Ensaio Aberto

Márcio Páscoa

Ópera em Manaus - Publicado durante o IV Festival Amazonas de Ópera, 2000

A ópera já existe há 400 anos. Desde então tem sido ela a responsável por muito do que se passou neste mundo. Quando a queda dos reis da França tornou-se iminente, foi pela ópera que se transmitiu o ideal revolucionário e também a inútil tentativa reconciliadora. Quando uma nação fragmentada precisou unir forças para se tornar a Itália de hoje, foi pela ópera que se conjuraram os sentimentos e o povo percebeu o seu grande elo comum. Quando já não era mais possível esconder a existência crua e miserável de muitos, também a ópera estava lá para nos mostrar isto. Quando a beleza e o horror dos sentimentos mais primitivos e entranhados do homem se fizeram revelar na Arte, a ópera o fez com a mesma intensidade com que descreveu a vida das pessoas mais simples. Também na ópera se desenvolveram os germes do autoritarismo e da utopia. Estão na ópera as mais arrebatadoras representações do céu e do inferno e todos os extremos da fantasia humana. Foi com a ópera que o homem ousou reunir todas as manifestações a que chama de Arte; e a Arte é uma das poucas coisas que o torna diferente dos outros animais.

Por toda a sua intensidade e complexidade a ópera não podia ser algo fácil. Sua trajetória como elemento fundamental da cultura ocidental está marcada pelos mesmos contrastes que ela expõe em cena. Mas, tão custosa quanto necessária, a ópera é um espetáculo estigmatizado por clichês preconceituosos que prejudicam ainda mais a sua realização. Pudera! Se continua a causar as reviravoltas que já causou, só podia estar fadada aos ataques daqueles que não vêem interesse num mundo melhor. Fazer ópera tem sido um desafio desde os primeiros tempos. Foi censurada pela religião e pelos despótas. Foi combatida como se fosse luxo desnecessário e ridicularizada como se fosse a caricatura circense de que ainda hoje se valem os ignorantes. Mas nenhuma insídia foi capaz de impedir os homens que a fazem e a assistem, sejam músicos e empresários, sejam operários e governantes.

Pelo contrário, novos teatros foram construídos unicamente para este fim e em pontos tão distantes do globo terrestre, como Jacarta, Odessa, Johanesburgo, Manilla, Estocolmo, São Francisco, Sidney ou Manaus. Se as dificuldades gerais, que se estendem a todo lugar e época, se juntarem às moléstias típicas de um país como o Brasil, há de se reconhecer a obra hercúlea que tem sido, nestes 200 anos de ópera em solo tupiniquim, erguer um só espetáculo. Mesmo assim, o Brasil teve temporadas contínuas em mais de uma dezena de cidades, atraindo artistas de toda grandeza, a ponto de se tornar referência mundial. Manaus foi uma dessas cidades. Calada inexplicavelmente por 90 anos, retomou há pouco o caminho por onde passaram notabilidades como Maria Peri (criadora da Ilara, em Lo Schiavo, de Carlos Gomes) ou Giorgio Polacco (regente absoluto nos maiores teatros do mundo), dentre muitas outras. Fazer ópera hoje ainda é um desafio tão grande quanto foi há 100 anos, na época do vapor, do telégrafo e da febre amarela.

Fazer ópera hoje em Manaus, como ontem, envolve um sem número de empecilhos que se comparam a aventura e ao atrevimento que foi fincar no meio da selva uma cidade. Mas a ópera, em Manaus, como em qualquer lugar do mundo, ainda rende aos abnegados, que a fazem e a assistem, o prazer indizível de descobrir o novo e o antigo, de fazer pensar e refletir, e de fruir da Arte tudo o mais que só ela pode oferecer. E quando isto acontece é como se todos falássemos pela boca de Peri, o Guarani, de Carlos Gomes: Sento una forza indomita!

Márcio Páscoa
Escritor, pesquisador e músico

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