
01 - Introdução
NA BIBLIOGRAFIA padrão de História da
Ópera, não é comum encontrar a
obra do brasileiro Antônio Carlos Gomes (1836/1896)
estudada dentro do contexto a que efetivamente pertence:
o da transição pós-verdiana na
Itália. O musicólogo inglês Julian
Budden é um dos raros estudiosos a tentar compreender
dessa maneira o compositor brasileiro. Em “A Problem
of Identity”, no vol. 3 de seu excepcional The
Operas of Verdi, é ao lado de Boito, Ponchielli,
Franchetti e Catalani que o coloca, no capítulo
em que faz o balanço da situação
da ópera italiana nos anos de crise e profundas
transformações que precedem a revolução
realista. Mas essa demonstração de clarividência
de Budden é um caso isolado.
Em A Short History of Opera, o americano Donald Jay
Grout, de hábito um historiador judicioso, não
menciona Carlos Gomes em conexão com as mudanças
que estão ocorrendo nesse período. Prefere
relegá-lo ao capítulo sobre as escolas
nacionais, no subtítulo “Espanha, Portugal
e América Latina”. E ainda cita seu nome
errado: Carlos Antônio Gomes. Nesse ponto, em
todo caso, a culpa não é exclusivamente
sua. Esta é a forma como o nome de nosso patrício
está registrado no Dizionario Ricordi dei Musicisti
– o que é aberrante, em se tratando de
obra publicada pela editora que detém os direitos
sobre suas partituras.
Há casos piores: em Mascagni, obra coletiva da
Electa Editrice dedicada ao estudo do autor da Cavalleria,
há um detalhado ensaio de Guido Salvetti sobre
o ambiente musical em que esse compositor se formou
e desenvolveu. Ali, encontramos referência à
“luxuosa ambientação mexicana do
Guarany”! Mas Salvetti, infelizmente, não
é o único. Jean-François Labie,
autor do capítulo “L’Opéra
Italien: l’après Verdi”, na Histoire
de la Musique Occidentale, organizada por Jean e Brigitte
Massin, atribui a Gomez (sic) a autoria da Marion de
Lorme – que é de Ponchielli. Confirma-se
assim haver musicólogos europeus que até
hoje ouvem o galo cantar sem saber onde! O próprio
David Kimbell, cujo Italian Opera é um texto
fundamental, só registra Carlos Gomes de raspão,
fazendo dele um mero epígono de Filippo Marchetti
– cujo Ruy Blas (1869) introduziu na Itália
a fórmula do grand opéra meyerbeeriano
(ver A Ópera Romântica Italiana, desta
coleção).
Querer estudar Carlos Gomes dentro do movimento das
escolas nacionais sul-americanas é tão
absurdo quanto se esquecer que os italianos Cherubini
e Spontini ou os alemães Meyerbeer e Offenbach
pertencem à História da Ópera na
França, e não à de seus respectivos
países. A intenção de nosso compatriota
nunca foi a de criar uma escola brasileira de ópera
e, sim, a de triunfar como compositor na Europa, praticando
um melodrama fiel às receitas peninsulares. Cumpre,
portanto, corrigir essa distorção, situando-o
no ambiente histórico e estético que assistiu
ao nascimento de sua produção, e para
o qual deu contribuição não-negligenciável.
Contribuição essa que, devido ao fato
de seu nome estar esquecido na Itália, acaba
sendo ignorada – a ponto de um dos raros musicólogos
mediterrâneos que o conhecem bem, Marcello Conati,
dizer que “as obras de Gomes vivem hoje em estado
vegetativo, entre as páginas das partituras conservadas
nas bibliotecas”(1) . Hoje, vemos a musicologia
italiana atribuir a Ponchielli o papel do compositor
que efetua a transição entre o Romantismo
e o Verismo, esquecendo – ou simplesmente varrendo
para debaixo do tapete – características
precursoras de cunho revolucionário que, em data
anterior, já estavam presentes na obra do brasileiro.
Para a elaboração deste capítulo,
peça fundamental foi Carlos Gomes: a Força
Indômita, estudo de Marcus Góes publicado
pela Secretaria de Cultura do Pará em 1966, ano
do centenário de morte do compositor. Este é
o trabalho mais completo e inovador a respeito de Carlos
Gomes, na medida em que suas pesquisas fornecem os melhores
argumentos para devolver a esse músico o lugar
que lhe cabe dentro da História da Ópera
italiana.
(1) Em Formazione e Affermazione di Gomes nel Pamorama dell’Opera Italiana: Appunti e Considerazioni em Nello Vetro: Carteggi Italiani.