Ensaio Aberto

Júlio Medaglia

Viva Viena! Abaixo a Freud! - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2002

Na segunda metade do século XIX surgiu em Viena um estranho fenômeno. Uma dança de características absolutamente obscenas. Era em 3/4 como o minueto, mas, ao contrário deste, onde os casais se contemplavam distantes e com mútuo respeito, em movimentos lentos e elegantes, a nova dança induzia as pessoas a um comportamento... selvagem, digamos. Os pares rodopiavam freneticamente no salão, abraçando-se acintosamente em público, um sentindo o calor do corpo do outro! Esse comportamento, quase pornográfico, foi devidamente combatido, mas parece que o demônio havia mesmo tomado conta da cidade naquele momento, sob a égide provocadora do novo ritmo: a Valsa!

Para piorar as coisas, chegava da Itália um tal de Francesco Ezechiele Ermenegildo Cavaliere Suppe Demelle, que, ocultando sua identidade atrás do pseudônimo de Franz "von" (que heresia!) Suppé, introduziu, através de seus musicais, o pernicioso veneno latino no seio da comportada sociedade vienense. Esses musicais tinham as características formais de uma verdadeira ópera, mas, tornando-se, praticamente, uma degradação da nobre dramaturgia sonora, na qual brilharam figuras como Salieri, Mozart ou Wagner, foram chamados de "operazinhas", de operetas. Nelas, tudo era possível, mundo de fantasia dominado por uma espécie de carrossel de emoções sem limites. Árias românticas, danças coletivas, risos escancarados, cenários movediços, purpurinas esvoaçantes, perfumes no ar, delírios sem fim. No comportamento dos personagens, os valores morais, religiosos, éticos ou sociais, eram... "relativos". Mas tudo caminhava às mil maravilhas, já que o importante era manter ininterrupto o fluxo do prazer! Casais às vezes eram trocados, como a verdade por mentiras. Sorrisos escondiam traições, como gentilezas, ódios. Compromissos ou juras de amor eram desfeitos em questão de segundos. Uma escandalosa demonstração de ciúme poderia ser tão falsa como uma promessa de suicídio, em caso de traição amorosa. O "sim" se transformava em "não" a um simples piscar de olhos. Afirmações eram desfeitas ao romper da aurora. Mas tudo caminhava às mil maravilhas, pois o importante era manter ininterrupto o fluxo do prazer!

Como se tudo isso não bastasse, essas operetas deixavam fluir um corrosivo filete de humor crítico com relação às figuras da sociedade, que variava do sutil e subentendido ao mais agressivo e explícito deboche. Nenhum personagem da vida pública que cometesse o mais leve deslize escaparia do crivo desses devastadores cronistas musicais de costumes. Usando todos os recursos da dramaturgia, uma asneira cometida por um político na parte da tarde, estaria presente na figura de um fictício personagem, surgido, não se sabe como, na apresentação da noite. Expostos ao fulminante fogo cruzado estavam o político ou a socialite, a autoridade eclesiástica ou o polido falsário leigo, o benemérito oportunista ou a beata de araque, a grande personalidade ou o cidadão mais simples do povo. O risco era geral! Mas tudo era bem recebido, pois tudo era comandado por um espirituoso humor, uma movimentada e colorida encenação e, sobretudo, pela beleza infinita da música...

Através de centenas de operetas, Viena se divertiu com a natureza humana durante a segunda metade do século XIX. Quando o século XX se iniciava e parecia que o "gás" da inspiração e da crítica mordaz havia cessado, surge outro Franz, este não menos talentoso e vindo da Hungria, o Lehár, para compor a maior de todas as operetas vienenses, A Viúva Alegre. Estreada em 1905, ganhou enorme popularidade a ponto de divulgar o gênero em todo o mundo e motivar modas, comportamentos, design de chapéus, nomes de charuto, restaurantes, comidas - ainda hoje no Maxim's de Paris, onde se desenrola a trama, serve-se um prato "à la Viúva Alegre", como se ela tivesse efetivamente existido. Hollywood a filmou por duas vezes, sendo que uma das versões, a feita por Ernst Lubitsch em 34, é hoje um antológico representante do musical cinematográfico. Aqui, no Brasil, o gênero tornou-se igualmente muito popular e dos autores nacionais, para se ter uma idéia, só Chiquinha Gonzaga chegou a criar 77 obras.

Com o decorrer do século XX, porém, esse tipo de musical foi sendo cada vez mais esquecido.

Em abril reinaugura-se em Belém, inteiramente restaurada, uma das mais belas casas de espetáculos brasileiras, o Theatro da Paz. Nessa oportunidade eu terei o prazer de recriar essa tão prestigiada Viúva. Fiz questão, inclusive, de traduzir e adaptar o texto, para nele colocar as "inserções" (Zutaten) baseadas em acontecimentos nacionais, que darão a cor local e a atualidade que o gênero solicita. Se você, meu caro leitor, tiver oportunidade, tome um avião e vá para Belém em maio onde poderá penetrar no universo onírico de um espetáculo em que não existe o bem e o mal, o certo e o errado, o moral e o imoral, o bom ou mau caráter, a tristeza e a dor, mas só o humor e a beleza musical. Sim, pois, quando apareceu lá por Viena um tal de Dr. Freud, que tentou colocar as coisas em ordem, analisar e julgar a alma humana, criando, inclusive, o complexo de culpa nas pessoas, tudo foi por água a baixo. Nem se quer sonhar se podia mais, pois esse senhor criou uma teoria para os sonhos, que deixava de ser, assim, o vôo livre de nossa imaginação subconsciente. Deu no que deu: no neurótico expressionismo, repleto de tragédias angustiantes, envolvidas em sonoridades dissonantes!

Se tiver um tempinho, apareça, pois, a velha Viena vai estar viva ainda lá - no Pará.

Júlio Medaglia
Regente
Artigo originalmente publicado na Revista Concerto, São Paulo,
edição nº 71 de março de 2002.

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