Ensaio Aberto

Maria Lenora Menezes de Brito

O piano no universo operístico - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2003

É sintomático que no século XIX tenham surgido transcrições de óperas para piano solo e piano a 4 mãos, e ainda fantasias ou paráfrases sobre temas operísticos famosos. A vida musical da Europa, naquele século, viu passar uma série de transformações que resultariam em novos quadrantes para essa arte tão social, campo germinativo propício ao ideário da Revolução Francesa. Hinos, marchas, coros glorificavam o despertar do sentimento nacional. O piano, com sua constituição harmônica, foi o porta-voz preferido pelos músicos para transmitir essas reações.
O público, que anteriormente era o das cortes, vai ser, com a chegada da República, um ouvinte mais liberto, que agora participa também como executante. Decaíram os mecenas da nobreza, e os músicos tiveram de se reunir em agremiações, onde profissionais e amadores iniciaram o que se chamou "concertos públicos". Sociedades Musicais, Casas de Ópera vão receber o músico solista, novidade que fazia despontar o "culto do gênio". Milhares de pessoas assistiam às récitas de óperas e aplaudiam o pianista a executar solos memorizados - também uma peculiaridade surgida nesse período. Os "concertos de promenade", realizados em parques públicos, atraíam centenas de pessoas. Era a sociabilização da música, um alargamento da vida musical, resultado das idéias veiculadas pela Revolução Francesa, que repercutiram em toda a Europa.
Por outro lado, o compositor romântico, nutrido de poesia e de literatura, sentia-se contagiado pelo teor poético, aliado à música e à ação gramática, contido no gênero operístico. A burguesia em ascensão também queria trazer para seus salões essa música plena de dramaticidade. E foi o piano, com o seu poder de "cantar" as árias favoritas e recheá-las de textura polifônica, o instrumento encarregado de transmitir os elementos descritivos das cenas e de inundar, com sua sonoridade ampla, as casas, os saraus - ambientes onde, naturalmente, as orquestras não podiam atuar, se considerarmos as dimensões e o aparato próprios de um grupo sinfônico.
Claude Rostand referiu-se a Liszt como "o dramaturgo do piano". E afirmou que o grande músico húngaro desenvolvera um estilo de composição e de execução (já iniciado magistralmente por Beethoven) que alcançava, nesse instrumento, a expressão do drama desenrolado nos palcos dos teatros de ópera, em um som orquestral, característico do jogo pianístico moderno.
As transcrições de ópera apresentam-se quase sempre literais. É nas fantasias ou paráfrases que os compositores elegem alguns temas e se deixam levar, no "vôo da fantasia", a um lirismo musical que traz para perto de nós o "universo romanesco" em que se alternam intrigas, sentimentos passionais ou guerreiros, dan-ças do povo, ou ainda momentos de beatitude. E aí se revela o espírito do compositor da peça inspiradora, em singular afinidade com a alma do autor da nova composição. Este, fantasiosamente, ilumina os trechos de sua predileção com outras tonalidades e sutilezas harmônicas, mostrando-nos as intrínsecas e misteriosas possibilidades da música. Essa atividade deu surgimento a um gênero de composição divulgador de um repertório operístico que se mantém nas temporadas dos grandes teatros.
O programa que apresentamos no Festival de Ópera do Theatro da Paz - 2003 oferece transcrições e fantasias sobre temas de óperas tanto para solo de piano, como para piano a quatro e a oito mãos. Momento de relevo do recital é, certamente, a apresentação a oito mãos da Sinfonia de Il Guarany, ópera que brotou da genialidade de Carlos Gomes. Os dois novos pianos do Theatro da Paz - Yamaha e Steinway - brilharão com todo o esplendor na execução de quatro pianistas paraenses, relembrando o momento em que Carlos Gomes regeu, nesta nossa casa de espetáculos, em 1882, a Sinfonia de sua ópera imorredoura.
Pelo ineditismo do programa, o Festival de Ópera do Theatro da Paz alcança excelente nível de pesquisa e de elaboração musicais, ao trazer para a platéia de Belém o espírito imaginativo que assinala tais composições.

Maria Lenora Menezes de Brito
agosto de 2003

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