Siron Franco: artista internacional, pintor do Brasil.

Alfredo Aquino

O pintor goiano Siron Franco é hoje reconhecido internacionalmente, com várias exposições no Exterior e obras espalhadas por coleções e acervos de museus na Europa e nas Américas. Ele também conta com uma presença sólida de sua obra junto a colecionadores brasileiros e, em especial, nos acervos dos museus mais importantes do Brasil.

Ele ocupa uma posição de protagonista no cenário artístico brasileiro, conquistada sem fazer parte de grupos ou de movimentos teóricos como os que se sucederam ao longo de algumas décadas a partir dos anos cinquenta, quando eclodiram as linhas de pensamento artístico que balizaram a produção de arte no Brasil, durante aquele período e por uma longa temporada que estendeu quase até meados dos anos oitenta.

Siron teve uma trajetória incomum como artista, seja porque ela acontecia completamente fora dos eixos tradicionais de influência cultural ou porque diferia, essencialmente pela originalidade de sua pintura, da expectativa que era disseminada como orientação aceitável ou previsível pelas escolas, pela mídia ou pela moda, e que fora adotada por muitos artistas sintonizados com essas vertentes.

Naturalmente curioso e um voraz observador do cotidiano que o cerca, tornou-se capaz de criar um rico imaginário como poucos artistas o fizeram - graças a um trabalho fervoroso dedicado à pintura e ao desenvolvimento de uma técnica muito particular que o pintor foi aprendendo de maneira sempre mais aprofundada em sua concentração diária e na disciplina solitária de seu atelier.

Siron não é um pintor de cores folclóricas, nem de amenas paisagens, de frutas exóticas ou de figuras decorativas que evoquem paragens nostalgicamente rurais. Ele não é inofensivo. Ele quer participar e exige a nossa participação também. Ferreira Gullar sugere que Siron nos convida a olhar a sua pintura como se fosse a primeira vez que vemos uma pintura e é com esse olhar curioso e desarmado que devemos fazê-lo. Certamente teremos um grande impacto e um prazer de idêntica intensidade.

Ele realiza uma pintura onde aparecem figuras que se mesclam de maneira muitas vezes impressionante. Seres humanos e animais - macacos, antas, tamanduás, onças ou serpentes - surgem justapostos, em sua linguagem singular, que muitas vezes denuncia, chama a nossa atenção para a crueldade do ser humano, em suas relações de poder, com seus semelhantes e com a própria natureza.

Em alguns momentos essas figuras inventadas quase nos assustam, em sua fronteira com o pesadelo, na exibição de suas mutilações aterrorizantes, de suas deformações inevitáveis que nos sugerem monstros ou pela incômoda iluminação sutil que brota de seus interiores como se fossem provenientes de raios-x, revelando-nos essas figuras como as testemunhas lúgubres da mortalidade ou da fragilidade humana.

Também transita sua iconografia por símbolos que ele adota e explora à exaustão, como os números, os grafismos, as peles ou a mão espalmada do homem, como uma digital denunciadora da presença, de significação potente.

Um profundo conhecimento do métier, aliado às experimentações das técnicas de pintura, traduzem-se formalmente na criação de um mundo de imagens extremamente rico que foi crescendo ininterruptamente com o passar dos anos.

Siron foi e vai experimentando tudo em pintura. É como se adotasse uma espécie de postura "picasseana" frente ao mundo e isso resulte em conseqüências no próprio universo da pintura, pela sua ansiedade criativa e pela interferência de seu inesgotável dinamismo e de seu fértil talento. É possível que essa forma de pensar e trabalhar faça a obra de Siron Franco suficientemente vigorosa e original para ser percebida e reconhecida universalmente.

Siron Franco criou um mundo pictórico próprio, onde suas telas e propostas estéticas são imediatamente identificadas como "sironeanas", na palavra do poeta e crítico de arte Ferreira Gullar. E esse fato nos é revelado não pela sua temática e sim pela qualidade de sua pintura, pelo uso dos planos, da cor, pelo equilíbrio e pela estruturação formal, tendo sempre presente um ideal de beleza sugerido pelo próprio artista.

