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SIRON, UM ARTISTA EM DIA COM SEU TEMPO
Sempre agitado e inventivo e já tendo cerca de 3 mil peças
criadas, os seus planos imediatos são uma exposição
em Washington e a transformação em estátua
de um carro de Fórmula 1
CIDADE
DE GOIÁS - Conselho aos repórteres que forem entrevistar
Siron Franco: levem duas cadernetas. Uma para anotar as idéias
que brotam freneticamente do artista. Outra, para que ele ilustre
o raciocínio com seus desenhos. (Benefício lateral:
depois de escrita a reportagem, você terá em casa algumas
obras autênticas de Siron Franco. De graça.) A conversa
que se segue ocorreu num bom e simples restaurante, na Cidade de
Goiás, mais conhecida como Goiás Velho, terra natal
do artista, entre goles de cerveja e um empadão goiano, prato
típico da região.
Como sempre, Siron estava alegre, agitado, inventivo. Falou de seus
planos imediatos: uma exposição em Washington em outubro,
a idéia de transformar um carro de Fórmula 1 em estátua,
uma instalação comemorativa da campanha das Diretas-Já,
entre outros. Quem o conhece e sente sua vivacidade sabe por que
seus trabalhos - gravuras, esculturas, pinturas, instalações,
etc. - podem estar na casadas 3 mil peças, segundo o curador
Charles Cosac, que edita o catálogo completo do artista.
Só de pinturas são x mil. Aliás, Siron sempre
reserva espaço significativo em sua conversa para a pintura.
"Quando pinto, sinto-me repetindo um gesto ancestral, de pelo menos
45 mil anos", diz. Mas não se limita à pintura. Amante
de Velásquez e Picasso, atira em todas as direções
- é um artista plural, não um especialista.
Aposta na perenidade do óleo, mas insiste em intervir, social
e esteticamente, com esculturas e obras provisórias, destinadas
à precariedade do tempo e, no entanto, necessárias
em determinado momento. É o caso dos 1.020 caixõezinhos
de crianças, formando o mapa do Brasil, que ele apresentou
em Brasília para protestar contra a mortalidade infantil.
Ou da ampulheta gigante, com terras de vários países
misturadas, um apelo pela paz mundial.
Protestos, apelos, participação. Foi desse jeito que
Siron, já conhecido nos guetos artísticos, se tornou
personalidade nacional. Quando em 1987 aconteceu o acidente com
o césio 137 em Goiânia, o artista ficou chocado. Afinal,
morara durante muitos anos na Rua 57, aquela onde o dono de um ferro-velho
abriu a marretadas uma cápsula criminosamente largada num
depósito de lixo. Das pessoas que tiveram contato com o material
radioativo algumas morreram, outras ficaram doentes ou apresentam
seqüelas até hoje. A rua foi interditada. Siron botou
a imaginação e a memória para funcionar. Somou
indignação à iniciativa e o resultado foi uma
vigorosa série de obras - que o projetaram definitivamente.
A vida vem antes da arte e dialoga com ela. Por isso Siron aceita
sem problemas o rótulo de "engajado", embora admita que ele
crie problemas com alguns críticos. Também natural
é seu interesse pelo ambientalismo, não como modismo
chato, mas como experiência vital de um autêntico homem
do cerrado, filho de um pai que preparava remédios cpm raízes
colhidas na mata. Esses temas estão presentes na obra de
um artista que quer ser eterno, mas persiste em pertencer a seu
tempo e a suas aflições. Não há incompatibilidade
entre as duas aspirações.
Estado - Você realizou um workshop com as crianças
de Goiás usando pedras. Por que a escolha desse material?
Siron Franco - Não compensava você fazer um
laboratório desse tipo com pintura. Depois a criança
pobre não tem material para continuar a trabalhar e não
adianta nada. As pedras estão por aí, na natureza.
Depois, tem um elemento poético e evocativo. Aqui é
minha terra e também da poetisa Cora Coralina. Certa vez,
a Cora escreveu assim: "Com as pedras que atiram em mim, construirei
a minha obra." Não é bonito? As crianças se
divertiram e saíram coisas interessantes. Uma delas criou
um verdadeiro fóssil com as pedras.
Estado - Gosta desse trabalho com crianças?
