Ensaio Aberto

Irineu Franco Perpetuo

COMPOSITOR ERUDITO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO. Você conhece?

Outro dia, ligou-me aqui em casa uma repórter de um canal de televisão, pedindo indicação para entrevista de um "compositor erudito brasileiro contemporâneo". Embora se mostrasse inteligente, articulada e interessada, a menina, evidentemente, estava "boiando" no assunto. Muito mais do que uma singela lista de nomes e telefones, ela precisava de alguém que lhe explicasse o que essa expressão tão grande e cheia de adjetivos realmente queria dizer.
Músicos fariam uma leitura muito rasa desse episódio: "jornalista é tudo ignorante mesmo". Para nós, da imprensa escrita, talvez a interpretação fosse: "ah, esse pessoal de televisão é burro mesmo". Mas talvez o caso possa fornecer uma leitura um pouquinho menos superficial.
Afinal de contas, não é preciso conhecer a fundo a situação brasileira para saber que repórteres, seja lá de qual veículo de comunicação, representam por aqui uma elite -tanto econômica, quanto social, quanto cultural. São pessoas mais bem informadas do que a média, com um salário acima da média, educação acima da média e acesso a informação acima da média. Se, mesmo dentro dessa pequena elite urbana, o conhecimento musical não circula, é porque existe um problema -não com os repórteres, ou com qualquer outra pessoa de igual ou superior situação social que seja ignorante em música, mas com o meio musical e as pessoas que deveriam fazer esse tipo de conhecimento circular.
Uma das chaves mais evidentes para diagnosticar o problema é a precariedade/inexistência da educação musical no ensino formal brasileiro, seja ele público ou privado. Não vou defender aqui que todo mundo deveria sair da escola tocando um instrumento, solfejando partituras ou reconhecendo intervalos de ouvido. Assim como a finalidade da aula de educação física não é formar atletas para as Olimpíadas, tampouco as aulas de educação musical devem ter como objetivo primordial a fabricação de virtuoses para as orquestras. A educação musical não deve visar formar músicos -mas é elemento indispensável na formação de cidadãos.
Estudei em um colégio privado caro, freqüentado por filhos da fina flor da elite paulistana. "Aula de música", lá, só na primeira infância. Lembro-me que um dos pontos altos de nossa, por assim dizer, musicalização era cantar o Hino Nacional no pátio da escola, ao ar livre, junto com alunos de outras classes, sob a regência da professora de música. O detalhe é que a "tia", em sala de aula, jamais nos havia explicado o que queriam dizer aqueles sinais que ela fazia no ar. Resultado: cantávamos como nos dava na telha -e, depois, em sala de aula, éramos criticados pela "gritaria" pela professora encarregada de nos ministrar as matérias normais ...
Certamente haverá quem consiga descrever aulas de música muito mais inteligentes, interessantes e estimulantes que acontecem em escolas brasileiras, mas tais exemplos vão constituir a exceção da exceção da exceção ...
Para além do fenômeno brasileiro da falta de educação musical, contudo, há ainda o fato mundial do encolhimento da música "clássica", ou "erudita", diante da música popular.
Fui procurar na Bíblia da música -o dicionário Grove britânico, em 20 volumes- uma definição para música "clássica" e não achei. No verbete "classical", eles se limitam simplesmente a falar da música do Classicismo. Quando alguém me pergunta, hoje, se a expressão "música clássica" é certa ou errada, eu respondo que não quero ser o único soldado do regimento a achar que estou marchando certo, e que todos estão errados. Seria mais adequado, talvez, reservar "música clássica" apenas para a música do Classicismo; porém, nos mais diversos idiomas, essa expressão é tão difundida para se referir à música "culta", ou "artística", ou "de concerto", que não creio valer a pena brigar contra ela. Há outras batalhas mais prioritárias ...
Por outro lado, música "erudita" sempre me pareceu um termo meio pedante, metido a besta, elitizante e excludente. Nem todo mundo que freqüenta salas de concerto pode ser tido como um "erudito" -aliás, mesmo entre os intérpretes dessa música são raros os que ostentam verdadeira "erudição". Tal "erudição", inclusive, está muito longe de ser pré-requisito necessário para o desfrute da música.
O fato é que, na edição brasileira do dicionário Grove, também não se acha nenhuma definição para música "clássica", ou "erudita". O que encontramos é um verbete para a música popular, centrado, basicamente, na música destinada ao entretenimento de um grande número de pessoas, e associada ao crescimento das massas urbanas, causado pela Revolução Industrial. A expressão música popular surge nos EUA, no final do século XIX, para posteriormente passar ao Brasil e à Europa.
A música que não é "música popular" talvez devesse ser chamada, então, de música "impopular" (se não me engano, é o Júlio Medaglia que tem um livro com esse título). Uma música que continua a ser gravada, ouvida e executada, mas vem perdendo gradualmente a função orgânica dentro da sociedade.
Tal problema é especialmente agudo em países de música popular forte, como o Brasil. Por aqui, a música popular obtém não apenas o carinho das massas, mas o afago da "intelligentsia", desalojando a música erudita da posição hegemônica mesmo entre as elites.
Para o bem ou para o mal, os intelectuais orgânicos brasileiros, na área de música, são gente como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil -não Almeida Prado, Edino Krieger ou Gilberto Mendes, por mais que possamos admirar e respeitar o talento desses compositores. As idéias dos astros da MPB é que são levadas a sério, debatidas e discutidas pelos formadores de opinião pública. Quando acontece um fato de comoção nacional, e a imprensa quer saber a opinião de um músico a respeito, vai perguntar para o Chico. A intenção de voto de Caetano a cada eleição presidencial é sempre repercutida pela imprensa com estardalhaço -mas ninguém vai averiguar em quem Nelson Freire ou Antonio Meneses vão votar. O ministério da Cultura do governo Lula é ocupado não por um regente, mas por Gilberto Gil. Alguém acha que é por caso ?
Sempre foi assim ? Claro que não. Não custa lembrar que o primeiro grande ídolo nacional que o Brasil teve -talvez das dimensões de um Guga, Senna ou Pelé, já que, naquele tempo, não havia o esporte de massas- foi um compositor de óperas, Carlos Gomes, cujo sucesso internacional consolidou a afirmação da identidade nacional de um país nascente. Ou ainda a figura gigantesca de um Villa-Lobos, que, para além da inserção internacional de sua obra, teve prestígio político suficiente para tocar um ambicioso e controverso programa de educação musical, e exerceu uma influência tão magnética sobre o imaginário nacional que a ela não passou incólume nem mesmo a música popular, como atestam as várias declarações feitas a respeito por um ícone da MPB como Tom Jobim.
Não vai faltar, inclusive, quem deseje negar o status de compositor aos criadores populares. Para nossos autores "eruditos", compositor só deveria ser quem escreve música em pentagrama, sabe orquestração, contraponto, harmonia, etc. Na música popular, só mereceriam esse nome gente como Jobim ou Gismonti. Os outros seriam meros "songwriters" -cuja tradução para o português talvez fosse cancionistas.
O fato é que não vale a pena suspirar de saudades por Carlos Gomes ou Villa-Lobos, nem imprecar contra a música popular e seus criadores -compositores ou cancionistas. Há um problema muito maior do que o da terminologia, que é o da inserção da produção contemporânea na vida musical.
Durante muitos séculos, a música "erudita" que se executava era sempre a música contemporânea. Não é necessário mais do que dar uma folheada nos catálogos dos compositores para "cair a ficha": as mais de 200 cantatas de Bach, cento e poucas sinfonias de Haydn e 600 canções de Schubert devem-se menos a uma necessidade espiritual interna de seus autores do que a uma constante demanda social por música nova.
A música "antiga" era muito pouco executada e, quando isso acontecia, cuidava-se para que sua sonoridade fosse convenientemente "atualizada". Em 1789, em Viena, decidiram tocar o oratório "O Messias", que Händel havia composto pouco mais do que cinco décadas antes, em 1742. Pois bem: na ocasião, encomendou-se a Mozart um novo arranjo do oratório, para que Händel não soasse excessivamente "arcaico". Seria a mesma coisa de uma orquestra brasileira programar qualquer uma das "Bachianas" de Villa-Lobos e chamar um arranjador para "atualizar" a obra para os ouvidos de hoje. A crítica cairia de pau ...
Mas as coisas foram mudando aos poucos. Em sua "Vida de Rossini", de 1824, Stendhal escreve:

