Busca no site:

Ensaio Aberto

Lauro Machado Coelho

Lauro Machado Coelho
"A Ópera Italiana Após 1870"
Editora Perspectiva (2002) Leia outros ensaios

Carlos Gomes, vida e obra (40 textos) Texto Anterior Texto Seguinte Índice Texto Completo

02 - Primeiros Anos

Nascido em 11 de julho de 1836, na Vila Real (São Carlos), hoje Campinas, em São Paulo, Antônio Carlos era um dos 26 filhos que o mestre de banda Manoel José Gomes, o “Maneco Músico”, tivera em seus quatro casamentos. A mãe do compositor, Fabiana Maria Jaguary Gomes, morreu em 1844, quando ele tinha apenas oito anos. Manoel José estudara com André da Silva Gomes, primeiro mestre-de-capela da catedral da Sé, na capital da província, e compositor de muito talento, cuja obra vem sendo redescoberta e gravada nos últimos anos. Foi Manoel o primeiro professor do filho, a quem ensinou a tocar violino, clarineta, flauta e piano. Antônio Carlos continuou os estudos em São Paulo, a partir de 1847, com Paul Julien.
Sua primeira composição importante é uma Missa escrita em 1854, aos dezoito anos. A essa fase pertencem também modinhas até hoje muito conhecidas. A mais famosa é Quem sabe? (1854), cuja melodia delicadamente sentimental tornou famosos os versos de Francisco Leite de Bittencourt Sampaio: “Tão longe, de mim distante,/ onde irá meu pensamento” – a ponto de muita gente tê-la no ouvido sem saber que seu autor é o nosso mais famoso compositor do século XIX. Embora concebida nos moldes singelos do gênero – que visava aos saraus das prósperas famílias burguesas, mas tinha raízes nas formas bem mais populares do lundu –, Quem sabe? revela um rebuscamento típico de operista. A melodia dos versos finais – “Minh’alma cheia de amores/ te entreguei já neste canto” –, partindo de um si bemol agudo, sustentado por uma fermata, percorre uma cadência de colcheias até um si central bem grave para a voz aguda. Esse tipo de escrita, que já prenuncia o compositor maduro, exige do intérprete uma formação vocal superior à do simples amador, que cantava para animar as festas da época do Império.
Em 1996, no centenário da morte do compositor, a Secult editou, para distribuição institucional, o álbum A Música e o Pará: Carlos Gomes, contendo a gravação ao vivo dos concertos comemorativos. Um deles, realizado em 11 de setembro, foi dedicado às canções de câmara, na voz do tenor Reginaldo Pinheiro acompanhado ao piano por Paulo José Campos de Melo. Esse disco ilustra de forma preciosa diversas fases da atividade do músico nesse gênero vocal.
O mesmo álbum oferece o registro de uma obra muito importante dessa fase de formação: a Missa de Nossa Senhora da Conceição. Composta quando Antonio Carlos estava com 23 anos, e dedicada do Dr. Mamede José Gomes da Silva, amigo da família, a missa foi cantada em Campinas em 25 de fevereiro de 1859. É muito importante para compreender a formação da linguagem do músico, na fase que precede a ida para a Europa, pois à influência operística inevitável – a de Donizetti principalmente – une os recortes melódicos e desenhos rítmicos da música popular brasileira (por exemplo, nas cavatinas do “Laudamus”, para soprano, e do “Qui tollis” para barítono). E numa página como o “Gloria”, evidencia-se a experiência da música para banda absorvida desde cedo por Antonio Carlos. Redescoberta na Biblioteca Alberto Nepomuceno, do Rio, na década de 70, por Benedito Barbosa Pupo, a missa foi interpretada, em 17 de setembro, no Teatro da Paz de Belém, por Leila Guimarães, Alpha de Oliveira, Piero Marin e Jean-Paul Franceschi, sob a regência de Andi Pereira.

WebDesignSobe ↑