Nova Entrevista

Entrevista especialmente concedida a Luiz Zanin Oricchio, no atelier do artista em Goiânia e publicada no jornal O Estado de São Paulo - Caderno 2, páginas 6 e 7, na edição de 19 de julho de 1999.

SIRON, UM ARTISTA EM DIA COM SEU TEMPO

Sempre agitado e inventivo e já tendo cerca de 3 mil peças criadas, os seus planos imediatos são uma exposição em Washington e a transformação em estátua de um carro de Fórmula 1


CIDADE DE GOIÁS - Conselho aos repórteres que forem entrevistar Siron Franco: levem duas cadernetas. Uma para anotar as idéias que brotam freneticamente do artista. Outra, para que ele ilustre o raciocínio com seus desenhos. (Benefício lateral: depois de escrita a reportagem, você terá em casa algumas obras autênticas de Siron Franco. De graça.) A conversa que se segue ocorreu num bom e simples restaurante, na Cidade de Goiás, mais conhecida como Goiás Velho, terra natal do artista, entre goles de cerveja e um empadão goiano, prato típico da região.

Como sempre, Siron estava alegre, agitado, inventivo. Falou de seus planos imediatos: uma exposição em Washington em outubro, a idéia de transformar um carro de Fórmula 1 em estátua, uma instalação comemorativa da campanha das Diretas-Já, entre outros. Quem o conhece e sente sua vivacidade sabe por que seus trabalhos - gravuras, esculturas, pinturas, instalações, etc. - podem estar na casadas 3 mil peças, segundo o curador Charles Cosac, que edita o catálogo completo do artista.

Só de pinturas são x mil. Aliás, Siron sempre reserva espaço significativo em sua conversa para a pintura. "Quando pinto, sinto-me repetindo um gesto ancestral, de pelo menos 45 mil anos", diz. Mas não se limita à pintura. Amante de Velásquez e Picasso, atira em todas as direções - é um artista plural, não um especialista.

Aposta na perenidade do óleo, mas insiste em intervir, social e esteticamente, com esculturas e obras provisórias, destinadas à precariedade do tempo e, no entanto, necessárias em determinado momento. É o caso dos 1.020 caixõezinhos de crianças, formando o mapa do Brasil, que ele apresentou em Brasília para protestar contra a mortalidade infantil. Ou da ampulheta gigante, com terras de vários países misturadas, um apelo pela paz mundial.

Protestos, apelos, participação. Foi desse jeito que Siron, já conhecido nos guetos artísticos, se tornou personalidade nacional. Quando em 1987 aconteceu o acidente com o césio 137 em Goiânia, o artista ficou chocado. Afinal, morara durante muitos anos na Rua 57, aquela onde o dono de um ferro-velho abriu a marretadas uma cápsula criminosamente largada num depósito de lixo. Das pessoas que tiveram contato com o material radioativo algumas morreram, outras ficaram doentes ou apresentam seqüelas até hoje. A rua foi interditada. Siron botou a imaginação e a memória para funcionar. Somou indignação à iniciativa e o resultado foi uma vigorosa série de obras - que o projetaram definitivamente.

A vida vem antes da arte e dialoga com ela. Por isso Siron aceita sem problemas o rótulo de "engajado", embora admita que ele crie problemas com alguns críticos. Também natural é seu interesse pelo ambientalismo, não como modismo chato, mas como experiência vital de um autêntico homem do cerrado, filho de um pai que preparava remédios cpm raízes colhidas na mata. Esses temas estão presentes na obra de um artista que quer ser eterno, mas persiste em pertencer a seu tempo e a suas aflições. Não há incompatibilidade entre as duas aspirações.


Estado
- Você realizou um workshop com as crianças de Goiás usando pedras. Por que a escolha desse material?

Siron Franco - Não compensava você fazer um laboratório desse tipo com pintura. Depois a criança pobre não tem material para continuar a trabalhar e não adianta nada. As pedras estão por aí, na natureza. Depois, tem um elemento poético e evocativo. Aqui é minha terra e também da poetisa Cora Coralina. Certa vez, a Cora escreveu assim: "Com as pedras que atiram em mim, construirei a minha obra." Não é bonito? As crianças se divertiram e saíram coisas interessantes. Uma delas criou um verdadeiro fóssil com as pedras.