Isso é facilmente comprovado pelo caminho que o artista foi trilhando ao longo dos anos. Sua temática não o aprisionou a quaisquer fórmulas, porque Siron nunca as adotou, tendo sido sempre muito livre para enveredar por um leque de trilhas diversificadas, onde exercitou sua criatividade ao extremo.

Assim ele passou de uma figuração mais evidente para os grandes planos cromáticos, para o informalismo quase abstrato, para as manchas de cor onde utiliza as mais variadas técnicas (colagens, relevos, terra, cores metalizadas, desenhos, grafismos, etc.) sem as travas e as censuras de caráter ideológico ou das teorias estéticas que tanto cercearam artistas ou que funcionaram como eficazes paradigmas do "bom-gosto" oficial.

Siron, em sua liberdade, manteve-se distanciado dos preconceitos e isso parece ter-lhe sido bastante saudável. As figuras estiveram sempre presentes em sua obra, mesmo naquelas em que aparecem menos evidentes e isso não significa que ele não possa voltar a mostrá-las de maneira mais explícita quando isso lhe parecer adequado ou representar a emergência de uma necessidade interior.

Isso sinaliza que a pintura que Siron Franco nos propõe é bastante humanizada. Assim, ela nos toca profundamente. E cria pontos de ligação com uma realidade mais ampla, que muitas vezes deixamos de ver, afogados pelo cotidiano, pelo entretenimento ou pelo cansaço natural. Essa pintura nos faz refletir sobre nossa existência e sobre nosso próprio desempenho frente a coisas e necessidades comuns a todos - a natureza, a preservação das espécies e do meio ambiente, a violência, a ética, a educação e a cultura. Esses são bons motivos para uma atividade como pintar e certamente um bom papel para um indivíduo como artista, papel que Siron Franco sempre soube desempenhar com desenvoltura.

Com todos os seus sentidos voltados para o processo criativo, ele é capaz de transformar os objetos mais simples em surpreendentes obras de arte, numa precisa coerência com sua condição de artista brasileiro, do interior do continente latino-americano, não-domesticado e tampouco colonizado por parâmetros estéticos de outras realidades culturais e, ao mesmo tempo, de cidadão-indivíduo do mundo, que aborda problemáticas potencialmente capazes de interessar a todos por sua originalidade.

A instalação de lâminas de enxadas, com seu largo desenho sinuoso e seu jogo gráfico tridimensional se inscreve nessa linha de propostas, com suas múltiplas leituras e nos chama a atenção para o pensamento caleidoscópico e inquieto do artista. Outra contribuição notável é a montagem de lâminas de machados com o bico do tucano, que sugere o movimento veloz (e cubista) das asas e a leveza do frágil pássaro, mesmo tendo sido realizada com pesados objetos metálicos que parecem se dissolver magistralmente em seu resultado final, obra hoje inexistente da qual se preservou apenas a documentação fotográfica.

Estudioso e sistemático colecionador da obra de Siron Franco, o Sr. Justo Werlang aponta uma obra e cita uma frase que lhe serve como um referencial quase singelo : "Disseram que Siron pinta tudo o que vê...", - (ou como Ferreira Gullar descreveu com argúcia, "Siron é um homem que reinventa a imagem do mundo, com um poder mágico de tudo transformar em imagem pictórica") e a tela (Um pintor, de 1992), de um impacto invulgar, nos mostra um elegante grafismo que a cobre em sua quase totalidade, formando uma grade de elementos iconográficos em negro sobre uma rica textura de terras e velaturas em ocre e beges, e nesses elementos pintados em preto os símbolos de suas temáticas estão todos presentes, a capivara, o índio, a cobra, a multidão, as peles, a mão espalmada, os objetos indígenas e logo à direita o pintor, o seu cavalete e a sua palheta colorida, numa espécie de releitura de um tema clássico, o do pintor e o seu tema, o do pintor e as suas musas. E a tela apresenta-se revestida de força em sua contemporaneidade, com alma genuína e a ousadia da constante pesquisa.

