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O pintor goiano Siron Franco é hoje
reconhecido internacionalmente, com várias
exposições no Exterior e obras
espalhadas por coleções e acervos de
museus na Europa e nas Américas. Ele
também conta com uma presença
sólida de sua obra junto a colecionadores
brasileiros e, em especial, nos acervos dos museus
mais importantes do Brasil.
Ele ocupa uma posição de protagonista
no cenário artístico brasileiro,
conquistada sem fazer parte de grupos ou de
movimentos teóricos como os que se sucederam
ao longo de algumas décadas a partir dos
anos cinquenta, quando eclodiram as linhas de
pensamento artístico que balizaram a
produção de arte no Brasil, durante
aquele período e por uma longa temporada que
estendeu quase até meados dos anos
oitenta.
Siron teve uma trajetória incomum como
artista, seja porque ela acontecia completamente
fora dos eixos tradicionais de influência
cultural ou porque diferia, essencialmente pela
originalidade de sua pintura, da expectativa que
era disseminada como orientação
aceitável ou previsível pelas
escolas, pela mídia ou pela moda, e que fora
adotada por muitos artistas sintonizados com essas
vertentes.
Naturalmente curioso e um voraz observador do
cotidiano que o cerca, tornou-se capaz de criar um
rico imaginário como poucos artistas o
fizeram - graças a um trabalho fervoroso
dedicado à pintura e ao desenvolvimento de
uma técnica muito particular que o pintor
foi aprendendo de maneira sempre mais aprofundada
em sua concentração diária e
na disciplina solitária de seu atelier.
Siron não é um pintor de cores
folclóricas, nem de amenas paisagens, de
frutas exóticas ou de figuras decorativas
que evoquem paragens nostalgicamente rurais. Ele
não é inofensivo. Ele quer participar
e exige a nossa participação
também. Ferreira Gullar sugere que Siron nos
convida a olhar a sua pintura como se fosse a
primeira vez que vemos uma pintura e é com
esse olhar curioso e desarmado que devemos
fazê-lo. Certamente teremos um grande impacto
e um prazer de idêntica intensidade.
Ele realiza uma pintura onde aparecem figuras que
se mesclam de maneira muitas vezes impressionante.
Seres humanos e animais - macacos, antas,
tamanduás, onças ou serpentes -
surgem justapostos, em sua linguagem singular, que
muitas vezes denuncia, chama a nossa
atenção para a crueldade do ser
humano, em suas relações de poder,
com seus semelhantes e com a própria
natureza.
Em alguns momentos essas figuras inventadas quase
nos assustam, em sua fronteira com o pesadelo, na
exibição de suas
mutilações aterrorizantes, de suas
deformações inevitáveis que
nos sugerem monstros ou pela incômoda
iluminação sutil que brota de seus
interiores como se fossem provenientes de raios-x,
revelando-nos essas figuras como as testemunhas
lúgubres da mortalidade ou da fragilidade
humana.
Também transita sua iconografia por
símbolos que ele adota e explora à
exaustão, como os números, os
grafismos, as peles ou a mão espalmada do
homem, como uma digital denunciadora da
presença, de significação
potente.
Um profundo conhecimento do métier, aliado
às experimentações das
técnicas de pintura, traduzem-se formalmente
na criação de um mundo de imagens
extremamente rico que foi crescendo
ininterruptamente com o passar dos anos.
Siron foi e vai experimentando tudo em pintura.
É como se adotasse uma espécie de
postura "picasseana" frente ao mundo e isso resulte
em conseqüências no próprio
universo da pintura, pela sua ansiedade criativa e
pela interferência de seu inesgotável
dinamismo e de seu fértil talento. É
possível que essa forma de pensar e
trabalhar faça a obra de Siron Franco
suficientemente vigorosa e original para ser
percebida e reconhecida universalmente.
Siron Franco criou um mundo pictórico
próprio, onde suas telas e propostas
estéticas são imediatamente
identificadas como "sironeanas", na palavra do
poeta e crítico de arte Ferreira Gullar. E
esse fato nos é revelado não pela sua
temática e sim pela qualidade de sua
pintura, pelo uso dos planos, da cor, pelo
equilíbrio e pela estruturação
formal, tendo sempre presente um ideal de beleza
sugerido pelo próprio artista.