Siron - Gosto muito. E sabe por quê? Observe como se
organiza a vida em sociedade. Criança anda com criança,
adulto com adulto e adolescente com adolescente. Acho um horror
esse tipo de apartheid. A sociedade só teria a ganhar se
as diferentes idades convivessem. Os índios vivem juntos,
sem diferenciação de idade. Isso cria uma verdadeira
relação social, na qual todos se respeitam mutuamente.
Estado - Além das crianças, o meio ambiente.
Por que você e sua obra são tão vinculados aos
temas ecológicos?
Siron - É uma coisa que vem da infância. Desde
cedo meu pai me falava sobre a importância do meio am-biente.
Só que naquela época não era comum usar essa
expressão. Falava-se em natureza. Nós vivíamos
aqui, no cerrado. Papai fazia remédios com raízes
que colhia no mato, essas coisas. Então, o meio ambiente
entrou na minha obra da maneira mais natural possível, porque
fazia parte da minha vida. Não se usava então a palavra
ecologia. Hoje faz parte da denúncia social corriqueira.
E nada é mais importante do que isso. Tudo está num
abandono. Não é só em São Paulo, não.
Veja aqui o Rio Araguaia. Completamente comprometido. Havia uma
verba para o tratamento do rio, mas foi desviada. Ninguém
fala nada porque no Brasil parece que temos vocação
para cordeirinhos. Outro crime são as plantações
de soja no meio do cerrado. Minha esperança é que
um desses procuradores jovens se interessem pelo caso e descubram
onde foi parar a grana do rio. Essa é uma questão
fundamental. Acho que a questão ambiental deve ser posta
na vanguarda, na ponta de frente das preocupações.
Estado - A veemência com que você abraça
as causas, a ecológica entre elas, justifica a fama de artista
engajado...
Siron - É outro clichê. Sou engajado na medida
em que o artista é antes de tudo um homem que vive no seu
tempo. Protesto quando necessário e participo do estupor
diante de certas situações. Quando pinto, sou pintor.
É só.
Estado - Sim, mas de qualquer forma a sua é uma obra
de interferência na sociedade.
Siron - De fato, estou agora apresentando uma série
a que dei o nome de O Que Vi pela TV. Uso um canal de TV fictício,
com as imagens fragmentadas que vão desfilando por ele. Um
zapping que vai de uma pedra aborígine, passa por um pênis
mecânico e um show de sexo ao vivo.
Estado - No caso, a intenção é comentar
a influência da TV sobre a sociedade, não?
Siron - Em especial no Brasil, onde a televisão ocupa
um espaço social da maior importância. As crianças
vêem TV sozinhas, o aparelho funciona como babá, as
distrai enquanto os pais estão fora, trabalhando. Agora,
veja a qualidade dessa TV. Com as exceções de praxe,
tipo Castelo Rá-Tim-Bum, o que existe? Existe uma televisão
preocupada em criar uma tremenda ansiedade de consumo nas crianças.
O adolescente também é visto não como indivíduo,
mas como consumidor, que vai crescer e reproduzir a barbárie.
Volto àquela idéia de que se isolam as pessoas segundo
as idades, em guetos. Idades diferentes não convivem mais.
No entanto, a juventude é o período mais curto e atormentado
da espécie. Outro dia a Lygia Fagundes Telles disse que ia
embora para uma fazenda. Falou assim: "Se a educação
ficou por conta da Xuxa e da Carla Perez, estou fora." Mas a questão
é que não se pode cair fora. Então, o Siron,
enquanto cidadão, tem obrigatoriamente de participar disso
aí. O artista não sei; não necessariamente.
Estado - Bom, acaba participando, pelo menos em boa parte
de sua obra. Basta vê-la.

Siron - Por isso mesmo tem um setor da crítica que me
acha um horror. No entanto, não estou alheio às conquistas
estéticas. Agora, acho absurdo viver dentro da minha cabeça,
sem contato com o mundo. E não acho as questões éticas
deslocadas. Acho, até mesmo, que a ética pode indicar
caminhos para a estética. O que às vezes não
é bem visto, sobretudo pelos curadores. É bom que
se diga: os curadores, hoje, exercem um papel totalitário
sobre as artes. São eles que decidem o que as pessoas vão
ver ou não. Por exemplo, se um curador gosta de arte conceitual,
só ela entra. Adoram a Alemanha, não importa o que
venha de lá. Chamo isso de "cordeirismo cultural". Antigamente
o termo usado era colonialismo.
