Ensaio Aberto

Gilberto Chaves

Pagliacci: l'artista è un uomo - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2003

A Itália do século XIX, na época do romantismo, foi dominada por Giuseppe Verdi (1813-1901), que produziu óperas de 1839 (Oberto, Conte di San Bonifacio) até 1893 (Falstaff). Sua obra retomou e restaurou a antiga arte italiana, deu-lhe solidez e consciência nacional e, em seu progresso teatral, lançou a semente da linguagem da ópera no século XX. Tanto gigantismo deixaria sem saída os renovadores da estética dos fins do século XIX.
Nessa fase difícil, surge o movimento dos scapigliatti, liderado por Arrigo Boito (1842-1918) - autor de Mephistofele (1868) -, seguido pelo mais comportado Amilcare Ponchielli (1834-1886) - autor de La Giocconda (1880) - e pelo jovem brasileiro Antonio Carlos Gomes (1836-1896) - criador de Il Guarany (1870) -, que viria a ser, até hoje, o mais importante compositor lírico das Américas. O movimento, de certo modo acadêmico, não passou de um período de transição, um angustiante canaletto de quem pretendia respirar algo novo, liberto do domínio da vigorosa estética verdiana.
Estavam todos em um beco sem saída, quando aconteceu o milagre, e o milagre cha-mava-se Cavalleria Rusticana (1890), de Pietro Mascagni (1863-1945), obra vencedora do concurso Sonzogno para óperas curtas, em linguagem musical oposta ao wagnerianismo, privilegiando as vozes, sem negligenciar o papel dramático da orquestra. De uma teatralidade rápida, com personagens despidos de chapéus clássicos, plumas ou armaduras. Gente do povo, com sofrimentos e alegrias verdadeiras, na crueza de sua vida simples, humana e despojada como a própria música do drama, direta e sem adornos. Sucesso imediato, tornou seu autor, criador do que seria a escola verista,
célebre antes dos trinta anos. É uma história de ciúme, vingança, lavagem de honra à moda
siciliana, e de uma emocionalidade que golpeou imediatamente o público.
Ruggero Leoncavallo (1857-1919) não perdeu o bonde da história e compôs, dois anos depois, os Pagliacci, obra também inscrita no concurso Sonzogno, do qual só não foi a vencedora por possuir dois atos. Sua representação foi recomendada pelos jurados por ser uma peça extraordinária. A estréia no Teatro Dal Verme, em Milão, foi um sucesso. Teve, à frente do elenco, Victor Maurel, o barítono francês que havia criado o Iago do Otello verdiano, e foi dirigida por um jovem que seria a maior figura da regência no século XX - o legendário Arturo Toscanini (1867-1957).
Pagliacci segue a trilha do trabalho mascagniano: paixão, ciúme, ultraje e vingança, verdadeira crônica de um crime passional, à maneira de Nelson Rodrigues. O segredo dessa ópera é a linguagem direta, a perfeita eficácia dramática, desde seu notável prólogo, em que Tonio, o palhaço que move a tragédia, adverte que: "l'artista è un uomo e che per gli uomini scrivere ei deve. Ed al vero ispiravasi" ("o artista é um homem e que para os homens deve escre-ver. E inspirou-se na verdade"). De fato, um episódio real inspirou o compositor. Como seu pai era juiz de uma aldeia na Calábria, Leonca-vallo, quando menino, assistiu ao julgamento de um saltimbanco, chefe de uma trupe circen-se, que, sabendo-se traído pela companheira, também atriz, tira-lhe a vida no picadeiro, diante dos atônitos espectadores. A estréia de Pagliacci foi um acontecimento inesquecível, como se depreende da crítica preciosa de Claude Trevor: "Ninguém sabia coisa alguma sobre a obra, exceto que era uma novidade. [...] O teatro, inteiramente lotado, explodiu em frenesi e, ao cair-se do pano, houve uma cena de entusiasmo tão selvagem como raras vezes se vê".
O estilo de Pagliacci é o mais exemplar do realismo italiano. A orquestra mantém precisão e vivacidade dramáticas, utilizando a técnica do leitmotiv com mestria, como no prelúdio do primeiro ato que precede o prólogo, quando, nos metais, soa triste e já ferido o tema do "ridi, pagliaccio", da ária de Canio, e, de modo explosivo e trágico, motivo final da ópera. O prólogo, aqui, não constitui mera utilização de uma forma antiga de teatro, mas uma maneira de definir a nova escola que nascia: "Ma non per dirvi come pria: le lacrime che noi versiam son false!" ("Mas não para vos dizer como antes: as lágrimas que choramos são falsas!"). Ainda no prólogo, em uma das passagens mais belas do teatro lírico, Tonio canta o tema - que será ampliado no intermezo entre os atos, traduzindo a tristeza daquela gente pobre da companhia de saltimbancos, cujo texto, segundo vários autores, sobreviveria sem a música: "le nostr'anime considerate, poichè siam uomini di carne e d'ossa, e che di quest'orfano mondo al pari di voi spiriamo l'aere!" ("as nossas almas considerai, porque somos homens de carne e
de osso, e neste mundo órfão respiramos igualmente a vocês o mesmo ar!").
No trecho em que Tonio leva o embriagado palhaço para surpreender sua mulher com o amante, o ritmo frenético e os crescendos, tomando conta da orquestra, fazem dela o centro da cena mundana de acusações e ameaças. Obra-prima é o sutil e malévolo recitativo de Tonio, ao tentar acalmar seu patrão, a fim de prepará-lo para a récita: "calmatevi, padrone. È meglio fingere; il ganzo tornerà. [...] Or via. Bisogna fingere per riuscir!" ("acalme-se, patrão. É melhor fingir; o amante voltará. [...] Vamos. É preciso fingir para ter sucesso!"). Segue-se a famosa ária de Canio, o dolorosíssimo lamento "vesti la giubba e la faccia infarina. [...] Ridi, pagliaccio sul tuo amore infranto" ("veste a fantasia e passa pó no rosto. [...] Ri, palhaço, sobre teu amor destroçado"). A ária ficaria ligada à fama de inúmeros tenores, mas nenhum incorporou tanto o papel do palhaço como o maior mito do canto, Enrico Caruso (1873-1921).
Enfim, eis a comédia dentro do teatro, o palco dentro do palco, um claro exemplo de metalinguagem, hoje tão em voga. Arma-se o teatrinho, e temos toda a magia da Commedia dell'arte, revelada na deliciosa cançoneta de Arlecchino e na miniatura delicada e burlesca do duetino de Arlecchino e Colombina. O drama chega ao seu desfecho, entrelaçando tragédia e comédia, e Canio, o palhaço, tem seu maior momento na obra quando sai da comédia e entra na vida real: "No! Pagliaccio non son, se il viso è pallido, è di vergogna..." ("Não! Não sou Palhaço; se tenho o rosto pálido, é de vergonha..."). Mais adiante, na descida trágica para a morte, alternam-se o tema da comédia, retomado insistentemente por sua mulher, e as exclamações do palhaço, já possuído pela violenta emoção. Após o assassinato, nada mais lhe resta senão a famosa frase: "La commedia è finita!". A maior virtude de Ruggero Leoncavallo na sua imortal obra-prima é justamente tratar com síntese dramática, como a uma só coisa, o teatro e a vida.

Gilberto Chaves
agosto de 2003

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