"Observarei de passagem que a música é uma arte viva na Itália unicamente porque todos os grandes teatros têm a obrigação de apresentar óperas novas em certas épocas do ano; sem isso, sob o pretexto de admirar os antigos compositores, os pedantes do país não teriam deixado de sufocar e proscrever todos os gênios nascentes"

Pois é: hoje em dia, na Itália e no resto do mundo, os teatros, grandes ou pequenos, não têm mais a obrigação de apresentar óperas novas, e os novos talentos estão sufocando. A música "erudita" já tem um espaço muito pequeno com relação à música popular; e, dentro da música "erudita", menor ainda é o espaço dedicado à música contemporânea.
Observe-se a programação de qualquer orquestra sinfônica ou teatro de ópera do planeta. A parte principal das obras datam da estreita faixa entre o final do século XVIII e o início do século XX. Graças à explosão da escola de interpretação de música antiga com instrumentos de época, a parte anterior a esse período tem sido, nos últimos 50 anos, bastante investigada e difundida -Vivaldi e Monteverdi já têm seu gênio amplamente reconhecido, editado, gravado e executado.
Mas ainda falta alguém fazer pelos gênios do século que se inicia aquilo que os arqueólogos musicais da escola "de época" realizaram pelos gênios dos séculos XVI e XVII. Musicalmente, o século XX redescobriu o passado, mas ignorou sistematicamente o presente, e trabalhou para enterrar o futuro. No Primeiro Mundo, ainda há a prática de se encomendar obras a compositores vivos, e até há orquestras sinfônicas que adotem a figura do "compositor residente". Nada de parecido acontece por aqui. Pense: qual foi a última ópera de compositor brasileiro a que você assistiu ? Certamente vai ter sido algum título de Carlos Gomes, morto em 1896. E quando foi a última vez que você viu uma grande orquestra tocar uma obra de autor nacional ? Salvo raríssimas exceções, a maior probabilidade é que tenha sido algo de Villa-Lobos, falecido em 1959.
Onde estão, então, os "compositores eruditos brasileiros contemporâneos" ? Quase todos eles são ligados a universidades; quase nenhum vive exclusivamente de sua música.
O que mais os diferencia entre si é a atitude diante das dificuldades de sua profissão. Há os que simplesmente se queixam da vida, e se resignam a compor para as gavetas, como mero exercício especulativo, ou escrever de maneira bem esporádica, de acordo com a demanda dos intérpretes. Outros, teimosamente, vão à luta, procuram intérpretes, compõem com abundância e estão sempre brigando para ter sua música executada, gravada, editada e difundida pelos meios de comunicação.
E é ouvindo a produção desses criadores que não se deixaram vencer pelo pessimismo que a gente percebe que não é só na área popular que o Brasil, ainda hoje, é capaz de produzir música de qualidade. Não é fácil chegar à música do "compositor erudito brasileiro contemporâneo". Mas vale a pena.

Irineu Franco Perpetuo

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