É importante situar a trajetória de Siron a partir de sua luta para realizar o desejo de ser pintor, de seguir uma vocação artística em toda a sua extensão, num país tão pouco afeito a incentivar as artes plásticas, principalmente entre os menos afortunados.

Siron nasceu muito pobre, de uma família de dez irmãos.

O pai foi inicialmente lavrador e depois barbeiro. A mãe, de lides domésticas, foi costureira e boa cozinheira, pelo menos o suficiente para produzir bolos e pastéis que os pequenos meninos iam vender pelas ruas de Goiânia, Siron inclusive, na busca de um sustento muito sofrido.

Sua vocação para a arte surgiu cedo, porque desenhava bem e nunca parou de fazê-lo. Esse amor ao desenho é perceptível na maneira como estrutura os espaços nas telas, como lhes fornece o arcabouço gráfico e igualmente nas referências anatômicas criadas para seus seres imaginários, para as suas madonas.

Obteve um espaço para sua atividade no cenário artístico brasileiro porque foi perseverante na descoberta dos materiais, da maneira de pintar e, um pouco, como reconhece o próprio Siron Franco, porque estava longe dos grandes centros urbanos, dos grandes museus e das pessoas que teriam dito, com toda a certeza, que lhe seria impossível tornar-se pintor, por suas imensas carências financeiras e pelas suas (compreensíveis) lacunas culturais existentes àquela epoca, hoje lembranças longínquas.

Distante disso tudo, ignorante do obstáculo intransponível de suas limitações , continuou com seu sonho, inventou uma linguagem pictórica particular, superou todas as dificuldades e converteu-se num grande artista, de reconhecimento ampliado.

Natural de Goiás Velho, permanece em seu chão, na Goiânia onde nasceu, cresceu, aprendeu um ofício e de onde faz soar uma trombeta estridente, em defesa de valores caros aos seres humanos de qualquer ponto do planeta.

Foi de Siron Franco a voz mais presente no momento do célebre acidente com o césio em Goiás há alguns anos, quando a irresponsabilidade das autoridades, que deveriam proteger a população, levou à morte várias pessoas simples e desamparadas e ocasionou uma enorme tragédia econômica àquela região do Brasil.

O artista denunciou o desastre e continuou chamando a atenção para o fato, inclusive pintando uma série chamada "Césio", onde se pode encontrar várias referências ao acidente da tristemente famosa Rua 57.

É também um artista significativo em todos os acontecimentos de arte ligados à questão preservacionista, trazendo em seus quadros denúncias sobre a matança de animais e a exterminação criminosa das espécies, perpetrada pela ignorância gananciosa do ser humano, em sua notável e antecipatória série intitulada "Peles".

Siron erigiu um grande monumento em Goiânia, uma espécie de memorial em homenagem aos povos indígenas brasileiros, que, segundo o artista, foram dramaticamente esquecidos, permanecendo perversamente ausentes da memória nacional, que prefere reverenciar o conquistador, o caçador de escravos, o ladrão de riquezas minerais e o devastador das matas.

Foi também a voz intelectual que mais clamou e quem corajosamente denunciou através de um monumento pungente em Brasília, o assassínio covarde de um índio que dormia em condições precárias, num ponto de ônibus da capital brasileira, executado por incêndio, pela maldade inconseqüente de jovens privilegiados na busca desenfreada de emoções diferenciadas que o seu consumismo exacerbado não mais satisfazia. Num país jovem e já extenuado, que aparentemente perdeu a capacidade de indignar-se com a injustiça, o artista Siron Franco é incansável em suas denúncias, atuante na vida cotidiana em defesa de causas eticamente irrepreensíveis, promovendo sua luta quixotesca frente a uma nação quase sempre inerme e silenciosa, através de uma fina produção artística de coerência inusitada e tantas vezes inesperada.

