Ensaio Aberto

Cleber Papa

Bem mais que uma história de amor

"O Guarani" é uma ópera de dificuldades especiais e a principal delas reside na imagem amplamente difundida através dos meios de comunicação que o público possui deste momento importante da história do nosso país.

Por esta razão, deste o princípio, buscamos manter os elementos iconográficos mais favoráveis e privilegiar a dramaturgia proposta pela obra. Esta, uma ópera-ícone da formação do povo brasileiro em que as relações entre índios e colonizadores brancos é expressa no ideário romântico do século XIX. Estão presentes a descoberta e amadurecimento do amor juvenil, culturas em conflito, os pontos de vista dos grupos em litígio, o exotismo romântico das relações entre Peri, o Cacique e Cecília, a chacina dos Aimorés – fato concreto de meados do século XVI, os conflitos entre tribos rivais. Todos estes elementos estão combinados dramaticamente no texto e subtexto da obra e a partir deles criei uma linha de direção mantendo a fidelidade ao libreto e às particularidades musicais, auxiliado por um elenco de grande estatura.

Chamo a atenção para o tratamento musical e dramático dado a Pery. Distante da imagem do “bom selvasgem”, o Pery de Eduardo Itaborahy, sem perder a galhardia, é menos heráldico que nas versões registradas da obra. O personagem é sensual, afetuoso e heróico com gestos contidos, sem exageros. A Cecília de Gabriela pace por sua vez evolui da ingênua adolescente na sua primeira aparição, passando da jovem apaixonada no dueto com Pery, da mulher profundamente magoada no segundo ato quando é atacada pelo vilão, da vítima de preconceito e novamente seduzida no terceiro ato, até a filha desconsolada e amante no quarto ato. Uma saga vigorososa e romântica. Gonzales continua o sem caráter, porém teve valorizadas musicalmente sua relação afetiva com Cecília. O personagem é descontrolado, sem limites, irônico, patético no seu amor impossível. Daniel Lee surge em dois grandiosos momentos como ator na luta com Pery e na cena do quarto de Cecília onde a tensão musical proposta por Carlos Gomes oferece uma grande oportunidade de interpretação. O Cacique é revisto com Steven Bronk. A opção por usar um baixo-barítono dá a oportunidade de rever o lirismo do personagem fazendo com que ganhe em delicadeza.

A luz é moderna, nada é lavado, sombras, frestas, brilhos e contornos estão sempre presentes definindo o espaço-tempo.Todos os elementos estéticos e efeitos cênicos foram desenvolvidos para contar a história numa visão romântica e de forma a oferecer um espetáculo de impacto para o público.

Esta produção tem um sabor especial pois marca meu primeiro trabalho no Estado em que nasci, uma origem que não se perde seja na fala, nos relacionamentos, na maneira de olhar e de encarar o futuro.

Ao dirigir este espetáculo não posso deixar de mencionar JúlioMedaglia, Luiz Malheiro, Plamen Kartaloff e Iacov Hillel, regentes e diretores com quem tivemos (eu e Rosana Caramaschi) a satisfação de produzir "O Guarani", em Sofia, Manaus e Lisboa onde também deram sua contribuição importante para a difusão desta obra fundamental de Antonio Carlos Gomes. Agradeço à Fundação Clóvis Salgado e toda a sua equipe pelo empenho e generosidade com que ofereceram as condições necessárias para sua realização.

Cleber Papa

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