Ensaio Aberto

Márcio Páscoa

Bug Jargal e a cultura brasileira - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2003


Bug Jargal não é apenas a primeira ópera brasileira do período republicano. O melodrama de Vincenzo Valle e José Cândido da Gama Malcher representa aspectos de relevante interesse mesmo para o Brasil contemporâneo. Seus autores, baseados em Victor Hugo e posicionados numa estética dramatúrgica entre a scapigliatura e o verismo, conseguiram abranger folgadamente as mentalidades proeminentes do século XIX.
Estão em causa, no melodrama, os conflitos sociais e políticos que originaram a primeira república negra nas Américas, o atual Haiti; Bug Jargal é personagem livremente inspirado em Toussaint Louverture, líder negro rebelde de São Domingos. Mas a transposição do personagem histórico para a literatura não ocorre sem modificações. E o Bug Jargal de Gama Malcher e Valle é ainda diferente daquele imaginado pelo autor francês.
A motivação literária era a criação do herói romântico, ainda que subsistissem as enormes contradições do ambiente, e até mesmo da identificação do protagonista, como, aliás, convém a certos tipos heróicos. Mas, na ópera, Bug Jargal está acima dessas indefinições. Em seu conflito emotivo, o que já demonstra a veia naturalista de sua concepção melodramática, decide o destino dos seres humanos e da história amparado unicamente num amor divino, maior do que todos os amores, o fraternal. O seu amor por Maria não é, então, apenas um amor de carne ou de gratidão, mas o amor ao próximo, como uma revelação libertadora do vale de lágrimas em que se constitui o palco do sangrento embate entre etnias.
Ao marcar opinião sobre um assunto universal e atemporal, especialmente candente no Oitocentos, os autores esmeraram-se por elaborar um equilíbrio considerável. Quer seja no plano musical, com o uso de formulações tradicionais ao lado de material e estrutura novos, quer seja no plano dramatúrgico, em que esses elementos se associam a uma relação de valores com dimensão filosófica notável. Sendo assim, as anteposições que confrontam os viventes são muitas: negros e brancos, homens e mulheres, pecadores e puros, calma e revolta, felicidade e cólera infernal, e até mesmo a das formas de amor (paternal, carnal, filial, etc).
A atmosfera alude a vários constrangimentos, e a solução parece sempre convergir para a destruição individual ou institucional. Num ambiente em que se tornou banal o desprezo pela vida, Bug Jargal parece querer reinventar o herói, ao transformar a violência sem sentido no ato de amor a que a humanidade ainda se recusa.
E, com isso, obra e autoria fundem-se numa representação incontornável da cultura brasileira.

Márcio Páscoa
agosto de 2003

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