Ensaio Aberto

Cleber Papa

Reflexões sobre a atividade do pianista preparador

Venho tecer algumas considerações com o intuito de auxiliar o processo de reconhecimento da atividade do pianista acompanhador que, por razões naturais, muitas vezes é encarado como um mero suporte técnico à atividade do canto e não na verdadeira dimensão de seu trabalho, a meu ver imprescindível para o sucesso de inúmeras iniciativas.

No desempenho de minhas atividades, seja de diretor cênico, seja de produtor de espetáculos de ópera, tenho procurado trabalhar com os melhores profissionais da área em todos os meus projetos. De fato, são ainda poucos pianistas no Brasil habilitados a cumprir todas as exigências de qualidade da ópera. Mas esta elite existente precisa de apoio inclusive para auxiliar na formação de outros profissionais para o segmento.

O entendimento de suas atribuições passa pelo próprio nome da atividade. Ao invés de pianista acompanhador, repetidor ou co-repetidor, melhor seria o título de pianista preparador, pois, de fato, se exige uma abrangência muito maior que a função prevista.

Para melhor ampliar o conceito, valho-me de trecho de texto recente do Maestro Henrique Lian a respeito do piano e a ópera:

“Todos os que atuam no universo da ópera compreendem muito bem o papel das chamadas "reduções para piano" na preparação de regentes, cantores solistas, coralistas, diretores cênicos e pessoal de apoio (como operadores de luz, maquinário e legendas), tanto durante os ensaios individuais dos artistas quanto nos necessários ensaios de cena sem orquestra, além de servirem de guia e suporte durante as próprias récitas. De forma muito mais imediata, e principalmente econômica, a versão pianística de uma ópera desempenha a função quase heróica, senão utópica, de captar o essencial de uma partitura completa e reproduzi-la, em preto-e-branco (sem os matizes dos diversos instrumentos da orquestra), preservando, tanto quanto possível, sua estrutura e estilo originais.”

Este conceito amplia corretamente a visão da função do pianista preparador que serve de instrumento lúcido para a realização do espetáculo em todos os níveis do relacionamento profissional. É de sua responsabilidade estar atento a diversas necessidades:

1- conhecer profundamente o instrumento.

2- conhecer os diferentes estilos: o piano deve “fazer um baixo contínuo”, soar sutil e delicado em Mozart, com peso em Verdi.

3- a compreensão da redução de piano e sua relação com a partitura de orquestra. Em trabalho conjunto com um regente, deve reconhecer as várias possibilidades e exigências da regência, suas variações de andamento, interpretação e, na ausência do regente, substituí-lo nos ensaios, preparando os cantores conforme as determinações recebidas.

4- conhecer voz e isto significa entender as necessidades e dificuldades do canto, sua fisiologia, os estilos de cada registro, a história do canto e seus intérpretes, os padrões tradicionais reconhecidos entre outros inúmeros aspectos.

5- em trabalho conjunto com o diretor cênico, entender as exigências cênicas e auxiliar a preparação vocal identificando possibilidades de interpretação musical, modificando tempos etc em ação coordenada com a direção musical do espetáculo.

6- conhecer profundamente o trabalho de preparação de coro, auxiliando o regente no estabelecimento dos diálogos entre os diversos registros, os padrões de interpretação entre outros.

7- caso trabalhe no apoio à produção de espetáculos, durante as apresentações, seu trabalho pode ampliar-se auxiliando a direção de palco, dando entradas de solistas, figurantes, materiais de contra-regra, ruídos e efeitos especiais, aberturas e fechamentos de cortina, mudanças de cena entre outros.

8- ainda em espetáculos, sua presença auxiliar é necessária na projeção de legendas (sub-títulos traduzidos) fundamentais na ópera moderna.

Como se pode observar, o pianista acompanhador (preparador, como prefiro) é um profissional especial. Sua função não é autômata. Pelo contrário, seu papel junto ao cantor é de professor e orientador – preparador, portanto – sendo responsável por deixar o cantor preparado para apresentar-se.

Nos conservatórios, escolas e faculdades seu papel é a base de sustentação para a formação do cantor e sua atuação é de construção da voz em conjunto com os professores de canto ou, quando atua com o aluno isoladamente, repetindo e ampliando as ações propostas nas aulas. Nos espetáculos, seu trabalho é complementar do professor de canto, pois atua com o pressuposto de que o cantor esteja pronto e seu papel é prepará-lo segundo premissas estabelecidas pelas direções musical e cênica.

Cleber Papa

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