Ensaio Aberto

Cleber Papa

Bug Jargal, uma história de liberdade- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2005

Em 14 de julho de 1789, a população francesa se rebela contra o poder absoluto do rei, com a tomada da Bastilha, e, com a revolução, ficam para sempre firmados os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade, nasce a Declaração Universal dos Direitos do Homem, fatos limítrofes para algumas correntes de pensamento que os vêem como o fim da Idade Moderna e o início da chamada Idade Contemporânea.

Em 1791, no Haiti, uma revolta de escravos negros, liderados por Toissant L'Overture, movidos pelo mesmo sentimento de liberdade, toma o poder dos franceses.

Alguns anos mais tarde, Victor Hugo (1802-1885), já imbuído do espírito humanista que faria dele um marco na literatura mundial, escreve sua primeira novela (Bug Jargal), provavelmente inspirado em L'Overture e nos acontecimentos que se seguiram na ex-colônia da França.

Gama Malcher, cinco anos após a morte de Victor Hugo, estréia a ópera Bug Jargal, tendo adotado sua obra de juventude como tema, certamente por motivações semelhantes. Afinal, no Brasil a República fora proclamada em 1889, o tema da libertação dos escravos estava presente e era um anseio particular do pensamento nacional.

Bug Jargal tem sua ação em 1790 e está no epicentro dos fatos libertários e da revolta no Caribe.

O Haiti tem uma história conturbada por sucessivos incidentes em seus 196 anos, marcada por fatos de extrema violência. Ainda hoje, vêem-se os reflexos de um movimento revolucionário que promoveu a independência em 1804, quase um século antes das demais nações da região. Uma história de revoltas, de sofrimento, de sangue.

Neste contexto surge uma ópera cujo tema central é o amor de única via do personagem central, colocado acima de todos os ideais.

A montagem de Bug Jargal foi cercada de vários desafios, e, o principal deles, a ausência de partituras, gravações ou quaisquer outros elementos que permitissem um primeiro contato com a música da ópera. Por razões óbvias, é praticamente impossível a absoluta isenção quando se monta um título conhecido, por mais que o diretor se esforce em "apagar" da memória imagens e sons que fazem parte até do inconsciente coletivo em alguns casos. Em Bug Jargal, não. Somente viemos a conhecer de fato a música quando o maestro Roberto Duarte encerrou a revisão da edição do professor Márcio Páscoa e ambos concluíram as partituras, finalmente prontas para serem utilizadas.

Gama Malcher não fez notações dramatúrgicas e de ambientação na partitura. Tínhamos a música e o texto de cada personagem. Para definir uma linha de direção, recorri à sinopse da ópera apresentada no Programa da encenação original (de 1890), onde havia uma breve descrição da ação em cada cena. A partir disto, ouvindo a música ao piano e identificando as prováveis intenções do compositor, consegui desenvolver um fio condutor para a ação. Daí sairiam os cenários de David Higgins, os figurinos e todo o detalhamento do espetáculo com a criação de personagens e ações secundárias, efeitos, objetos e adereços.

O maestro Roberto Duarte propôs ainda um desafio que, apesar de tão óbvio - parece um ovo de Colombo -, muda radicalmente a minha maneira de encarar a direção de ópera a partir daqui e a percepção de que o teatro de ópera, nas palavras do próprio maestro, "deve ter como ponto de partida a encenação", que, por sua vez, deve estar fundamentada em idéias inclusive musicais. Isto significa que, sem perder de vista a supremacia da música e da composição, o encenador precisa propor idéias e discuti-las com o diretor musical, e este, na sua área de competência, materializar o conjunto daquela realização.

O maestro pediu que definisse compasso a compasso qual a minha proposta de interpretação, para que pudesse, a partir daí, fazer a direção musical do espetáculo. Assim foi feito. Detalhada toda a ópera, fomos nos reunindo várias vezes, discutindo as opiniões, revendo idéias e conceitos, criando juntos efeitos cênicos e musicais. Desta forma, Bug Jargal nasceu como produção madura, em perfeita harmonia entre a direção cênica e musical. Busquei inclusive integrar os bailados à cena para que também sua ação pudesse ser procedente, e não uma dança inserida no espetáculo para atender a um formato de composição, uma exigência do modelo à época de Malcher.

O espetáculo em si reflete a obra original e a interpretação dos fatos que deram origem à trama. Procurei marcar na visão dramatúrgica os principais aspectos presentes na história do Haiti, tendo a belíssima música de Gama Malcher como um forte instrumento a favor dos sentimentos originais de Victor Hugo.

De tudo o que foi feito ficaram muitas satisfações.
A principal delas, a grande lição de seriedade, de paixão pela música, de apego à qualidade do maestro Roberto Ricardo Duarte, um mestre a quem rendo um tributo de profundo respeito.

Cleber Papa
Diretor

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