Ensaio Aberto

Gilberto Chaves

Butterfly: “Vogliatemi bene, un bene piccolino”- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2005

Ama-me, mesmo que seja um pouquinho . Esta frase do dueto que encerra o primeiro ato, dita por Cio-Cio-San (Butterfly), era tudo que a pequena e delicada gueixa de 15 anos queria do garboso e falastrão tenente Pinkerton da marinha americana. A parábola da sua tragédia foi marcada pelo sofrimento e pela decepção de não ter alcançado este amor.

Do ponto de vista musical, todos os compositores que tentaram seguir Verdi (1813-1901) ficaram com suas obras comprometidas e sem maior interesse, afogadas nas imensas pegadas do maior autor lírico italiano. Sobreviveu quem mudou de caminho. É o caso dos modernistas da época, denominados veristas (realistas) que, com o milagre da Cavalleria Rusticana (1890), de Pietro Mascagni (1863-1945), e de I Pagliacci (1892), de Ruggiero Leoncavallo (1858-1919), inauguraram o novo estilo sem os heroísmos românticos e as renúncias lacrimosas, sem elmos e uniformes heráldicos, trocados pela crueza da vida cotidiana e dos fatos simples e pelo despojamento no uso da palavra. É consenso, entretanto, que o grande gênio dessa escola foi Giacomo Puccini (1858-1924), que, ao compor Madame Butterfly , em 1904, já era reconhecido como o maior compositor lírico de sua época, com êxitos como Manon Lescaut (1893), La Bohème (1896) e Tosca (1900). Músico do amor e da alma feminina - da qual desvendou, por meio delle piccole cose, o mundo íntimo e sentimental -, Puccini ficou marcado pela imensa ternura e sensibilidade com que tratava suas personagens.

Embora tonal, era um músico moderno por excelência, não infenso muitas vezes à influência de Debussy (1862-1918), criando harmonias e achados rítmicos audaciosos, alguns bem antes de Stravinsky (1882-1971). Butterfly era sua obra favorita e, na minha opinião, a síntese maior de toda sua mestria no domínio da palheta orquestral, que, no caso desta obra-prima, é de uma estrutura delicadíssima e transparente no tratamento de todas as suas cenas. Se podemos dizer que Carmen (1875), de Georges Bizet (1838-1875), possui cores espanholas em uma linguagem francesa, devemos ter presente que este não é o caso de Butterfly . Nesta ópera, na qual não havia a facilidade de Carmen , que incorporava a ambientação de dois mundos latinos, um hispânico e um francês, o autor italiano defrontou-se com dois mundos absolutamente diversos, o ocidental e o oriental, e construiu seu drama, não por meio da simples ambientação e muito menos buscando um exotismo que já era natural das fontes japonesas, e sim criando um entrelaçamento musical num delta italiano, mas aprofundado na temática japonesa. Ademais, com a sua imaginação, para fundir harmonicamente essas coisas, ele utilizou para fins teatrais inúmeras fontes de temas nipônicos - a maioria canções e até marchas militares -, que encontrou nas publicações do vienense Rudolf Dittrich, que viveu no Japão entre 1888 e 1894, e da valiosa contribuição da embaixatriz do Japão à época, Mme. Oyama, que, entusiasmada pelo projeto da obra, mandou buscar, em seu país, diversas partituras para dar de presente ao compositor, além de, na ocasião de seu célebre encontro com o autor em Viareggio, ter cantado para ele alguns temas feudais já na sua versão ocidentalizada, ocorrida no século 19.

Quando, na virada do século, Puccini assistiu, em Londres, a uma peça teatral do americano David Belasco, que fazia ali imenso sucesso, cujo nome era Madame Butterfly , ele pôde observar - e isso foi o que mais o impressionou - que, ao final, muitos espectadores estavam comovidos até as lágrimas. Assim, foi com firmeza que propôs a seu editor Ricordi, em Milão, transformar o assunto em ópera, o que passou a ser um trabalho febril de seus dois bons e antigos parceiros, os poetas Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, autores do libreto. Puccini era intensamente atraído por qualquer assunto que provocasse, no bom sentido, "a lágrima dramática". No sofrimento da jovem gueixa japonesa, ele encontrou mais do que isso, pois em todo esse contexto, fugindo do exotismo fácil, criou timbres e harmonias absolutamente novas que até hoje nos encantam e emocionam.

Gilberto Chaves

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