Isso é facilmente comprovado pelo caminho
que o artista foi trilhando ao longo dos anos. Sua
temática não o aprisionou a quaisquer
fórmulas, porque Siron nunca as adotou,
tendo sido sempre muito livre para enveredar por um
leque de trilhas diversificadas, onde exercitou sua
criatividade ao extremo.
Assim ele passou de uma figuração
mais evidente para os grandes planos
cromáticos, para o informalismo quase
abstrato, para as manchas de cor onde utiliza as
mais variadas técnicas (colagens, relevos,
terra, cores metalizadas, desenhos, grafismos,
etc.) sem as travas e as censuras de caráter
ideológico ou das teorias estéticas
que tanto cercearam artistas ou que funcionaram
como eficazes paradigmas do "bom-gosto"
oficial.
Siron, em sua liberdade, manteve-se distanciado dos
preconceitos e isso parece ter-lhe sido bastante
saudável. As figuras estiveram sempre
presentes em sua obra, mesmo naquelas em que
aparecem menos evidentes e isso não
significa que ele não possa voltar a
mostrá-las de maneira mais explícita
quando isso lhe parecer adequado ou representar a
emergência de uma necessidade interior.
Isso sinaliza que a pintura que Siron Franco nos
propõe é bastante humanizada. Assim,
ela nos toca profundamente. E cria pontos de
ligação com uma realidade mais ampla,
que muitas vezes deixamos de ver, afogados pelo
cotidiano, pelo entretenimento ou pelo
cansaço natural. Essa pintura nos faz
refletir sobre nossa existência e sobre nosso
próprio desempenho frente a coisas e
necessidades comuns a todos - a natureza, a
preservação das espécies e do
meio ambiente, a violência, a ética, a
educação e a cultura. Esses
são bons motivos para uma atividade como
pintar e certamente um bom papel para um
indivíduo como artista, papel que Siron
Franco sempre soube desempenhar com
desenvoltura.
Com todos os seus sentidos voltados para o processo
criativo, ele é capaz de transformar os
objetos mais simples em surpreendentes obras de
arte, numa precisa coerência com sua
condição de artista brasileiro, do
interior do continente latino-americano,
não-domesticado e tampouco colonizado por
parâmetros estéticos de outras
realidades culturais e, ao mesmo tempo, de
cidadão-indivíduo do mundo, que
aborda problemáticas potencialmente capazes
de interessar a todos por sua originalidade.
A instalação de lâminas de
enxadas, com seu largo desenho sinuoso e seu jogo
gráfico tridimensional se inscreve nessa
linha de propostas, com suas múltiplas
leituras e nos chama a atenção para o
pensamento caleidoscópico e inquieto do
artista. Outra contribuição
notável é a montagem de lâminas
de machados com o bico do tucano, que sugere o
movimento veloz (e cubista) das asas e a leveza do
frágil pássaro, mesmo tendo sido
realizada com pesados objetos metálicos que
parecem se dissolver magistralmente em seu
resultado final, obra hoje inexistente da qual se
preservou apenas a documentação
fotográfica.
Estudioso e sistemático colecionador da obra
de Siron Franco, o Sr. Justo Werlang aponta uma
obra e cita uma frase que lhe serve como um
referencial quase singelo : "Disseram que Siron
pinta tudo o que vê...", - (ou como Ferreira
Gullar descreveu com argúcia, "Siron
é um homem que reinventa a imagem do mundo,
com um poder mágico de tudo transformar em
imagem pictórica") e a tela (Um pintor, de
1992), de um impacto invulgar, nos mostra um
elegante grafismo que a cobre em sua quase
totalidade, formando uma grade de elementos
iconográficos em negro sobre uma rica
textura de terras e velaturas em ocre e beges, e
nesses elementos pintados em preto os
símbolos de suas temáticas
estão todos presentes, a capivara, o
índio, a cobra, a multidão, as peles,
a mão espalmada, os objetos indígenas
e logo à direita o pintor, o seu cavalete e
a sua palheta colorida, numa espécie de
releitura de um tema clássico, o do pintor e
o seu tema, o do pintor e as suas musas. E a tela
apresenta-se revestida de força em sua
contemporaneidade, com alma genuína e a
ousadia da constante pesquisa.
