Ensaio Aberto

Irineu Franco Perpetuo

Mozart e Salieri- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2006

Um dos mais respeitados compositores de sua época e mestre de ilustres pupilos como Beethoven, Schubert e Liszt, Antonio Salieri (1750-1825) entrou para a posteridade não por causa de suas inúmeras óperas, hoje ausentes dos palcos, mas devido a uma infame acusação: a de que, por inveja, teria envenenado seu mais genial contemporâneo, Wolfgang Amadeus Mozart.

Em The Mozart Myths - A Critical Reassestment, de William Stafford, o assunto é discutido em profundidade. Embora hoje seja consenso entre os especialistas de que Mozart morreu devido a morte natural, ainda durante o tempo de vida de Salieri (muito antes, portanto, da peça Amadeus, de Peter Shafer, de 1979, bem como do filme homônimo de Milos Forman, de 1984, por ela inspirado) começaram a circular rumores de que o autor italiano tinha assassinado seu colega austríaco.

O falatório correu a Europa, como comprova anotação do poeta Aleksandr Sergueievitch Púchkin (1799-1837), "pai" da literatura de seu país: "Salieri morreu há oito anos. Algumas revistas alemãs escreveram que, no leito de morte, Salieri teria confessado um delito horrível: ter envenenado o grande Mozart. O invejoso que pôde vaiar o Don Giovanni poderia ter assassinado o seu criador".

Inspirado pelo rumor, Púchkin escreveu Mozart e Salieri, peça em dois atos, tendo apenas ambos os compositores como personagens. O texto faz parte das Pequenas Tragédias, ciclo de quatro espetáculos escritos no outono de 1830, na propriedade rural de Boldino, onde o poeta esperava o fim de uma epidemia de cólera para poder juntar-se à sua noiva, Natália Gontcharova, em São Petersburgo.

Com seu estilo conciso e direto, as Pequenas Tragédias tiveram apelo para os compositores russos do século XIX. Rachmaninov musicou O Cavaleiro Avarento, Dargomijski transformou em ópera O Convidado de Pedra (a versão russa de Don Giovanni), César Cui se ocupou de O Festim nos Tempos da Peste, enquanto Rimski-Korsakov resolveu colocar música em Mozart e Salieri.

Uma das principais figuras musicais da Rússia no século XIX, Nicolai Andreie-vitch Rimski-Korsakov teve suas aulas de piano na juventude, mas não pensava em carreira musical. Tudo estava encaminhado para que ele fosse oficial da Marinha, e Korsakov chegou inclusive a se formar no Colégio Naval de São Petersburgo, embarcando em seguida em um cruzeiro de dois anos e meio ao redor do globo.

Seu destino mudou em 1861, quando ele conheceu o compositor Mily Balakirev (1837-1910), mentor do nacionalismo musical russo. Graças ao decisivo estímulo de Balakirev, Korsakov tornou-se não apenas um dos principais compositores da Rússia em sua época, como também mestre dos mais significativos autores de seu país na geração seguinte. Foram alunos de Korsakov nomes como Liadov, Glazunov, Prokofiev e Stravinski. Além disso, ele ditou importantes óperas de autores como Mussorgski ( Boris Godunov e Khovanschina ), Borodin (O Príncipe Igor) e Dargomijski (O Convidado de Pedra).

No Ocidente, Korsakov é conhecido sobretudo devido a partituras de rico colorido orquestral, como Scheherazade, Capricho Espanhol e a abertura A Grande Páscoa Russa. Já em seu país ele é celebrado como relevante autor de óperas: suas criações no gênero são 15, destacando-se Sadko, A Lenda do Tzar Saltan e O Galo de Ouro.

Mozart e Salieri foi escrita no verão de 1897, diretamente sobre os versos de Púchkin, que sofreram pequenos cortes por parte de Korsakov. A estréia ocorreu em Moscou, em 1898, tendo o legendário baixo Fiódor Chaliápin no papel de Salieri. A partitura faz, em alguns pontos, referências estilizadas ao universo musical do século XVIII, com citações de Tarare, ópera de Salieri com libreto de Beaumarchais, e do Réquiem, de Mozart.

Em dois atos (o primeiro, no quarto de Salieri; o segundo, em um restaurante), a ópera tem uma trama simples: Salieri inveja Mozart, um "louco" e "vagabundo ocioso" dotado de genialidade sem ter feito nada para merecê-la, enquanto ele vê os sacrifícios feitos por si mesmo em nome da arte serem recompensados com glória, mas não com real inspiração.

O deleite diante das criações mozartianas, bem como a aparente frivolidade do colega, só reforça a determinação do compositor italiano de eliminá-lo. No final, seu dilema ético não é matar ou não matar, mas sim saber se existe compatibilidade entre o gênio e o crime. Salieri reflete sobre a história segundo a qual o artista renascentista Michelangelo Buonarroti (1475-1564) teria assassinado um modelo para representar com maior realismo o Cristo agonizante. Se este episódio fosse apenas uma lenda, o fato de envenenar Mozart não acabaria por reforçar os vínculos de Salieri com a mediocridade, liquidando quaisquer aspirações suas à genialidade?

Irineu Franco Perpetuo

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