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Casulos : uma mostra singular de Siron Franco

Siron Franco mostra sua mais recente série, a de seus Casulos, objetos escultóricos monumentais, uma magnífica idéia que nos deslumbra pela surpresa da originalidade e pelo extraordinário métier, característica do artista goiano e que está presente naqueles eventos onde temos a possibilidade do encontro com o seu pensamento artístico, com o que ele produz e em especial com a proposta de suas linguagens, normalmente bastante instigantes.

Siron traz agora seus Casulos a Brasília numa homenagem delicada a seus conterrâneos, aos que estão próximos ao seu ateliê e numa atitude reverencial ao seu público. Depois desta exposição em Brasília, os Casulos irão, em itinerância, para a Inglaterra e para a França, com a sua carga de espantosa descoberta e sua potente força de criação.

Os Casulos possuem uma sobriedade que nos envolve, literalmente. Seu silêncio, sua monumentalidade e os movimentos sutilissimos que os dinamizam nos sugerem adotar uma postura de recolhimento (que se faz misteriosa pelo anterior desconhecimento de que dela seríamos capazes) na observação e na reflexão sobre nossas origens, sobre a natureza e e em especial sobre a carga dos elementos artísticos inusitados que podem ser requisitados pelo pensamento dos homens.

Esses casulos, seus detalhes, suas cores naturais e sua iconografia nos convocam a circular ao seu redor, sem afastar os olhos das texturas, das nuances de luz espraiadas, dos volumes que causam muita impressão e a nos deixar, pouco a pouco, magnetizar pelas formas, pelos seus bojos, atraídos ao tato.

Observar e criar fazem parte do universo da cultura e dessa transformação (o que tem já alguma pertinência com o conceito dos casulos) surgem as propostas e as linguagens que nos estimulam e nos movem com prazer pela vida e pelas veredas das descobertas. Mas é necessário ver e ter isenção intelectual, é preciso sensibilidade e mais do que isso, possuir o descortínio de se perceber frente a algo realmente novo, onde os referenciais prévios estão ainda ausentes ou que será muito difícil enquadrar certos valores dentro de escaninhos já codificados.

Procurar reduzir esta série tão singular dos Casulos de Siron Franco não vai funcionar, não há como limitar o olhar e a sensibilidade do público. Seria como tentar debilmente simplificar a observação sobre o tipo físico dos orientais, generalizando e atribuindo-lhes a semelhança completa. Descobrir semelhanças entre o trabalho de Siron (os Casulos) e a obra de Frans Kracjberg, a de suas raízes extraídas dos manguezais, calcinadas e coloridas, parece algo absurdo e que não faz sentido. São obras interessantes, imponentes e completamente diferentes entre si. Umas são construídas, outras são escolhidas e retiradas prontas, as primeiras são feitas com materiais na cor dos pigmentos naturais e com a técnica elaborada da encáustica, as segundas são recobertas com tintas. Ver-lhes semelhantes seria como afirmar que um par de óculos e uma bicicleta são iguais em forma e em função.

Joan Miró, em seu final de vida teve a esperança (frustrada) de ver colocada em praça pública uma sua escultura, de grandesvolumes coloridos, adquirida pela prefeitura de Paris e que demorou mais de cinco anos para ser admitida pela crítica conservadora parisiense, que tivera enormes dificuldades em reconhecê-la como escultura, propriamente dita. Era ousada e iconoclasta em demasia. Tinha cores vibrantes estampadas nos volumes, e isso parecia inaceitável. Instalada na Défènse somente após a morte do artista espanhol, perto da escultura vermelha de Calder, teve a aprovação serena do público que a compreendeu, sem polêmicas.

Siron Franco também traz suas idéias, com propostas que fogem ao conservadorismo acadêmico e seu público, que não está só em Aparecida de Goiânia, Brasília, Porto Alegre, São Paulo, Londres, Paris ou Basel, gosta. Mas sempre surgirá um crítico, com inacreditável visão domesticada que exigirá a pertinência no suporte, se ali há dourados eles somente estariam autorizados em sua presença na escultura pela pátina desgastada pelo tempo, a revelar o metal em que fôra executada a obra (um comentário que teria a aprovação severa e silenciosa da Academia Francesa de Belas Artes, lá pelo ano de 1863...)

São vários os casulos expostos, alguns são negros, outros têm brilhos, muitos deles têm cheiros, de cera de abelha, de mel, de fumo em corda... Eles têm as cores naturais dos pigmentos terrosos recolhidos pelo próprio artista, que os transformou em matérias-primas para recobrir seus objetos escultóricos, alguns são estruturas levíssimas e transparentes em malhas de aço inoxidável, peças nos solicitam a atenção rigorosa nos detalhes, ricos e e até dissimulados, que podem passar desapercebidos ao um visitante mais distraído ou confessadamente preguiçoso.

É bom e gratificante ver a mostra de Siron Franco e testemunhar a paixão evidente que transparece nas obras ali expostas, o denodo com que ele as fez e imenso respeito que o artista atribui, com sinceridade, a seu público, este sim observador atento e exigente, que a compreenderá em sua extensão e na sua singularidade (afinal, nada existe que se lhes assemelhe, fora o casulo magistral da própria natureza), sem a necessidade da orientação de palavras eruditas ou das polêmicas estéreis, comprovando a qualidade de sua arte no próprio local da exposição. Esta é um oportunidade única e certamente muito mais fascinante do que a opção resignada pela observação passiva de pasteurizados enlatados de televisão a cabo.

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