Estado - Gosta desse trabalho com crianças?

Siron - Gosto muito. E sabe por quê? Observe como se organiza a vida em sociedade. Criança anda com criança, adulto com adulto e adolescente com adolescente. Acho um horror esse tipo de apartheid. A sociedade só teria a ganhar se as diferentes idades convivessem. Os índios vivem juntos, sem diferenciação de idade. Isso cria uma verdadeira relação social, na qual todos se respeitam mutuamente.

Estado - Além das crianças, o meio ambiente. Por que você e sua obra são tão vinculados aos temas ecológicos?

Siron - É uma coisa que vem da infância. Desde cedo meu pai me falava sobre a importância do meio am-biente. Só que naquela época não era comum usar essa expressão. Falava-se em natureza. Nós vivíamos aqui, no cerrado. Papai fazia remédios com raízes que colhia no mato, essas coisas. Então, o meio ambiente entrou na minha obra da maneira mais natural possível, porque fazia parte da minha vida. Não se usava então a palavra ecologia. Hoje faz parte da denúncia social corriqueira. E nada é mais importante do que isso. Tudo está num abandono. Não é só em São Paulo, não. Veja aqui o Rio Araguaia. Completamente comprometido. Havia uma verba para o tratamento do rio, mas foi desviada. Ninguém fala nada porque no Brasil parece que temos vocação para cordeirinhos. Outro crime são as plantações de soja no meio do cerrado. Minha esperança é que um desses procuradores jovens se interessem pelo caso e descubram onde foi parar a grana do rio. Essa é uma questão fundamental. Acho que a questão ambiental deve ser posta na vanguarda, na ponta de frente das preocupações.

Estado - A veemência com que você abraça as causas, a ecológica entre elas, justifica a fama de artista engajado...

Siron - É outro clichê. Sou engajado na medida em que o artista é antes de tudo um homem que vive no seu tempo. Protesto quando necessário e participo do estupor diante de certas situações. Quando pinto, sou pintor. É só.

Estado - Sim, mas de qualquer forma a sua é uma obra de interferência na sociedade.

Siron - De fato, estou agora apresentando uma série a que dei o nome de O Que Vi pela TV. Uso um canal de TV fictício, com as imagens fragmentadas que vão desfilando por ele. Um zapping que vai de uma pedra aborígine, passa por um pênis mecânico e um show de sexo ao vivo.

Estado - No caso, a intenção é comentar a influência da TV sobre a sociedade, não?

Siron - Em especial no Brasil, onde a televisão ocupa um espaço social da maior importância. As crianças vêem TV sozinhas, o aparelho funciona como babá, as distrai enquanto os pais estão fora, trabalhando. Agora, veja a qualidade dessa TV. Com as exceções de praxe, tipo Castelo Rá-Tim-Bum, o que existe? Existe uma televisão preocupada em criar uma tremenda ansiedade de consumo nas crianças. O adolescente também é visto não como indivíduo, mas como consumidor, que vai crescer e reproduzir a barbárie. Volto àquela idéia de que se isolam as pessoas segundo as idades, em guetos. Idades diferentes não convivem mais. No entanto, a juventude é o período mais curto e atormentado da espécie. Outro dia a Lygia Fagundes Telles disse que ia embora para uma fazenda. Falou assim: "Se a educação ficou por conta da Xuxa e da Carla Perez, estou fora." Mas a questão é que não se pode cair fora. Então, o Siron, enquanto cidadão, tem obrigatoriamente de participar disso aí. O artista não sei; não necessariamente.

Estado - Bom, acaba participando, pelo menos em boa parte de sua obra. Basta vê-la.


Siron
- Por isso mesmo tem um setor da crítica que me acha um horror. No entanto, não estou alheio às conquistas estéticas. Agora, acho absurdo viver dentro da minha cabeça, sem contato com o mundo. E não acho as questões éticas deslocadas. Acho, até mesmo, que a ética pode indicar caminhos para a estética. O que às vezes não é bem visto, sobretudo pelos curadores. É bom que se diga: os curadores, hoje, exercem um papel totalitário sobre as artes. São eles que decidem o que as pessoas vão ver ou não. Por exemplo, se um curador gosta de arte conceitual, só ela entra. Adoram a Alemanha, não importa o que venha de lá. Chamo isso de "cordeirismo cultural". Antigamente o termo usado era colonialismo.

