
02 - Primeiros Anos
Nascido em 11 de julho de 1836, na Vila Real (São
Carlos), hoje Campinas, em São Paulo, Antônio
Carlos era um dos 26 filhos que o mestre de banda Manoel
José Gomes, o “Maneco Músico”,
tivera em seus quatro casamentos. A mãe do compositor,
Fabiana Maria Jaguary Gomes, morreu em 1844, quando
ele tinha apenas oito anos. Manoel José estudara
com André da Silva Gomes, primeiro mestre-de-capela
da catedral da Sé, na capital da província,
e compositor de muito talento, cuja obra vem sendo redescoberta
e gravada nos últimos anos. Foi Manoel o primeiro
professor do filho, a quem ensinou a tocar violino,
clarineta, flauta e piano. Antônio Carlos continuou
os estudos em São Paulo, a partir de 1847, com
Paul Julien.
Sua primeira composição importante é
uma Missa escrita em 1854, aos dezoito anos. A essa
fase pertencem também modinhas até hoje
muito conhecidas. A mais famosa é Quem sabe?
(1854), cuja melodia delicadamente sentimental tornou
famosos os versos de Francisco Leite de Bittencourt
Sampaio: “Tão longe, de mim distante,/
onde irá meu pensamento” – a ponto
de muita gente tê-la no ouvido sem saber que seu
autor é o nosso mais famoso compositor do século
XIX. Embora concebida nos moldes singelos do gênero
– que visava aos saraus das prósperas famílias
burguesas, mas tinha raízes nas formas bem mais
populares do lundu –, Quem sabe? revela um rebuscamento
típico de operista. A melodia dos versos finais
– “Minh’alma cheia de amores/ te entreguei
já neste canto” –, partindo de um
si bemol agudo, sustentado por uma fermata, percorre
uma cadência de colcheias até um si central
bem grave para a voz aguda. Esse tipo de escrita, que
já prenuncia o compositor maduro, exige do intérprete
uma formação vocal superior à do
simples amador, que cantava para animar as festas da
época do Império.
Em 1996, no centenário da morte do compositor,
a Secult editou, para distribuição institucional,
o álbum A Música e o Pará: Carlos
Gomes, contendo a gravação ao vivo dos
concertos comemorativos. Um deles, realizado em 11 de
setembro, foi dedicado às canções
de câmara, na voz do tenor Reginaldo Pinheiro
acompanhado ao piano por Paulo José Campos de
Melo. Esse disco ilustra de forma preciosa diversas
fases da atividade do músico nesse gênero
vocal.
O mesmo álbum oferece o registro de uma obra
muito importante dessa fase de formação:
a Missa de Nossa Senhora da Conceição.
Composta quando Antonio Carlos estava com 23 anos, e
dedicada do Dr. Mamede José Gomes da Silva, amigo
da família, a missa foi cantada em Campinas em
25 de fevereiro de 1859. É muito importante para
compreender a formação da linguagem do
músico, na fase que precede a ida para a Europa,
pois à influência operística inevitável
– a de Donizetti principalmente – une os
recortes melódicos e desenhos rítmicos
da música popular brasileira (por exemplo, nas
cavatinas do “Laudamus”, para soprano, e
do “Qui tollis” para barítono). E
numa página como o “Gloria”, evidencia-se
a experiência da música para banda absorvida
desde cedo por Antonio Carlos. Redescoberta na Biblioteca
Alberto Nepomuceno, do Rio, na década de 70,
por Benedito Barbosa Pupo, a missa foi interpretada,
em 17 de setembro, no Teatro da Paz de Belém,
por Leila Guimarães, Alpha de Oliveira, Piero
Marin e Jean-Paul Franceschi, sob a regência de
Andi Pereira.