficando com a música. Acho que Deus falou: "Futebol você joga na praia, nas peladinhas com os amigos. Mas você tem que ser músico, meu filho. Vai cantar, vai".

Raça - Você ainda tem tempo para viajar no ônibus do Flamengo?

Ben Jor - Agora não, mas, quando o Márcio Braga era presidente, eu viajava muito. Ele ficou por três gestões na época dos meus ídolos todos: Júnior, Zico, Adílio, Carpegiani, Raul Plassman.

Raça - Sua paixão pelo futebol motivou grandes músicas. Você homenageou o Fio Maravilha e foi processado por ele por uso indevido do nome. Pensou em desistir de homenagear outros craques?

Ben Jor - Não. Fiz uma música pro Zico, o Galinho de Quintino: "Falta na entrada da área/ adivinha quem vai bater? É o camisa 10 da Gávea/ Galinho de Quintino chegou, ôôôôô.

Raça - O Fio não entendeu nada ...

Ben Jor - É, ele não entendeu. Mas foi grande... Eu homenageei um ídolo meu e da minha raça. Fiquei muito decepcionado. Jamais falei com ele e nunca nos encontramos. A música já tinha um ano, estava até esquecida, quando um oficial de justiça chegou na minha casa dizendo que eu tinha que comparecer ao Fórum. Não acreditei. Em 1996, quando toquei em São Francisco, nos Estados Unidos, soube que o Fio foi ao meu show e ficou na moita. Me disseram que estava morando lá e que é dono de um restaurante.

Feliz com o resultado do seu último disco, Música para tocar em elevador, Ben Jor fala de futebol e negritude e diz que o preconceito racial é maior em São Paulo do que no Rio de Janeiro

POR MARIA AMÉLIA ROCHA LOPES\
FOTOS: ANDRÉ WANDERLEY

 

Raio X

Clássicos de Ben Jor

Pra tocar no elevador


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