Ensaio Aberto

Jaime de Oliveira Bibas

No século do progresso - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2002

(...) Tudo aquilo que o malandro pronuncia /
Com voz macia / É brasileiro / Já passou de português (...)

Provavelmente, a falta de um "empurrão" adicional vai deixar pouco explorado, e decisivamente encoberto, um grande talento brasileiro para o teatro musicado. Nos deslocamos, a partir daqui, numa viagem em meio aos anos trinta.

Bem que Henrique Foreis Domingues, o Almirante, rebatizado por Cézar Ladeira de "a maior patente do rádio", tentará ajudar, em agosto de 1935, contratando o ex-parceiro do Bando de Tangarás, logo que retorna ao Rio vindo de Belo Horizonte, mais gordo, com pulmões quiçá mais saudáveis, ou apenas mais descansados de uma notória vida boêmia, para catalogar as "bolachas" da Rádio Club do Brasil e, também, para redigir pequenas notas radiofônicas. Afinal, são suas credenciais a versatilidade das atuações como violonista, cantor, improvisador, letrista ou compositor. Enfim, um artista popular "de boa cepa", até nos "anúncios cantados" (os atuais "jingles"), como o da loja "O Dragão da Rua Larga".

As tarefas a ele atribuídas vão parecer pequenas para o engenho do companheiro de início de carreira, por isso, Almirante vai entregar-lhe também a empreitada de escrever para os seus dois novos projetos na citada emissora. O Conversas de Esquina, pequenos sketches humorísticos, e um outro, tão ambicioso quanto o seu quilométrico título: Como se as obras célebres do mundo houvessem nascido aqui no Rio... Em poucos dias, vai estar nas mão do Almirante, escrita a lápis em imprestáveis papéis da rádio, uma paródia-bufa da ópera O Barbeiro de Sevilha, denominada de O Barbeiro de Niterói, calçada nas valsas Teus Ciúmes e Boneca, e no samba Cordiais Saudações:
Envio estas mal traçadas linhas / Que escrevi a lápis / Por não ter caneta / Andas perseguido / Para que escapes / Corta o teu cabelo e põe barba preta.

Logo em seguida, virá Ladrão de Galinha, revista radiofônica em dois atos, contendo paródias de músicas populares da época:
Có... có... có... có... có... có... ró / Có... có... có... có... có... có... ró / Eu hoje estou com gogo / Não aperte meu gogó.

Ali, e em cima de mesas dos botequins cariocas, nascerá A Noiva do Condutor, musicada pelo próprio Diretor Artístico da PRA3, o maestro húngaro Arnold Glückman, obra que será classificada por Almirante como uma "revista radiofônica, composta de oito números originais", que "apresentava o aspecto integral de opereta, com as fórmulas clássicas, possuindo prelúdio e finaleto".

A nova experiência, sem dúvida, resultará no melhor e mais importante trabalho dos sete meses de Rádio Club do Brasil, do ex-Tangará conhecido por parodiar canções famosas como Suçuarana, Cheek to Cheek ou o próprio Hino Nacional, pelas pilhérias e frases jocosas improvisadas que tentavam justificar os seus constantes atrasos aos compromissos de trabalho como: "nada pude fazer, o bonde que eu vinha furou o pneu...", ou ainda, por versos irretocáveis como:
Quando o apito / Da fábrica de tecidos / Vem ferir os meus ouvidos / Eu me lembro de você.

Trata-se aqui de um carioca de Vila Isabel, jeito moleque, brincalhão, que viverá intensamente a passagem dos anos vinte para a década de trinta - a era do rádio - e, em apenas vinte e seis anos, quatro meses e vinte e três dias, vai legar ao País aquele que será um dos seus mais importantes acervos culturais, no feitio de mais de duzentos e cinqüenta criações que o consolidarão como: "um dos pais de nossa nacionalidade" (1).

Trata-se do brasileiro Noel de Medeiros Rosa, o Noel Rosa, ou, simplesmente, o Noel. Estamos viajando nos anos de 1935/1936. Enquanto A Noiva do Condutor será devidamente escrita e musicada, o Rio de Janeiro vai repetir a Europa e Belém imitará o Rio...

Cidade Maravilhosa de André Filho será o sucesso nos salões de bailes, assim como no cinema, Carmem Miranda com o filme Alô alô, Brasil. Patrícia Galvão, a "Pagu", vai ser presa em 1935. Em 1936, será a vez de Graciliano Ramos e Luís Carlos Prestes. Bidu Sayão, que encantará o Brasil, vai cantar em Manaus, após apresentar-se em Belém, no Theatro da Paz.

O rádio não passará, no meio dos anos trinta, de um escasso aparelho doméstico (com rapidíssimo crescimento) na vida do belenense, que ainda "tomará" um ita no Norte para ir morar no Rio.

