Ensaio Aberto

Cleber Papa

Sobre encantamentos e magias- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2006

Toda a lenda é ingênua e Iara não confirma a exceção à regra. Se perguntarmos, serão raros os brasileiros que não têm a sua versão particular para a saga da personagem. Sereia, mãe-d'água, uma espécie de Iemanjá, cobra-d'água, bruxa dos rios, um pouco de tudo numa mistura de idéias e conceitos que torna praticamente impossível saber de fato qual é a imagem construída no boca-a-boca das margens dos rios. Segundo Câmara Cascudo e outros tantos folcloristas, Iara é uma personagem lendária que atrai os homens para o fundo dos rios e oceanos matando-os afogados.

É assim que o caboclo narra o desaparecimento deste ou daquele vizinho, conhecido por sua habilidade como caçador, pescador, pela destreza ao nadar nas águas vizinhas, por sua desenvoltura com as mulheres, sendo esta a única justificativa possível quando seu corpo aparece morto com os lábios mordidos pelos peixes - pelos beijos de Iara.

Iara é uma personagem universal, na essência presente no lendário atemporal de várias civilizações e culturas. Gama Malcher consegue construir uma preciosa composição, com achados musicais absolutamente geniais - atente-se para como desenvolve os temas de Sachena, o diálogo do coro com Ubira, a melodia da primeira ária de Begiuchira -, a partir de um libreto de surpreendente simplicidade, e nisto mantém a coerência com a própria natureza da lenda.

Ora, o diretor é livre para criar, seja diante de uma obra de extremo rigor métrico no texto ou a partir da superfície de outra sem qualquer requinte de construção. Para mim, tanto aqui quanto ali, as dificuldades são as mesmas, pois o processo de criação é idêntico e, em ambos, o espetáculo é construído a partir de idéias próprias e daquelas apresentadas pelo compositor na peça original.

O trabalho de pesquisa que orientou a direção de Iara permitiu a leitura de pelo menos cinco dezenas de visões diferentes da lenda, a partir de fontes confiáveis.

Foram levantadas algumas centenas de pinturas relativas ao tema e inúmeras referências iconográficas. Como já havia dirigido Bug-Jargal e agora Iara , ambas de Gama Malcher, decidi adotar um partido que tivesse um pouco da cultura paraense. Sempre fiquei muito intrigado com as histórias de civilizações perdidas, mistérios de tesouros não encontrados, entre outros assuntos desta ordem.

Ao tentar imaginar o Reino de Iara, de que todos falam, mas ninguém descreve - por razões óbvias -, lembrei-me da civilização tapajônica, desaparecida como tantas outras sociedades e da qual só existem referências arqueológicas, e com ela vieram todas as histórias de Eldorado, das Amazonas, de reinos perdidos na floresta, de seres encantados e magias. Decidi que o Reino de Iara seria Tapajó, misteriosamente abrigado no fundo dos rios da Amazônia. Lá vivem seres misteriosos dentro de uma imensa abóbada subaquática, onde pedrarias e metais fazem parte dos adornos e das magias, criando um outro tipo de riqueza que não a mercantil: a beleza e o encantamento. Ao ir para o Reino de Iara, o homem morre e para isso passa por um rito de renascimento nesta nova vida.

A idealização deste reino foi ampliada na série de visitas que fiz ao Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP), que possui diversas publicações e um acervo de mais 8 mil peças, recolhidos em sítios arqueológicos na Amazônia. Tendo em vista Iara e seus pares, procurei encontrar justificativas para a lenda, e, sendo toda forma de expressão um reflexo interior de seus agentes, o surgimento do tema está amparado pela própria natureza do ser humano, construtora das suas fantasias, arrebatadora na maneira como os indivíduos tentam enxergar os outros e interpretar seus sentimentos e ações.

Desta forma, Iara - a lenda - é vista como uma mulher sedutora, fútil, de interesses hedonistas, de motivação banal e sob seus próprios desígnios. Iara é uma caçadora de homens, sem nenhuma motivação afetiva. Tendo atraído um novo par ao seu reino, contempla-o com satisfação, admira-o como um novo fetiche e descarta-o, buscando em seguida outro com as mesmas promessas de uma vida de eternos prazeres. Não há diferença alguma entre Iara e a mulher de qualquer época ou sociedade com comportamento semelhante.

Begiuchira, por sua vez, é um homem comum, simples, tímido, sem parâmetros claros, o anti-herói trapalhão, um indivíduo que mantém sua identidade cultural por meio do nome indígena, de alguns adornos, seduzido por suas fantasias e insatisfações pessoais, por sua falta de perspectivas afetivas e consciência de suas próprias capacidades. É um ribeirinho pescador/caçador que vive com os seus à margem dos rios amazônicos e à margem da chamada sociedade civilizada. Sua vida é atemporal: poderia, pode ou poderá ser como é.

Ubira, por sua vez, na mesma medida civilizatória de Begiuchira, é, entretanto, um personagem que reflete a respeito das ameaças que o cercam e consegue ver em Iara a fantasia indesejada. Também é seduzido por ela e a leva a sério o suficiente para afastar-se e ver o perigo que corre. Begiuchira, mesmo sabendo do caráter volúvel de Iara, acredita amá-la e a deseja para si.

Para escolher a linha a ser adotada nos figurinos, procurei dar um caráter diferente a cada "reino". Os ribeirinhos deveriam ser tratados com texturas mais rústicas e uma palheta de cores que trabalharia os tons de marrons e as cores da terra. O desenho das roupas, entretanto, não deveria contemplar um corte "indígena" (para evitar uma datação ou caricatura da realidade), nem mesmo modernizá-lo com calções ou sandálias óbvias, mas que, utilizando elementos que preservassem a identidade que fosse uma roupa criada, inspirada em elementos da cultura, fora do nosso tempo, em um período distante ou próximo, demonstrasse a longevidade da lenda. Já os seres do rio deveriam encarnar uma sociedade tapajó atlante, misteriosa, de regras e propósitos próprios, onde homens - incautos atraídos, usados e abandonados por Iara - vivem com as ninfas. E mesmo que o libreto não estabeleça que tipo de relações são tratadas naquele reino, procurei traduzi-lo em tons de azul com pedras e peças de cerâmica, afundadas nas areias do rio, resultado da ação do tempo nas construções de uma civilização que deixou de existir de forma concreta.

A luz solicitada e proposta deveria valorizar as cores imaginadas da mata, do fundo dos rios, com texturas e atmosferas nos tempos descritos no libreto e transpostos em livre criação para o espetáculo. Procurei ser fiel ao libreto, mantendo ao máximo suas citações e acrescentando outras tantas que dariam o acento dramático que sempre busco no meu trabalho. Para os bailados, mantive a coerência.

Begiuchira jamais chegaria ao fundo do rio vivo, mas morto e renascido entre e pelos tecidos e pedrarias místicos utilizados pelas ninfas (as bailarinas) de Iara. Coisas das encantarias amazônicas, das plantas, dos fluidos, dos seres da floresta, da magia oculta entre as árvores e cipós, das luzes furtivas e voláteis nos recantos obscurecidos pelas copas. Este território é tratado na cenografia com linhas retas, como uma possibilidade baseada na floresta tangível. O Reino de Iara - a fantasia - é orgânico e construído como real e natural.

A realidade como fantasia e seu inverso tratam da abstração sensível.

Afinal, estamos todos envoltos por encantamentos nunca vistos.

 

Cleber Papa

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