Ensaio Aberto

Maria Sylvia Nunes

Shakespeare e Macbeth - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2002

Quando, na temporada de 1606, William Shakespeare apresentou sua nova peça, já tinha escrito as maiores obras como Otello, Hamlet e Rei Lear. Sentia-se seguro de dominar os segredos da dramaturgia e podia, portanto, voltar as costas para as tradições teatrais de sua época e buscar, num passado remoto, o modelo para sua nova produção. Voltava-se então para os cânones da tragédia antiga ao delinear o mais estruturalmente perfeito de seus dramas: Macbeth.

Indiscutivelmente Macbeth é também uma peça de interesse político. Não é sem motivo que foi esse tema escolhido para ser apresentado, no verão de 1606, ao rei James I, que a assistiu sem cochilar, como era seu costume fazer quando comparecia a outras peças. A essa peça acompanhou com enorme interesse, reconhecendo nela semelhanças com fatos de sua própria história. Shakespeare despertava de maneira sutil e hábil a benevolência do rei escocês, que então reinava na Inglaterra, fazendo uma peça ambientada na Escócia, sobre traições e atentados, fatos constantes na vida do soberano. Ele próprio tinha sido prisioneiro, certa vez, do atual Thanes de Glamis, além de ser um dos descendentes de Banquo, previsto, nesta peça, de sentar no trono da Escócia. Filho de Maria da Escócia e Lord Darnley, desde a infância foi cercado de ameaças, lutas de clãs políticos e guerras religiosas.

O rei James I tornou a companhia teatral de Shakespeare em sua própria troupe, The King's Men, com todos os privilégios inerentes a esse título.

Shakespeare intuiu que para o seu novo personagem, que emergia da escuridão de um passado caótico, onde os limites entre história e mitologia ainda não estavam demarcados, onde forças da natureza atuavam benfazejas ou destrutivas sobre o destino das pessoas, onde a mágica das feiticeiras ou das fúrias era a explicação do incompreensível e onde as lutas tribais ainda prevaleciam sobre a organização política, o padrão dramático para sua peça estava em um período histórico semelhante, que também representasse homens formadores de povos em lutas entre si e transformados em heróis mitológicos mais do que humanos, vivendo num tempo anterior à história. Isso tudo estava gravado na tragédia grega. Às grandes famílias trágicas, como os Átridas, se sobrepunham os clãs escoceses, as sibilas e fúrias, as feiticeiras e bruxas. Os heróis, com sua vontade poderosa e mesmo destino cruel, eram feitos da mesma matéria.

O grande poeta vai buscar seu protagonista em uma fonte histórica - os dois enormes tomos das "Crônicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda" de Holinshed - mas também nas fontes da tradição popular em narrativa, canções e baladas sobre os feitos dos heróis nacionais.

Juntando essas duas matérias-primas, a histórica e a legendária, trabalha com o sopro da poesia que opera a mais fantástica obra alquímica: transforma esse amálgama em um homem. Um homem completo, com grandeza e miséria, coragem e terrores, decisão e hesitação, paixão e desânimo. Não estamos mais diante do linear herói trágico, mas, e é esse o maior gênio e a maior força de Shakespeare, diante do homem confrontado ao seu destino. Macbeth não é um "tipo", ele vive. E aí ele se afasta do herói da tragédia antiga. Até então existia um paralelo visível entre os dois: a ascensão e queda do protagonista por meio de seu defeito - a hybris -, que no caso de Macbeth é sua paixão pelo poder, como no caso de Édipo é o orgulho; os acontecimentos que marcam o desencadear da engrenagem da destruição - a peripécia - e até o reconhecimento marcado em Macbeth ao saber que seria derrotado quando a floresta caminhasse e morto por homem não nascido de mulher. Mas Macbeth é um personagem humano, com todas as complexidades que continuam dentro do homem moderno.

Shakespeare aproxima-se mais do drama antigo na estrutura da peça. O drama corre célere, uma ação gerando outra, numa cadeia de causa e efeito avassaladora. O espectador assiste, sem fôlego, diretamente a ação, o pensamento, a reação e a repercussão dos atos dos personagens. Não há as explicações, tão comuns no teatro elizabetano, dessas ações e pensamentos. Não existem ações paralelas, nem mistura de prosa e verso, nem de cômico e trágico. A roda da fortuna se move implacável, primeiro elevando e depois triturando o protagonista - ou seria melhor dizer os protagonistas, já que Lady Macbeth é o reflexo complementar de seu marido?

A trajetória desse herói é marcada, desde o início, pelo derramamento de sangue. Ele caminha numa senda ensangüentada. Seu trono está manchado de sangue. Há em torno dele uma atmosfera de terror primitivo que o isola e o leva a mais mortes. Ele mesmo é presa de alguma coisa que não entende completamente e que está ligada a sua obsessão de ser rei, ao seu mais abissal desejo de poder. Nisso é diferente de outros heróis shakespearianos, como Ricardo III, que é plenamente consciente do mal que planeja, explica ao público e no qual se compraz.

No Olimpo da dramaturgia, Shakespeare entre Sóflocles e Eurípedes ergue sua taça e proclama a vida como

"... Um conto

contado por um idiota

cheio de som e fúria

significando nada."

Macbeth

Alguns séculos depois o grande shakespeariano Giuseppe Verdi ergue sua taça musical cheia com os sons da sabedoria humana e sorridente entoa a fuga:

"... Tudo no mundo é burla ..."

Falstaff

Maria Sylvia Nunes

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