Ensaio Aberto

Maria Sylvia Nunes

O Lied de Schumann - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2003

Em 1840, Robert Schumann, então um compositor respeitado e prestes a ser considerado "o mensageiro de um novo gênero de canto germânico", escreve: "Cantar até morrer, como o rouxinol". Os biógrafos de Schumann chamam essa etapa de sua vida de o "ano do Lied". O ano da canção literária, esse gênero tão caro aos românticos, que reunia a poesia e a música num tecido lírico. Nesse momento ele compõe 138 Lieder, mais da metade de sua produção total para voz e piano.
Na juventude, em 1827 e 1828, Schumann havia escrito, esporadicamente, algumas canções, usando o pseudônimo Ebert para assinar algumas delas. É, porém, em 1830 que ele sonha fundir seus talentos de poeta e de músico. Dez anos mais tarde, após abandonar a poesia e amadurecer como músico, volta a compor Lieder segundo os ideais estéticos do romantismo, elevando-os à mais alta perfeição.
No entanto, quando Schumann, no bendito ano de 1840, coloca no papel a primeira canção, sua vida pessoal estava sacudida por crises que iam da incapacidade para compor - que resistia a todas as tentativas, condenando-o a um silencioso fracasso - a um novo pedido de casamento, feito em 1839, e uma vez mais recusado por Wieck, pai de sua amada Clara. Essa recusa deixava como único recurso para Robert e Clara um processo judiciário visando ao matrimônio. No meio de tais dias sombrios, perde duas amigas queridas que o incentivavam: Henriette Voigt e a bela cantora
Agnes Carus, que o estimulava a escrever Lieder.
Subitamente, na primavera volta a inspiração, caudalosa, irrefreável. Escreve à Clara: "Não posso te dizer como tudo me vem facilmente... Freqüentemente componho em pé, ou caminhando, não mais ao piano. É uma música totalmente diferente daquela que primeiro passa pelos dedos, é muito mais direta e melodiosa... Tenho tanta música em mim, que poderia cantar o dia inteiro".
Os ciclos de canções iniciados por Beethoven com À Amada Distante terão em Schubert e Schumann adeptos de gênio. Schumann, baseando-se em poemas de Heine e Chamisso, escreve dois dos maiores e mais belos ciclos para voz e piano: Dichterliebe (Amor de Poeta) e Frauenlieben und-Leben (Amor e Vida de Mulher). Usando rigor e simplicidade, consegue conferir à sua música toda a carga de emoção necessária para que a alquimia da transmutação da poesia em melodia se faça.
O romantismo musical não se caracteriza por cânones como, por exemplo, o barroco. Como escola, ele acontece nos ideais que vêm desde o Sturm und Drang, esse pré-romantismo da segunda metade do século XVIII. O próprio conceito do artista como homem excepcional, diferente e, portanto, incompreendido confere individualidade aos românticos. Assim, cada músico tem seu estilo, sua maneira de representar memória e paisagem, que são essenciais à pintura do homem. O criador romântico, seja músico, pintor ou poeta, tem liberdade formal. Daí a proliferação de formas musicais e poéticas, o amor ao fragmento, à melodia interior, as analogias entre paisagem e sentimento.
Desde a primeira canção de Amor de Poeta, a atmosfera romântica está presente, estabelecendo o caráter do ciclo como sonho poético, ligado à natureza, à ronda das estações, e mudando com elas. O tom é ingênuo como uma canção popular, e o piano auxilia o cantor a tecer a sutil trama de brisa de primavera e uma leve dor no coração. Nesse ciclo, porém, nem todas as canções são idílicas e bucólicas. Estão também pintadas resignação, desolação, mágoa, mostrando o lado mais sombrio e doloroso do amor do poeta. Nessa série de miniaturas, de fragmentos finamente recortados, está toda a arte delicada, mas forte e sublime, que utiliza com sabedoria os recursos do piano e da voz, ora os fundindo, ora os apresentando em contrates. Muitas vezes, a breve melodia é infinita como o sentimento que a inspira. Outras vezes, flutua e se dissolve no piano, deixando a mágoa no coração do poeta. Há, ainda, riso e até ironia amarga, como na última canção do ciclo, que se aproxima da balada, uma forma cara aos poetas românticos.
No ciclo Frauenlieben und-Leben, sobre poemas de Chamisso, Schumann conta o nascimento do amor no coração de uma jovem, o encanto com o amado, o casamento, a vida de jovem esposa e mãe, e, no final, a morte do marido e a fidelidade de sua memória. Essa vida de mulher está narrada em forma circular, quase um anel tonal e temático que ordena o ciclo. Aparece, aí, a citação do ciclo À Amada Distante, de Beethoven, usando dó maior, o tom motivo de Clara. Schumann homenageia, assim, seus dois afetos maiores.
Ainda no ciclo Frauenlieben und-Leben, o início parece anunciar o fim, dando um clima de nostalgia ao amor nascente, como se, já na origem, esse sentimento trouxesse o temor e a tristeza de sua própria morte. O que fica muito claro no longo final instrumental, tornando-o uma canção sem palavras.

Maria Sylvia Nunes
agosto de 2003

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