Aqui, o gênero musical de maior aceitação, o teatro de revista, vai enfatizar as comédias de costume e o gênero music hall como será conhecido. Mesmo a ferrenha oposição da Igreja não impedirá o sucesso de público em espetáculos como os Depois Eu Digo; Dolores Menezes e um grupo de Girls; Stella Souza, a rainha brejeira do samba ou o da troupe visitante Lyson-Viviani-Sampaio, com a revista de título no mínimo curioso, Champagne de Assahy.

Apresentados nos teatros ditos de emergência (erguidos principalmente na quadra nazarena para, em seguida, serem desmontados), dividirão as revistas a preferência com as casas do tipo palco-tela, onde comediantes, no palco, recitarão versos, cantarão canções de cunho humorístico, além de, naturalmente, contarem anedotas, tendo como background uma tela onde serão exibidas películas "da sua programação esmeradamente escolhida" (2).

O acesso ao Theatro da Paz vai ser dificultado quando se tratar, exclusivamente, de prata da casa. Em 7 de fevereiro de 1935 será publicado no Diário Oficial um decreto assinado pelo interventor Magalhães Barata, proibindo a realização de funções com entrada livre no Da Paz, "no interesse de zelar pela boa conservação desse próprio do Estado".

Em 1936 o escritor Osvaldo Orico exercerá o cargo de diretor geral de educação, ao qual o funcionamento do Theatro da Paz vai estar subordinado. Neste ano, um sainete, três festivais de arte, dez récitas da Companhia Brasileira de Comédias, dois dramas (um deles sacro), uma revista musical (da famosa Companhia Marquise Branca) e uma temporada de quarenta e três apresentações da Companhia Brasileira de Comédia Moderna (com a peça Amor de Oduvaldo Viana), serão os principais componentes da programação anual do nosso Theatro da Paz. Nesse mesmo ano, muito provavelmente, o condutor da linha de bonde que passa em frente ao Da Paz não se chamará Joaquim, nem sua noiva Helena de Cascadura, como vão ser denominados os personagens criados por Noel, para a revista que ele nunca viu encenada, pois os mesmos só ganharão vida meio século após a sua morte, através da gravação com o saudoso Grande Othelo, além de Marilia Pêra e Carlos Didier (o Caola) nos principais papéis (3).

Nossa viagem no tempo finaliza aqui. Estamos em abril de 2002, e, pasmem, Noel Rosa está em Belém! Retoma o nosso querido Da Paz, a partir do Festival que comemora a sua reabertura, seus dias de intenso brilho. Criteriosamente restaurado, é devolvido aos paraenses pelo Governo do Pará através da sua Secretaria de Cultura, e entre outros grandes espetáculos, apresenta a inédita montagem para teatro da revista A Noiva do Condutor. Isto acontece às proximidades dos sessenta e cinco anos da prematura morte de Noel de Medeiros Rosa, aquele mesmo Noel que soube, como ninguém, trazer para as suas criações os costumes, os atos e hábitos dos personagens da cena brasileira dos anos trinta. Temos então, com certeza, uma oportuna ocasião para lembrar esse grande "cronista" do samba que nasce do coração, e que preferiu, como ele mesmo afirmou certa vez: "viver intensamente e não extensamente".

- Notas
1. Parte da frase usada por Sérgio Cabral no Prefácio da Segunda edição do livro de Almirante, No Tempo de Noel Rosa: "Não há qualquer exagero na afirmação de que é um dos pais de nossa nacionalidade", p.11.
2. Vicente Salles, sobre a Casa do Caboclo, p. 475 de Épocas do Teatro no Grão-Pará ou Apresentação do Teatro de Época - Tomo 2.
3. Gravado no Rio de Janeiro, em novembro de 1985, Estúdio Eldorado (ELD-CD-7.019).

- Referências Bibliográficas
1. ALMIRANTE. No Tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro, 2a Edição, 1977.
2. MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos. Noel Rosa, uma biografia. Brasília, Editora UnB, 1990.
3. CALDEIRA, Jorge. Noel Rosa - De Costa para o Mar. São Paulo, Brasiliense, 1982.
4. MELLO, Zuza Homem de e SEVERIANO, Jairo. A Canção no Tempo. São Paulo, Editora 34, Vol. 1, 1998.
5. CASÉ, Rafael. Programa Casé - O Rádio Começou Aqui. Rio de Janeiro, MAUAD, 1995.
6. SALLES, Vicente. Épocas do Teatro no Grão-Pará ou Apresentação do Teatro de Época. Belém, UFPA, 1994.
7. MENDES, Armando Dias. A Cidade Transitiva. Belém, I.O.E., 1998.

Jaime de Oliveira Bibas
Arquiteto e Secretário Adjunto da Secretaria
Executiva de Cultura do Estado do Pará

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