O
que vi pela TV - Uma iconografia contemporânea.
O mundo está
hoje, neste início de novo século, interligado através
das imagens - pelo satélite, pela rede de computadores, pela
TV. Imagens que fazem parte do cotidiano de muitas pessoas e que passam
com velocidade estonteante frente às nossas retinas, pontilhando
cenas ocorridas a instantes no Japão, na Índia, no interior
da Rússia, no Marrocos, no centro do continente sul-americano.
As informações visuais se multiplicam na tela de uma TV,
com variados matizes e diferentes óticas - ideológicas,
sociológicas ou estéticas.
É como se
fosse uma janela luminosa para o mundo e seus acontecimentos; onde tudo
se passa espantosamente misturado, quase sem a presença dessa
abstração que é o tempo mensurado.
Afinal, o que significariam
13:57h da Turquia, se o dia ainda não amanheceu em Goiânia
onde aquela imagem, plena de sol, está sendo vista, ao vivo ?
É por essa janela eletrônica que o artista observa o mundo,
interpreta a sua natureza. Como o pintor ancestral que, sem a noção
do tempo, criou a do sagrado, aprisionando as manadas de bisões
em belíssimas pinturas rupestres, que indicaram o caminho da
arte como um fio condutor da comunicação, imaginando uma
linguagem.
Siron Franco vê
os acontecimentos pela TV, as cenas variadas em frenética sucessão
e delas retira a matéria-prima, para a sua reflexão pictórica,
para sua cristalização em formas e cores (agora sobre
telas de tecido), recodifica-as artisticamente e conferindo-lhes o poder
do sagrado, do pensamento artístico, da comunicação
refletida e modificada culturalmente.
Siron cria uma maneira
pessoal e extraordinariamente contemporânea de ver e traduzir
materialmente a natureza que passa com fluidez frente aos olhos das
pessoas, em todos os pontos do planeta.
E faz a sua coleção
de eventos, transportados em pintura. Original pintura que une figuras
e gestos; cores e pesquisas audaciosas de como aprender a fazer; fragmentos
de ouro, de detritos e de terra, com a sutileza dos desenhos em pura
elegância.
Siron faz uma linguagem.
E recria a origem primeira da arte, com o seu sentido da comunicação,
umbilicalmente ligado ao desejo humano da descoberta, da reinvenção
das formas e da transformação da natureza, expostos à
curiosidade geral, ao prazer de se olhar e de se admirar com essas virtudes
pictóricas.
Nesta mostra que
reúne 25 imagens da série "O que vi pela TV",
está o conceito dessa comunicação, em potencial.
São reproduções de telas em pequeno formato (40
cm x 40 cm), reunidas numa exposição recentemente ocorrida
nos Estados Unidos, em 2000. São telas bastante interessantes
que resgatam um destino atávico na função dos pintores
(silenciosamente profetizado pelos anônimos autodidatas que manufaturaram
os primeiros pigmentos com terras, pétalas de flores e sementes
moídas, pintando com gravetos sobre duras superfícies
rugosas): o de realizar a comunicação entre os indivíduos.