O “rouxinol do Brasil”: assim era chamada
a soprano que, em 13 de fevereiro,1937, arrebatou a
platéia do Metropolitan com a sua interpretação
da Manon de Jules Massenet (o selo Naxos possui, em
seu catálogo, a documentação dessa
noite histórica). Considerada pelo compositor
Edino Krieger “a grande dama do canto brasileiro”,
Bidu Sayão foi uma das grandes estrelas do Met,
até sair de cena em 1957. Em 1987, ao completar-se
o cinqüentenário daquela estréia
memorável, o grande teatro nova-iorquino organizou
um ano inteiro de comemorações, iniciadas
com uma nova montagem da Manon, a que Bidu assistiu
como convidada de honra.
Diziam que Bidu tinha a voz pequena. E isso era verdade.
O mordaz Oscar Guanabarino a desencorajou a fazer carreira
com aquele “fiozinho de voz” que tinha.
“A dela não serve nem para cantar em salão”,
disse o crítico carioca. “É uma
voz de salinha.” Mas “ninguém jamais
teve problemas para ouvi-la”, garantia o crítico
americano George Movshon, porque ela sabia como projetar
o seu instrumento “puro e de excepcional clareza”.
Tinha sido aluna, no Rio de Janeiro, da romena Elena
Theodorinu e, na França, do tenor Jean de Reszke
-- além do compositor Reynaldo Hahn, que a preparou
para fazer a maravilhosa gravação de
sua canção Si mes vers avaient des ailes.
Emma Corelli, a rigorosa diretora do Teatro Costanzi
de Roma, deu-lhe a primeira chance na Itália,
em 1926: a Rosina do Barbeiro de Sevilha que, naquela
época, costumava-se fazer com soprano ligeiro.
Ela conquistou o público e, em breve, brilhava
como Mimì, Manon, Gilda, uma inesquecível
Mélisande, ou a Susanna das Bodas de Fígaro
-- que fez Olin Downes, o crítico do New York
Times, chamá-la de “atriz completa”,
ao ouvi-la, nesse papel, no Met, em janeiro de 1949,
sob a regência de Fritz Busch (a gravação
ao vivo desse espetáculo documenta uma de suas
mais preciosas interpretações).
Bidu, porém, lamentava não poder fazer
outro tipo de papel. Numa entrevista de 1977 à
revista Istoé, disse não gostar daquelas
“camareirinhas infelizes, sofredoras, meninotas
e frágeis”. Foi grande na Traviata, na
Lucia di Lammermoor, na Sonnambula, no Rigoletto, ou
no Roméo et Juliette de Gounod, de que existe
um registro fabuloso, em que ela tem Jussi Björling
a seu lado. Mas gostaria de ter cantado a Tosca. No
estúdio, em discos, fez uma Madama Butterfly
regida por Max Rudolf. Mas esse foi um papel que nunca
pôde realizar no palco. E confessava: “Tive
pesadelos ao saber que a Desdêmona, do Otello,
poderia arruinar de vez a minha voz.”
Foi em Lincolnsville, no Maine, que Balduína
de Oliveira Sayão viveu até o fim -- ela
morreu com 96 anos, de complicações pulmonares,
em 12 de março de 1999. mas sempre se recusou
a naturalizar-se. “Quero terminar a minha carreira
como artista brasileira”, disse ao presidente
Franklin Roosevelt que, em 1938, ao recebê-la
na Casa Branca, ofereceu-se para lhe conseguir, rapidamente
e sem burocracia, a cidadania americana. E foi como
uma das artistas que puseram o Brasil no mapa internacional
do canto que ela foi homenageada pela Beija-Flor, no
Carnaval de 1959, com o enredo Bidu Sayão e o
Canto de Cristal. Aos 92 anos, Bidu desfilou na Marquês
de Sapucaí, no carro alegórico Cisne Negro,
vestida de Carmen Miranda -- outra cantora que, como
ela, tornara o nome do Brasil conhecido lá fora.
Os últimos anos não foram fáceis.
Em 1963, morreu seu segundo marido, o barítono
Giuseppe Danesi, que fora de importância fundamental
para apoiá-la na evolução de sua
carreira (“foi ele quem me faz trabalhar e elaborar
a minha voz”, dizia.) Seis anos depois, a sua
casa no Maine foi destruída por um incêndio.
Reconstruída, ela seria, pouco depois, assaltada,
e os ladrões levaram artigos preciosos de sua
coleção. Por isso a importância,
para ela, nesses últimos anos melancólicos
e solitários, da homenagem na mais popular das
festas brasileiras.
Um Brasil ao qual ela não voltou muitas vezes.
Ficara muito descontente, segundo se diz, com a vaia
que recebera ao cantar Pelléas et Mélisande
no Municipal do Rio. Vaia que pode ter sido organizada
pela claque da meio-soprano Gabriella Besanzoni Lage,
cujo sucesso na Carmen eles não desejavam que
fosse empanado pela carioca que vinha dos Estados Unidos
coberta de louros. Mas que pode também ter sido
a reação do público conservador
ao fato de ela ter escolhido, para sua apresentação
no Rio, a discreta heroína de Debussy -- um de
seus maiores papéis -- em vez de uma mais previsível
Gilda ou Lucia.
Mas o Brasil sempre esteve presente em seu pensamento
e em sua carreira. Foi ela quem deu a Villa Lobos a
idéia de transformar em vocalise para soprano
a mágica melodia, inicialmente escrita para soprano,
das Bachianas Brasileiras nº 5. A sua gravação,
feita com um conjunto de violoncelos liderado pelo
grande Leonard Rose, permanece, até hoje, o registro
de referência dessa peça.
Em 1959, Bidu seria também a solista, em disco,
da Floresta do Amazonas, originalmente concebida como
a trilha sonora do filme Green Mansions e, depois, convertida
num oratório. Momento de importância histórica:
essa foi a última gravação de Villa Lobos,
que morreria naquele mesmo ano.
A maravilhosa solista da Damoiselle Élue, de
Debussy, gravada em 1936 por Toscanini; a grande estrela
de várias temporadas no Met; a intérprete
impecável de um repertório pequeno mas
refinadíssimo, Bidu Sayão foi, sem dúvida,
a cantora que ajudou a tornar o Brasil musical internacionalmente
conhecido. Nada mais justo, portanto, do que o seu nome
ser dado a um concurso de canto como este, cujo objetivo
é revelar novos talentos para essa arte que lhe
deve tanto.
Lauro Machado Coelho