Ensaio Aberto

Gilberto Chaves

Macbeth, a experiência do absoluto teatral - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2002

Estreada em 1847, em Florença, Macbeth é uma das últimas obras do primeiro período verdiano, bem próxima, portanto, da célebre trilogia que se inicia em 1851 com Rigoletto, Il Trovatore e La Traviata, que consolidam definitivamente a fama de grande mestre do compositor de Roncole. Faço essa referência para afirmar ser uma grande injustiça que a auréola definitiva de Verdi não tenha se iniciado, quatro anos antes, com Macbeth. Esta ópera traz, na dedicatória que o compositor faz a Barezzi (seu protetor na juventude e pai de sua primeira esposa), um veemente testemunho de Verdi de que havia escrito sua melhor obra, isso decerto pelo desejo de superação com que enfrentou a partitura, seu primeiro diálogo com o dramaturgo que mais amava e que, como ele mesmo ressaltava, constituía sua bíblia cotidiana: William Shakespeare. O futuro daria a Verdi a oportunidade de voltar ao mundo desse insuperável dramaturgo para produzir, em plena maturidade, suas duas últimas e maiores obras: Otello e Falstaff.

Alberto Moravia, em seu ensaio sobre Verdi e Shakespeare, acentua que a grande identidade entre os dois é o profundo conhecimento que tinham da alma humana. Ora, todos nós sabemos que quando esse universo de conhecimento traduz-se em música provoca na ação temática um alargamento, uma tal intensidade, que se torna impossível saber a sua extensão nas reações que produz no espírito de cada ouvinte. Poderia dar dezenas de exemplos desse dimensionamento maior que resulta da união perfeita entre música, palavra e ação dramática, mas ficarei com alguns essenciais, como Tristão e Isolda de Wagner, Don Giovanni de Mozart, Boris Godunov de Mussorgsky e Otello de Verdi.

Não se deve, entretanto, perder a perspectiva de que Macbeth foi composta quando Verdi tinha 33 anos, portanto, uma obra considerada ainda do final de sua juventude. Verdi tinha consciência de se defrontar com uma das mais complexas tragédias shakespearianas, o que o incitou a escolhê-la para convencer Francesco Maria Piave e Andrea Maffei a lhe fornecer o libreto da peça. A conseqüência foi uma partitura extremamente mais rica e audaciosa em toda a sua estrutura, se comparada à sua produção anterior, embora esta envolvesse grandes obras como Nabucco, Luisa Miller e Ernani.

Verdi usou uma linguagem musical não concessiva aos padrões românticos e ao gosto da época, linguagem da qual não se afastou um só momento, a fim de preservar a condição psicológica do drama. Isso o levou a detalhes obsessivos no trabalho, a ponto de recomendar que o papel de Lady Macbeth, na verdade a grande inspiradora dos crimes cometidos pelo personagem-título, fosse vivido por uma cantora que possuísse uma certa aspereza no seu timbre de voz. Macbeth, levado pelas bruxas ao delito para obter e consolidar o seu poder e manipulado na estratégia por sua mulher, jamais perde a consciência da extensão e das profundidades abismais de sua própria natureza humana. Mais que o medo, o remorso passa a ser, para ele, torturante - "Non potrebe l'oceano queste mani a me lavar!" (O oceano inteiro não poderia lavar essas mãos) - e, somente quando a aparente fortaleza de sua mulher desaba na demência é que o herói, se é que se pode chamá-lo assim, retoma a sua antiga e guerreira coragem, o que, justamente, o precipitará para a morte - "La vita!... che importa? È il racconto d'un povero idiota" (A vida!... que importa? É um conto de um pobre idiota).

É extraordinária a utilização de alguns conceitos que Verdi iria usar de maneira cada vez mais efetiva em muitas de suas obras-primas posteriores. Sua capacidade de sintetizar na frase musical o cenário e o sentimento do personagem de forma fundida é um dos pontos do milagre verdiano. Para tornar bem claro isso, que acontece em toda a extensão dessa obra, escolhi apenas três exemplos entre muitos que poderia selecionar.