Estado - O fenômeno das cabeças colonizadas funciona nos dois sentidos. Tudo o que vem de lá é bom. E se você é aceito lá fora, então as portas se abrem por aqui.

Siron - Ah, sim, se você faz sucesso lá fora, e sobretudo na Alemanha, então eles têm de engoli-lo. Isso é uma imbecilidade. Somos todos internacionais, mas um país tem de consumir a sua arte própria. Sobretudo um país de tanta diversidade cultural como é o Brasil. Não podemos viver escravos desses modismos excludentes. É estranho. Vem um crítico carioca e diz: chega de figuras humanas. Então se decreta que o figurativismo está proscrito. No entanto, você vai aos Estados Unidos, que é o outro modelo deles, e vê que todas as manifestações artísticas estão vivas, coexistindo.

Estado - A que você atribui esse boicote à pintura, em especial a figurativa?

Siron - Os caras pararam de pintar e voltaram-se para os objetos. É a idéia que têm de ser contemporâneo. Eu pinto, lido com objetos, faço vídeos e instalações. Tenho formação renascentista. Gravar, modelar, esculpir, dese-nhar, para mim é tudo a mesma coisa. Uma atividade não diminui a outra. Somam-se. Mas os conceitualistas têm raiva da pintura. Agora, nenhuma teoria, por melhor ou mais elegante que seja, vai tirar-me o prazer de pintar. A arte é o único território em que não pode haver a palavra não. Queiram os críticos ou não, todas as manifestações podem coexistir. Uma instalação pode abrir um novo caminho para a pintura, que por sua vez pode conduzir a uma idéia para outra instalação. E assim por diante. O moderno não está no suporte, mas na maneira como você concebe a idéia artística. Você muda o tempo todo e uma coisa leva a outra, até mesmo e principalmente por caminhos inesperados.

Estado - Como esse trabalho que você está fazendo com enxadas...

Siron - Pois é, descobri que uma enxada pode funcionar como um módulo, um padrão, que se pode dispor de inúmeras maneiras, criar formas.

Estado - Mais ou menos o que Volpi fazia com as suas famosas bandeirinhas, uma forma ideal com a qual ele construía o seu universo.

Siron - Exatamente, estou experimentando com essa bela forma da enxada. Aliás, o pessoal da fábrica pensou que eu estivesse ficando louco quando encomendei um estoque de mil enxadas.

Estado - E o que você está programando aí pela frente, além do seu estudo com as enxadas?

Siron - Como sempre, estou envolvido em mil projetos. Há um bem interessante. Vou pegar a Williams com a qual o Nelson Piquet venceu o Campeonato Mundial de Pilotos de F-1 em 1987 e envolvê-la num bloco de acrílico. Transformar em estátua. Já consegui convencer o Nelson, que é meu amigo, e ele participou a idéia ao Frank Williams, que adorou. Estudei a viabilidade técnica do projeto e está tudo certo. Deve dar uma bonita escultura.

Estado - Já disseram que você poderia estar rico se fosse morar em algum país do Primeiro Mundo. O que o prende aqui?

Siron - Sou da terra. Preciso dela para criar. Tem aquele negócio da província e do universo, não é? Sou universal na medida em que escrevo sobre o meu quintal. Acredito muito nisso.

Estado - Você se recusa mesmo a sair de Goiânia e ir para o Rio ou São Paulo, que são os grandes centros culturais no Brasil. Por quê?

Siron - Acho que o desafio é esse mesmo: gerar notícia no centro a partir da sua província. Não estou sozinho nessa atitude. Há o João Câmara em Pernambuco, para citar apenas um nome. Quando você mostra a própria cara, com personalidade, a globalização passa a se interessar. No mais, é um jogo desigual. É como lutar contra o Mike Tyson, no auge dele. Não tem chance. Ou você acha que dá para competir com a China produzindo sapatos a US$ 1 o par?

LUIZ ZANIN ORICCHIO