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Siron Franco - 800 Vezes

Texto de Frederico de Morais

Desde quando, em 1975, na Bienal de São Paulo, recebeu o prêmio de "melhor pintor nacional", com os trabalhos da série "Fábulas de Horror", Siron Franco vem marcando presença na vida brasileira com trabalhos provocativos e polêmicos. Falo em presença marcante na vida brasileira, porque Siron não é apenas um artista extraordinariamente talentoso mas um virtuose que domina seu ofício como poucos, um pintor compulsivo, um inventor de signos e símbolos, que sendo absolutamente pessoais, invenção sua, já integram o imaginário do país.

Siron tem sido, nas duas últimas décadas, uma voz ativa participante da vida brasileira, alguém ainda capaz de indignar-se com as injustiças sociais, com a arrogância e os desmandos dos poderosos ou dos que detém momentaneamente o poder, abordando questões que vão da corrupção política e da mortalidade infantil à defesa do meio-ambiente e das comunidades indígenas, alguém, enfim, que com suas obras - pinturas, instalações ou monumentos, vem estabelecendo um diálogo pertinenbte entre arte e consciência social.

Exemplo desta sua atitude combativa é a magnífica série de 23 telas sobre o acidente ocorrido com uma cápsula de césio-137, em Goiânia, em 1987, que Bélgica Rodrigues, crítica venezuelana, denominou "A Guernica Brasileira", um dos momentos mais altos de sua pintura ao lado de outras séries estética e socialmente impactantes como "Curral" (1989) ou "Peles" (1990). Ou obras públicas como as que realizou em Brasília distribuindo 1.020 caixões de criança, pintados de verde, amarelo, azul e branco, os quais vistos de longe, formavam a bandeira brasileira, e a enorme ratoeira colocada defronte de um dos ministérios, no qual o queijo é substituído pelo mapa do Brasil. Ou ainda, o "Monumento às Nações Indígenas", de 1992. composto por 500 colunas de concreto, contendo 3.500 inscrições rupestres, doado à Fundação Xapuri, Chico Mendes.

Sempre disposto a enfrentar novos desafios, Siron Franco realizou, em 1987, a convite do industrial Manoel Dilor de Freitas, em uma de suas fábricas da Cecrisa Revestimentos Cerâmicos S.A., em Anápolis, cidade localizada nas proximidades de Goiânia, onde reside, uma obra gigantesca, sem paralelo na arte contemporânea brasileira: 1.000 placas de cerâmica esmaltada, medindo cada uma 30 x 40 cm. Durante 45 dias, auxiliado por uma equipe de técnicos da empresa, Siron dedicou-se febrilmente à execução da tarefa hercúlea..

Agora, por iniciativa conjunta do artista, do dono da empresa, Manoel Dilor de Freitas e da Galeria Versailles, Lucimar Mothé Vianna Marques, 800 placas esmaltadas estão sendo expostas no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, resgatando-se, assim, para a história da arte brasileira, e para o público, uma obra sob todos os aspectos fascinante.

O Brasil já possui uma razoável tradição no campo da cerâmica artística, de caráter artesanal, na qual se destacam autores como Brennand, Shoko, Susuzi, Megume Yusa, Antônio Poteiro e Celeida Tostes, para citar apenas alguns nomes. Da mesma forma, alguns de nossos melhores artistas eruditos contemporâneos vêm realizando, desde os anos 40, azulejos de arte, sejam os chamados "azulejos avulsos", dentro do projeto pioneiro da Osiarte, realizados por entre outros, Volpi, Mário Zanini, Gerda Brentani e Hilde Weber, de temática brasileira, sejam os destinados a composições maiores em painéis públicos, como os de Portinari, Burle Marx, Poty, Djanira, Brennand, Anísio Medeiros, Antônio Maluf, Paulo Rossi, Osir, e também, Athos Bulcão, que os tratou como módulos geométricos, em composições que se espalham pelo Brasil e outros países, em grande parte integrando a arquitetura de Oscar Niemeyer.

Com sua placas esmaltadas, Siron Franco fica a meio caminho entre estas diversas tendências, ou melhor, estabelece ponte entre elas. Como os azulejos realizados para a Osiarte, Siron criou placas avulsas, temática e formalmente individualizadas, como se fossem pequenas pinturas, nas quais substituiu a tela ou a madeira por pisos cerâmicos. Visto sob este aspecto, o feito de Siron Franco é extraordinário, isto é, ele realizou em 45 dias um volume de "pinturas" que a maioria dos artistas não logrou alcançar ao longo de toda uma vida. Ele não se repete em nenhuma das 800 placas. No máximo, várias delas podem ser agrupadas em núcleos de temática rupestre ou religiosa, marinhas, pássaros e animais diversos, figuras humanas ou, ainda, exercícios abstratos, às vezes de caráter cinético ou informalista.

Todo o enorme e diversificado repertório de temas, signos e símbolos criados pelo artista para as suas pinturas, arquivo plurimagístico, que já é parte do patrimônio artístico braslieiro, está presente nestas cerâmicas.

Mas, Siron não se limita a transplantar este temário para as placas cerâmicas: ele explora todas as possibilidades estéticas oferecidas pelo novo suporte e as técnicas correspondentes: brilho, relevo, tactilidade, etc.

No momento em que escrevo estas linhas não sei como as 800 peças serão expostas na extensa galeria do Século XXI do Museu Nacional de Belas Artes. Mas, não é difícil imaginar que, apesar de avulsas. podem formar tanto um enorme painel cerâmico, como se fosse um patchwork, um mosaico gigantesco, quanto extensas narrativas lineares, como frisas gregas, fotogramas de um filme inconcluso, estórias em quadrinhos ou um quase-texto, no qual letras e palavras seriam substituídas por ícones ou pictogramas.

Fartem-se, pois, os visitantes, com a beleza desta exposição - mais uma prova do talento multifacético de Siron Franco.

 

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