O primeiro deles, no fim do ato inicial, quando o general Banquo, expressão máxima de coragem e virtude no drama, entra e exclama - "Oh qual orrenda notte! Per l'aer cieco lamentose voci, voci s'udian di morte" (Oh que noite horrenda! Pelo ar escuro ouviam-se vozes lamentosas de morte) -, a orquestra soa, antecedendo as suas palavras, em uma pequena introdução lenta que retrata, ao mesmo tempo, a nobreza do personagem e a natureza funesta da noite diante do que iria se revelar: a morte do rei. Ainda com o mesmo personagem, Banquo, um outro exemplo encontra-se no segundo ato, no momento que antecede à sua morte: a ária, que se inicia pelas palavras "Comme dal ciel precipipa l'ombra più sempre oscura!" (Como do céu precipita-se a sombra sempre mais escura), é acompanhada pelos violoncelos e contrabaixos que, em forma descendente, traduzem toda a angústia e a intuição de seu próprio destino trágico. Como último exemplo, citaria, no terceiro ato, o momento da batalha em que soldados ingleses e escoceses refugiados, chefiados por Macduff, lutam contra as forças guerreiras de Macbeth. É realmente obra de gênio a fuga dupla que Verdi utiliza, iniciada pelos metais para logo se estender por toda a orquestra, descrevendo, cinematograficamente, o movimento das tropas e, mais do que isso, o caráter épico de toda a cena. É, decerto, por esses e outros motivos, que um dos maiores regentes de Verdi, atual diretor musical do Teatro alla Scala de Milão, Riccardo Muti, declara que, para ele, Verdi é um compositor a ser descoberto e melhor estudado no futuro.

É ainda necessário que se compreenda que Verdi desenvolveu em Macbeth, com profunda economia de meios, tal como já o fizera Mozart anteriormente, a utilização do motivo temático para uma situação ou personagem, aqui centrado principalmente na figura de Lady Macbeth, o que se pode perceber no tema das cordas, na abertura e na volta maravilhosa desse mesmo tema retrabalhado com um sofrimento e uma compaixão intensos, na cena do sonambulismo que antecede a sua morte. Verdi leva o espectador a participar da demência e do sofrimento da rainha atormentada pelo remorso dos crimes praticados. Assim também a temática musical das bruxas, a um só tempo grotesca e burlesca, é, inquietantemente, modificada pelo compositor, traduzindo sempre o mistério e o sobrenatural, fortes características do dramaturgo inglês. Entre outras utilizações que serão reaproveitadas e redimensionadas por Verdi, é fundamental destacarmos a temática da redenção - também usada nas composições wagnerianas sob um ângulo diferente -, que vai caracterizar quase toda sua obra. Em Macbeth, isso ocorre de forma exemplar exatamente no final da ópera, quando o coro dos nobres e do povo regozija-se pelo fim da tirania e pela volta da liberdade, o que está expresso, específica e sabiamente, só nas vozes femininas que entoam "Salgan mie grazie a te, gran Dio vendicator!" (Que se elevem minhas graças a ti, grande Deus vingador!).

Embora essa obra tenha dado a Verdi muito orgulho, trouxe a ele também algum desgosto, porque a crítica da época não soube absorver o despojamento e a não concessão do autor aos modelos em voga, a ponto de em Macbeth não haver nenhum dueto de amor, o que era clássico e obrigatório no período romântico, ainda que não existisse na matéria-prima original do libreto. Entretanto, o que inquietava Verdi não era o travo amargo da crítica improcedente, mas sim ser o mais fiel possível a Shakespeare, o que o levou a rever a obra para sua reapresentação em Paris, em 1865. A versão encenada no Theatro da Paz é basicamente a segunda, não obstante ter sido mantida a cena da morte de Macbeth no palco, permanecendo assim o arioso da versão original florentina "... Muoio... al cielo... al mondo in ira. Vil corona!... E sol per te!" (... Morro... inimigo do céu e do mundo. Vil coroa!... E apenas por ti!).

A ópera, nascida na Itália no fim do século XVI, no eixo Mantova-Firenze, surgiu como uma forma nova de expressão musical e, por sua evolução, da qual seria impossível falar neste pequeno texto, acabou se tornando uma das formas mais perfeitas e completas das possibilidades da fusão dos diversos elementos estéticos em um só espetáculo. Macbeth é produto já do terceiro século da história da ópera, século que daria ao mundo, coincidentemente nascidos no mesmo ano, 1813, os seus dois maiores gênios: Wagner e Verdi. É emocionante tomarmos consciência de que no século XXI, quase duzentos anos depois do seu nascimento, esses dois nomes continuam, para nós, tão atuais e modernos que só nos fazem agradecer, aos seus antigos inventores, a criação do gênero. Gênero que levou o grande cineasta americano Orson Welles a dizer: "A ópera é a forma mais elevada de todas as artes... Para mim, a ópera é a experiência do absoluto teatral".

Gilberto Chaves

WebDesignSobe ↑