Ensaio Aberto

Cleber Papa

Concursos são instrumentos de aperfeiçoamento - Publicado na Revista Concerto - Edição Março 2004

Enquanto concluímos os preparativos para a quinta edição do Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão que se realizará em Belém, no Estado do Pará, em Abril de 2004, do outro lado do Atlântico, terminou em 25 de Janeiro, o quadragésimo primeiro Concurso Francesc Viñas em Barcelona -Espanha. Uma maratona que reuniu 276 cantores, de um universo de 444 inscritos, vindos de 47 países.

O Concurso Viñas ainda que tenha dado o justo primeiro lugar ao jovem tenor espanhol Antonio Gandia (vamos ouvir muito falar dele) evidenciou mais uma vez que faltam bons tenores. O Concurso foi um amplo desfile de bons barítonos, alguns baixos de excelente padrão (destaquemos o baixo turco Tuncay Kurtoglu) e sopranos de qualidade em todos os timbres (destaque para o segundo lugar, a coreana Jee Hye Sohn, solista de altíssimo nível técnico e para o grande premio feminino de Tatiana Mazurenko). Fica para o expectador, como em todo Concurso, a sensação de que este ou aquele cantor poderia estar entre os finalistas, de que "acertamos" quatro dos ganhadores, que aquele cantor que conhecemos poderia estar ali competindo, que isto ou aquilo. Fica, entretanto, para o profissional a certeza de que todos os duzentos e tantos participantes fizeram a coisa certa. Tiveram a segurança de se expor, mas, em escala muito mais profunda, souberam aproveitar a oportunidade de crescimento que a participação nas competições oferece. Os concursos são um espelho de técnica e possibilidades. São uma porta aberta para o caminho profissional, pois é dali que saem as referências. Um exemplo disto, foi a participação do barítono gaúcho Guilherme Pires Rosa, primeiro lugar no Bidu Sayão de 2003, saindo de Barcelona com o Prêmio Extraordinário do Júri que lhe permitirá estudar Interpretação Musical e Técnica Vocal na Fundação Francesc Viñas na condição de Bolsista. Nas muitas conversas que tivemos, dizia ao Guilherme que o investimento de ir ao Concurso só faria sentido se ele estivesse atento às informações que os competidores oferecem, aproveitando para conversar com os membros do júri, alguns que ele conhecia do próprio Bidu Sayão. No caso dele, barítono, refletir sobre as apresentações dos demais candidatos, observar, por exemplo, que todos que cantaram a ária de Fígaro, como se saídos de uma linha de produção, faziam os mesmos gestos curvilíneos para representar as mulheres, ignorando as infinitas possibilidades dramatúrgicas que o texto e a música oferecem, não tendo medo de fazer humor quando necessário, fazendo chorar sempre que o texto assim exigir. Ele mesmo reconheceu que ao saber do número de candidatos via como impossível chegar às finais e menos ainda ser reconhecido com um prêmio por menor que fosse. Não chegou às finais, mas levou o prêmio. E com a mesma motivação de que "preciso sair do Rio Grande do Sul, atravessar o país e ir a Belém", Guilherme acompanhou os 15 dias de competição. Tenho a certeza de que ele saiu de Barcelona com alguns anos de trabalho economizados nas salas de aula. Nós saímos com a convicção de que nem a distância oceânica nos separa, já que no Brasil está-se fazendo um trabalho sério em prol do canto de qualidade.

Cleber Papa
Diretor da São Paulo ImagemData, diretor cênico e produtor

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