É importante situar a trajetória de
Siron a partir de sua luta para realizar o desejo
de ser pintor, de seguir uma vocação
artística em toda a sua extensão, num
país tão pouco afeito a incentivar as
artes plásticas, principalmente entre os
menos afortunados.
Siron nasceu muito pobre, de uma família de
dez irmãos.
O pai foi inicialmente lavrador e depois barbeiro.
A mãe, de lides domésticas, foi
costureira e boa cozinheira, pelo menos o
suficiente para produzir bolos e pastéis que
os pequenos meninos iam vender pelas ruas de
Goiânia, Siron inclusive, na busca de um
sustento muito sofrido.
Sua vocação para a arte surgiu cedo,
porque desenhava bem e nunca parou de
fazê-lo. Esse amor ao desenho é
perceptível na maneira como estrutura os
espaços nas telas, como lhes fornece o
arcabouço gráfico e igualmente nas
referências anatômicas criadas para
seus seres imaginários, para as suas
madonas.
Obteve um espaço para sua atividade no
cenário artístico brasileiro porque
foi perseverante na descoberta dos materiais, da
maneira de pintar e, um pouco, como reconhece o
próprio Siron Franco, porque estava longe
dos grandes centros urbanos, dos grandes museus e
das pessoas que teriam dito, com toda a certeza,
que lhe seria impossível tornar-se pintor,
por suas imensas carências financeiras e
pelas suas (compreensíveis) lacunas
culturais existentes àquela epoca, hoje
lembranças longínquas.
Distante disso tudo, ignorante do obstáculo
intransponível de suas
limitações , continuou com seu sonho,
inventou uma linguagem pictórica particular,
superou todas as dificuldades e converteu-se num
grande artista, de reconhecimento ampliado.
Natural de Goiás Velho, permanece em seu
chão, na Goiânia onde nasceu, cresceu,
aprendeu um ofício e de onde faz soar uma
trombeta estridente, em defesa de valores caros aos
seres humanos de qualquer ponto do planeta.
Foi de Siron Franco a voz mais presente no momento
do célebre acidente com o césio em
Goiás há alguns anos, quando a
irresponsabilidade das autoridades, que deveriam
proteger a população, levou à
morte várias pessoas simples e desamparadas
e ocasionou uma enorme tragédia
econômica àquela região do
Brasil.
O artista denunciou o desastre e continuou chamando
a atenção para o fato, inclusive
pintando uma série chamada "Césio",
onde se pode encontrar várias
referências ao acidente da tristemente famosa
Rua 57.
É também um artista significativo em
todos os acontecimentos de arte ligados à
questão preservacionista, trazendo em seus
quadros denúncias sobre a matança de
animais e a exterminação criminosa
das espécies, perpetrada pela
ignorância gananciosa do ser humano, em sua
notável e antecipatória série
intitulada "Peles".
Siron erigiu um grande monumento em Goiânia,
uma espécie de memorial em homenagem aos
povos indígenas brasileiros, que, segundo o
artista, foram dramaticamente esquecidos,
permanecendo perversamente ausentes da
memória nacional, que prefere reverenciar o
conquistador, o caçador de escravos, o
ladrão de riquezas minerais e o devastador
das matas.
Foi também a voz intelectual que mais clamou
e quem corajosamente denunciou através de um
monumento pungente em Brasília, o
assassínio covarde de um índio que
dormia em condições precárias,
num ponto de ônibus da capital brasileira,
executado por incêndio, pela maldade
inconseqüente de jovens privilegiados na busca
desenfreada de emoções diferenciadas
que o seu consumismo exacerbado não mais
satisfazia. Num país jovem e já
extenuado, que aparentemente perdeu a capacidade de
indignar-se com a injustiça, o artista Siron
Franco é incansável em suas
denúncias, atuante na vida cotidiana em
defesa de causas eticamente irrepreensíveis,
promovendo sua luta quixotesca frente a uma
nação quase sempre inerme e
silenciosa, através de uma fina
produção artística de
coerência inusitada e tantas vezes
inesperada.