Estado - O fenômeno das cabeças colonizadas
funciona nos dois sentidos. Tudo o que vem de lá é
bom. E se você é aceito lá fora, então
as portas se abrem por aqui.
Siron - Ah, sim, se você faz sucesso lá fora,
e sobretudo na Alemanha, então eles têm de engoli-lo.
Isso é uma imbecilidade. Somos todos internacionais, mas
um país tem de consumir a sua arte própria. Sobretudo
um país de tanta diversidade cultural como é o Brasil.
Não podemos viver escravos desses modismos excludentes. É
estranho. Vem um crítico carioca e diz: chega de figuras
humanas. Então se decreta que o figurativismo está
proscrito. No entanto, você vai aos Estados Unidos, que é
o outro modelo deles, e vê que todas as manifestações
artísticas estão vivas, coexistindo.
Estado - A que você atribui esse boicote à pintura,
em especial a figurativa?
Siron - Os caras pararam de pintar e voltaram-se para os
objetos. É a idéia que têm de ser contemporâneo.
Eu pinto, lido com objetos, faço vídeos e instalações.
Tenho formação renascentista. Gravar, modelar, esculpir,
dese-nhar, para mim é tudo a mesma coisa. Uma atividade não
diminui a outra. Somam-se. Mas os conceitualistas têm raiva
da pintura. Agora, nenhuma teoria, por melhor ou mais elegante que
seja, vai tirar-me o prazer de pintar. A arte é o único
território em que não pode haver a palavra não.
Queiram os críticos ou não, todas as manifestações
podem coexistir. Uma instalação pode abrir um novo
caminho para a pintura, que por sua vez pode conduzir a uma idéia
para outra instalação. E assim por diante. O moderno
não está no suporte, mas na maneira como você
concebe a idéia artística. Você muda o tempo
todo e uma coisa leva a outra, até mesmo e principalmente
por caminhos inesperados.
Estado - Como esse trabalho que você está fazendo
com enxadas...
Siron - Pois é, descobri que uma enxada pode funcionar
como um módulo, um padrão, que se pode dispor de inúmeras
maneiras, criar formas.
Estado - Mais ou menos o que Volpi fazia com as suas famosas
bandeirinhas, uma forma ideal com a qual ele construía o
seu universo.
Siron - Exatamente, estou experimentando com essa bela forma
da enxada. Aliás, o pessoal da fábrica pensou que
eu estivesse ficando louco quando encomendei um estoque de mil enxadas.
Estado - E o que você está programando aí
pela frente, além do seu estudo com as enxadas?
Siron - Como sempre, estou envolvido em mil projetos. Há
um bem interessante. Vou pegar a Williams com a qual o Nelson Piquet
venceu o Campeonato Mundial de Pilotos de F-1 em 1987 e envolvê-la
num bloco de acrílico. Transformar em estátua. Já
consegui convencer o Nelson, que é meu amigo, e ele participou
a idéia ao Frank Williams, que adorou. Estudei a viabilidade
técnica do projeto e está tudo certo. Deve dar uma
bonita escultura.
Estado - Já disseram que você poderia estar
rico se fosse morar em algum país do Primeiro Mundo. O que
o prende aqui?
Siron - Sou da terra. Preciso dela para criar. Tem aquele
negócio da província e do universo, não é?
Sou universal na medida em que escrevo sobre o meu quintal. Acredito
muito nisso.
Estado - Você se recusa mesmo a sair de Goiânia
e ir para o Rio ou São Paulo, que são os grandes centros
culturais no Brasil. Por quê?
Siron - Acho que o desafio é esse mesmo: gerar notícia
no centro a partir da sua província. Não estou sozinho
nessa atitude. Há o João Câmara em Pernambuco,
para citar apenas um nome. Quando você mostra a própria
cara, com personalidade, a globalização passa a se
interessar. No mais, é um jogo desigual. É como lutar
contra o Mike Tyson, no auge dele. Não tem chance. Ou você
acha que dá para competir com a China produzindo sapatos
a US$ 1 o par?
LUIZ ZANIN ORICCHIO
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