Ensaio Aberto

Gilberto Chaves

Adriane Queiroz: “una voce delle stelle”- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2004

A tradição vocal feminina sempre foi uma constante na história da música paraense. Bastam as lembranças de Helena Nobre, Maria Helena Coelho Cardoso e Marina Monarcha, esta em atividade em São Paulo ensinando os segredos de sua arte.
Hoje, Adriane Queiroz representa a certeza da continuidade dessa tradição, não só através de suas iniciais conquistas, mas, principalmente, pela certeza da longa trajetória que a espera no caminho da fama, resultado de um aprendizado sólido e de uma sensibilidade notável aliada aos dons naturais de cantora lírica.
Iniciando seus estudos no fim dos anos 80, na Escola de Música da Universidade Federal do Pará, e prosseguindo no início dos anos 90, no Conservatório Carlos Gomes, até atingir o bacharelado em música pela UEPA/FCG, além de passar vitoriosamente por vários cursos e concursos nacionais e internacionais, Adriane estava pronta para o desafio maior: estudar e vencer na Europa.
Sua têmpera e obstinação a levaram a Viena a partir de 1997, onde diplomou-se em 2001. Reconhecida amplamente por seus mestres, chamou a atenção da crítica e dos produtores de ópera, que lhe abriram as portas para concertos em cidades do Japão e em Graz, Viena, onde fez seu début no Musikverein, sendo posteriormente convidada pela Volksoper vienense para, finalmente, ser contratada e integrar o quadro fixo de solistas da Staatsoper de Berlim, onde já se apresentou ao lado de celebridades como Daniel Baremboim e Plácido Domingo, entre outros.
O programa desta noite, que conta com a participação da notável pianista paraense Adriana Azulay, também radicada na Alemanha, mostra a versatilidade da artista iniciando com peças clássicas de Mozart (1756-1791) e Haydn (1732-1809), que são verdadeiras jóias de equilíbrio entre o texto dramático e os ornamentos belcantistas. Em seguida, o ciclo de canções de Clara Schumann (1819- 1896), como todos sabemos mulher do genial Robert Schumann (1810-1856). Clarita, como carinhosamente o compositor a chamava, foi uma das maiores pianistas de seu tempo, além de compositora, que nada deixa a dever aos grandes românticos. O italianismo de Verdi está presente em suas canções, para onde o maestro leva seu estilo operístico inigualável.
O domínio da soprano em várias línguas e estilos prossegue nas cores espanholas de Turina, na música americana do século 20, com Barber e Copland, passando também por uma sua especialidade, que é o spiritual. Um dos pontos altos está na música brasileira, aqui representada por José Siqueira e Villa-Lobos, com a sua nacionalíssima Bachiana nº 5, oportunidade que tem a artista de demonstrar toda sua identidade nativa.
Vamos ouvir a voz cálida e lírica, mas timbrada e forte da soprano Adriane Queiroz, que venceu todos os obstáculos com as armas mais fortes que um verdadeiro artista pode ter: a coragem, o estudo e o talento. Nós, paraenses, nos orgulhamos da tradição lírica de nossa terra que você renova. Vá, Adriane, vôe e continue trilhando, no espaço que lhe é destinado, seu caminho feito de luz e do brilho delle stelle.

Gilberto Chaves

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