Ensaio Aberto

Gilberto Chaves

Povero Rigoletto!- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2006

Com essa frase patética, misto de ironia e crueldade, o cortesão Marullo recebe Rigoletto no palácio ducal, no segundo ato da ópera, quando, angustiado mas dissimulado, o bufão tenta descobrir o paradeiro da sua inocente filha. O drama, estreado em 11 de março de 1851, no Teatro La Fenice de Veneza, marca o início da famosa trilogia verdiana, da qual fazem parte Il Trovatore e La Traviata . Verdi, perto dos seus 40 anos, na plenitude de sua capacidade criadora, anuncia uma mudança de linguagem, ainda que se conservem elementos de seu primeiro e grande período, notadamente se olharmos para Macbeth , Ernani e Luisa Miller . Estamos nos aproximando, cada vez mais, como ficará patente na própria Traviata , de um comportamento mais próximo do melodrama e mais distante do lirismo romântico, apontando para os primeiros desenhos do realismo italiano. Essa obra magistral, em minha opinião, só inferior a Falstaff e Otello, ambas baseadas em Shakespeare, teve também um grande gênio da literatura por trás da sua concepção original: Victor Hugo. O nascimento do trabalho foi fulminante na mente de Verdi, que em menos de dois meses, espantosamente, terminou a composição.

Entretanto, se foi rápida a sua concepção, difícil foi sua aceitação pela terrível censura austríaca que dominava Veneza. A Direção Central da Ordem Pública, órgão encarregado da censura, não toleraria o argumento do libretista Francesco Maria Piave, que, calcado na obra de Hugo - Le roi s'amuse [" O rei se diverte "] -, colocava o monarca francês François I como devasso e libertino, alcovitado por seu deformado bufão da corte, Triboulet. Apesar da intermediação de Piave, foi penosa e necessária a reambientação do libreto da peça, originalmente chamada de La Maledizione . A ação teria de se desenvolver na Itália, e o personagem do monarca transformar-se-ia no suposto Duque de Mantova, o grotesco bobo passaria a se chamar Rigoletto, que acabaria sendo o título final da ópera. Mas de uma coisa Giuseppe Verdi não abriu mão, de que seu personagem central fosse complexado, de dupla personalidade e corcunda, como se pode depreender das próprias palavras do compositor: "Acho belíssimo apresentar esse personagem, externamente disforme e ridículo, e internamente apaixonado e cheio de amor. Escolhi-o exatamente por todas essas qualidades e esses traços originais. Se forem tirados, não poderei mais compor a música". O sucesso da obra daria razão ao maestro de Roncole.

No dizer de Ricardo Muti, um dos maiores regentes verdianos modernos, "Verdi é uma montanha". Seu mundo incomensurável, mesmo que investigado a fundo durante toda uma vida, trará sempre para o estudioso um novo caminho. Rigoletto , sendo um dos seus momentos mais ricos, enquadra-se na frase tão curta e tão gigantesca de Muti.

Desde o curtíssimo prelúdio do primeiro ato, o mestre nos mostra sua disposição do uso de uma linguagem extremamente enxuta em relação à idéia do drama. Aqui se ouvem os tons fúnebres do célebre tema da maldição que, de maneira obstinada, procura no seu auge, principalmente com os tímpanos e os metais em uníssono, a síntese da tragédia. Este leitmotiv perpassará sutilmente vários momentos da obra, mas, sem dúvida, com força implacável no monólogo da segunda cena do primeiro ato - Quel vecchio maledivami... ["Aquele velho amaldiçoou-me"] -, referindo-se à terrível maldição, do final da primeira cena do primeiro ato, vociferada pelo Conde de Monterone, que, ao cobrar a honra da filha, foi escarnecido por Rigoletto. Tema que se repete após o rapto da filha de Rigoletto, no final do primeiro ato e, à maneira rápida e cortante de Verdi, ao encerrar-se a ópera, quando o personagem, estreitando nos braços sua filha, já morta, relembra, pela última vez, a atroz maledizione .

Sem dúvida, o mais fascinante da personalidade de Rigoletto é a dubiedade. Cruel, ao zombar dos cortesãos e ao incitar o devasso Duque a tirar a honra das jovens e enxovalhar a reputação dos maridos, em sua agitada entrada - In testa che avete, Signor di Ceprano? ["Que tens na cabeça, Senhor de Ceprano?"]. Lírico, ao se referir à sua amada filha, ainda no monólogo do primeiro ato, quando chega à morada de sua jovem e pura Gilda - Ma in altr'uomo qui mi cangio! ["Mas aqui me converto em outro homem!"] -, anunciada, genialmente, por um simples e etéreo solo de flauta. Insisto nesse monólogo por ser o momento mais revelador desse complexo personagem, passagem que se inicia logo após o diálogo sinistro com o assassino Sparafucile, que lhe oferece seus macabros serviços, ao exclamar Pari siamo! Io la língua, egli ha il pugnale ["Somos iguais! Eu com a língua, ele com o punhal"].

A ópera se desenrola em torno do controverso personagem de Rigoletto, ladeado pelo inconseqüente Duque; pela filha adolescente desonrada pelo próprio Duque; por uma malta de cortesãos corrompidos numa corte apodrecida de vícios; por um assassino que mata por ofício e sua irmã que o ajuda no execrável serviço. Tudo isto dará a Verdi oportunidade de alcançar vários dos maiores momentos da história da lírica. Um deles é o seu Cortigiani, vil razza dannata ["Cortesãos, raça vil e maldita"], do segundo ato, frase acompanhada freneticamente pelas cordas, cuja beleza e significado justificam a aproximação que faz Alberto Moravia entre Verdi e Shakespeare, porque nessas cordas estão o ódio, a revolta, a impotência, tudo em pouquíssimos segundos. Outro exemplo é a vertiginosa cabaletta que encerra o referido ato e a partir do qual o drama se transforma na terrível e inexorável vingança de Rigoletto contra o Duque, que lhe roubou sua jóia mais preciosa: Sì, vendetta, tremenda vendetta di quest'anima è solo desio... ["Sim, vingança, tremenda vingança é o único desejo desta alma..."].

O ato terceiro traz o quarteto mais perfeito que se conhece, entre Rigoletto, Gilda, o Duque e a irmã do assassino, Maddalena - Bella figlia dell'amore ["Bela filha do amor"]. Mais adiante, uma tempestade, que traz um efeito inusitado pelo uso do coro masculino em bocca chiusa simbolizando o gemido do vento, dá a essa relampejante cena noturna o presságio do terrível final que se aproxima, em que o corcunda, com sua filha ensangüentada nos braços, desesperado, profere: Non morire o qui teco morro! ["Não morras, ou morro contigo!"], ao que a filha responde de modo quase elísio: Lassù in ciel... per voi pregherò... ["Lá no céu... rezarei por vós..."]. Fecha-se o círculo com o uso do leitmotiv de forma incisiva e genial, com a volta do tema da maldição.

Rigoletto foi uma das estréias mais espetaculares da história do teatro lírico em todos os tempos, mantendo-se até hoje vivo e com o mesmo prestígio nos palcos do mundo inteiro.

Gilberto Chaves

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