Isso precisa ser colocado com precisão para
que a obra possa ser compreendida adequadamente,
porque não nos interessa em nenhum momento a
qualidade do discurso, uma vez que este é
absolutamente desimportante enquanto valor
artístico e sim a da obra final, o resultado
efetivamente alcançado pelo artista. O
monumento-escultura é criativo: uma
lâmina de aço córten, oxidada,
plantada verticalmente, com recortes de uma
silhueta de figura humana e signos gráficos
representando chamas, rodeando-a simbolicamente num
círculo ritualístico, que reproduzem
escultoricamente o relevo igualmente em aço
que aflora do chão, num dos lados da obra e
que se transforma em seguida em sombra e luzes
projetadas no lado oposto da escultura, criando e
ampliando uma fraseologia visual com a luz intensa
do Brasil central, que a atravessa e a marca no
solo, definindo um desenho claro sobre o piso de
pedra do passeio público. Um corpo
caído, um molde, uma ausência e uma
figura luminosa em movimento. Um monumento
interessante e vigoroso.
Siron Franco faz parte de um grupo restrito de
artistas iconoclastas e profundamente
individualizados no que produzem, que não se
filiam a escolas nem se lhes pode atribuir lugar em
movimentos artísticos coletivos.
Como o cáustico George Grosz, que fez a
ácida crônica da Alemanha nazista em
suas gravuras expressionistas; como Francis Bacon,
um dos grandes pintores ingleses do século
XX, com suas parábolas de solidão;
como José Luis Cuevas, o
extraordinário desenhista e gravador
mexicano, que introduziu em sua
produção artística uma
espécie de realismo mágico com a
presença dos elementos dos ritos po-pulares
de seu país, a morte, os esqueletos e as
caveiras; Siron, o artista brasileiro do interior,
e hoje mais do que em qualquer outro momento, um
artista do mundo, também tem sua
trajetória e poética
próprias.
Siron Franco não conta histórias em
suas telas. Ele faz aflorar o lado negro, os
fantasmas e terrores que estão dentro de
cada um de nós. Para tanto, não usa
literatura ou um sentido de
ilustração, usa seu enorme talento,
sua fina sensibilidade e uma sinceridade que nos
surpreende e comove.
A exposição do MARGS compõe-se
da união de duas das mais importantes
coleções da obra de Siron Franco
existentes no Brasil, a Coleção Assis
Esmeraldo (de São Paulo) e a
Coleção Werlang (de Porto Alegre).
É importante ressaltar que são
coleções extensas, formadas ao longo
de vários anos, através de contatos e
diálogos constantes com o próprio
artista, com visitas periódicas dos
colecionadores ao seu atelier em Goiânia e
constituídas com o sentido didático
da incorporação de obras consideradas
importantes para a compreensão desta ou
daquela fase, desta ou daquela série.
Assim existiu em cada um dos colecionadores uma
preocupação estrita com a qualidade
das obras que vieram formando as
coleções e a sua abrangência a
vários períodos, sendo ambas, de
muitas maneiras, complementares entre si. Esses
fatos afirmam uma mostra homogênea que
permite desde uma observação de telas
mais antigas de Siron (como a do Argonauta, de
1973), de trabalhos de todos os seus
períodos e séries, com a feliz
presença de notáveis obras pouco
vistas pelo público, como o célebre
díptico Metamorfose (de 1979), incluindo-se
aqui também uma grande tela que pertenceu
à coleção P.M. Bardi
(Título Proibido - 1979), uma das mais
importantes da fase em que o pintor começou
a ser percebido nacionalmente - a de seus monstros,
das figuras misteriosas que neles se ocultam e
vivem fantasmagoricamente dentro desses seus
hospedeiros - até as mais recentes como as
das Séries do Curral, do Césio (Rua
57 - de 1987), e as sensíveis Em Nome do Pai
e Sexta Visão (ambas de 1997), onde Siron
Franco Franco demonstra amplamente seu trabalho de
pintor, desenvolto, muito liberto e coerente com os
novos caminhos que elege.
Dessa maneira, a exposição Siron
Franco no MARGS é uma rara oportunidade de
se observar e estudar de maneira organizada e com
obras de altíssimo nível, a
trajetória de um dos maiores pintores
brasileiros contemporâneos. Conta-se
indiretamente com o privilégio da escolha
das obras aqui apresentadas, que tiveram
previamente a perícia e a acuidade dos
"olhos seletivos" dos dois criteriosos e
apaixonados colecionadores dos trabalhos de Siron
Franco (os Srs. Francisco de Assis Esmeraldo e
Justo Werlang), que gentilmente emprestaram suas
obras ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado
Malagoli para a realização desta
exposição.
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