Isso precisa ser colocado com precisão para que a obra possa ser compreendida adequadamente, porque não nos interessa em nenhum momento a qualidade do discurso, uma vez que este é absolutamente desimportante enquanto valor artístico e sim a da obra final, o resultado efetivamente alcançado pelo artista. O monumento-escultura é criativo: uma lâmina de aço córten, oxidada, plantada verticalmente, com recortes de uma silhueta de figura humana e signos gráficos representando chamas, rodeando-a simbolicamente num círculo ritualístico, que reproduzem escultoricamente o relevo igualmente em aço que aflora do chão, num dos lados da obra e que se transforma em seguida em sombra e luzes projetadas no lado oposto da escultura, criando e ampliando uma fraseologia visual com a luz intensa do Brasil central, que a atravessa e a marca no solo, definindo um desenho claro sobre o piso de pedra do passeio público. Um corpo caído, um molde, uma ausência e uma figura luminosa em movimento. Um monumento interessante e vigoroso.

Siron Franco faz parte de um grupo restrito de artistas iconoclastas e profundamente individualizados no que produzem, que não se filiam a escolas nem se lhes pode atribuir lugar em movimentos artísticos coletivos.

Como o cáustico George Grosz, que fez a ácida crônica da Alemanha nazista em suas gravuras expressionistas; como Francis Bacon, um dos grandes pintores ingleses do século XX, com suas parábolas de solidão; como José Luis Cuevas, o extraordinário desenhista e gravador mexicano, que introduziu em sua produção artística uma espécie de realismo mágico com a presença dos elementos dos ritos po-pulares de seu país, a morte, os esqueletos e as caveiras; Siron, o artista brasileiro do interior, e hoje mais do que em qualquer outro momento, um artista do mundo, também tem sua trajetória e poética próprias.

Siron Franco não conta histórias em suas telas. Ele faz aflorar o lado negro, os fantasmas e terrores que estão dentro de cada um de nós. Para tanto, não usa literatura ou um sentido de ilustração, usa seu enorme talento, sua fina sensibilidade e uma sinceridade que nos surpreende e comove.

A exposição do MARGS compõe-se da união de duas das mais importantes coleções da obra de Siron Franco existentes no Brasil, a Coleção Assis Esmeraldo (de São Paulo) e a Coleção Werlang (de Porto Alegre). É importante ressaltar que são coleções extensas, formadas ao longo de vários anos, através de contatos e diálogos constantes com o próprio artista, com visitas periódicas dos colecionadores ao seu atelier em Goiânia e constituídas com o sentido didático da incorporação de obras consideradas importantes para a compreensão desta ou daquela fase, desta ou daquela série.

Assim existiu em cada um dos colecionadores uma preocupação estrita com a qualidade das obras que vieram formando as coleções e a sua abrangência a vários períodos, sendo ambas, de muitas maneiras, complementares entre si. Esses fatos afirmam uma mostra homogênea que permite desde uma observação de telas mais antigas de Siron (como a do Argonauta, de 1973), de trabalhos de todos os seus períodos e séries, com a feliz presença de notáveis obras pouco vistas pelo público, como o célebre díptico Metamorfose (de 1979), incluindo-se aqui também uma grande tela que pertenceu à coleção P.M. Bardi (Título Proibido - 1979), uma das mais importantes da fase em que o pintor começou a ser percebido nacionalmente - a de seus monstros, das figuras misteriosas que neles se ocultam e vivem fantasmagoricamente dentro desses seus hospedeiros - até as mais recentes como as das Séries do Curral, do Césio (Rua 57 - de 1987), e as sensíveis Em Nome do Pai e Sexta Visão (ambas de 1997), onde Siron Franco Franco demonstra amplamente seu trabalho de pintor, desenvolto, muito liberto e coerente com os novos caminhos que elege.

Dessa maneira, a exposição Siron Franco no MARGS é uma rara oportunidade de se observar e estudar de maneira organizada e com obras de altíssimo nível, a trajetória de um dos maiores pintores brasileiros contemporâneos. Conta-se indiretamente com o privilégio da escolha das obras aqui apresentadas, que tiveram previamente a perícia e a acuidade dos "olhos seletivos" dos dois criteriosos e apaixonados colecionadores dos trabalhos de Siron Franco (os Srs. Francisco de Assis Esmeraldo e Justo Werlang), que gentilmente emprestaram suas obras ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli para a realização desta exposição.