Ensaio Aberto

Maria Sylvia Nunes

Shéhérazade - Três poemas de Tristan Klingsor

  Poesia e Inspiração  
  Maria Sylvia Nunes  

Tradução dos poemas

1. Ásia

Ásia, Ásia, Ásia
Terra maravilhosa de velhos contos
Em que a fantasia dorme como uma
Imperatriz
Em sua floresta cheia de mistério

Ásia, eu queria partir no barco
Atracado esta noite no porto
Misterioso e solitário
E que abre enfim suas velas
violáceas
Qual imenso pássaro noturno
No céu dourado

Eu queria partir para as ilhas floridas
Ouvindo cantar o mar perverso
Em ritmo que enfeitiça

Eu queria ver Damasco
E as cidades da Pérsia
E seus leves minaretes no ar
Eu queria ver belos turbantes
de seda
Em rostos negros com dentes claros

Eu queria ver olhos sombrios
de amor
E pupilas brilhantes de alegria
Em peles amarelas como laranjas
Eu queria ver trajes de veludo
E roupas com longas franjas

Eu queria ver cachimbos em bocas
Rodeadas de barba branca
Eu queria ver ríspidos mercadores
De olhar suspeito, e cádis, e vizires
Que com um único gesto de seu dedo
Que se inclina
Concedem vida ou morte a seu bel
prazer

Eu queria ver a Pérsia
E a Índia e depois a China,
Mandarins barrigudos com suas
sombrinhas,
E princesas de mãos delicadas,
E letrados que discutem poesia
e beleza

Eu queria me deter no palácio
encantado,
E como um viajante estrangeiro
Contemplar com calma paisagens
pintadas
Em tecidos emoldurados
Com um personagem no meio
de um pomar

Eu queria ver assassinos sorrindo
Do carrasco que corta um pescoço
inocente
Com seu sabre curvo, oriental
Eu queria ver pobres e rainhas
Eu queria ver rosas e sangue
Eu queria ver morrer de amor
Ou então de ódio

E depois voltar
Para narrar minha aventura
Aos curiosos de sonhos
Levando como Sinbad
Minha velha xícara árabe
De vez em quando a meus lábios
Para interromper a narrativa com arte

2. A Flauta Mágica

A sombra está suave e meu senhor
está dormindo
Em sua cabeça traz um gorro de seda
em forma de cone
E seu comprido nariz amarelo
em sua barba branca
Eu, porém, estou acordado ainda
e ouço lá fora
Um som de flauta em que transparecem,
Alternadamente, a tristeza e alegria,
Uma melodia ora lânguida, ora banal
Que meu bem-amado vai tocando
E quando chego perto da janela,
Me parece que cada nota voa
Da flauta até meu rosto
Como um beijo misterioso

3. O Indiferente

Teus olhos são suaves como
os de uma moça, jovem forasteiro
E a curva delicada de teu belo rosto
com sombras de penugem
Tem um perfil muito sedutor
Teus lábios cantam à minha porta
Em um idioma desconhecido
e encantador
Qual música desafinada
Entra! E que meu vinho te reanime
Mas não segues adiante
E de minha porta te vejo desaparecer
Acenando-me graciosamente
Com o quadril levemente inclinado
Pelo teu andar feminino e cansado


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"Ásia, Ásia, Ásia
Velho país maravilhoso dos contos das amas
onde dorme a fantasia como uma imperatriz na
sua floresta toda cheia de mistérios"

Estes versos iniciais de Shéhérazade, do poeta menor Tristan Klingsor (pseudônimo de Arthur Leclère, revelador do wagnerianismo então de rigor), exprimem o tom do poema que Ravel musicou trazendo som e animação a este afresco de um Oriente imaginário que encantava e até mesmo obcecava artistas europeus. Essa Ásia legendária, produto de relatos de viajantes (dentre eles o ousado Marco Polo), de narrativas intermináveis das 1001 Noites, já traduzidas desde o século 18, das estampas japonesas, das danças e músicas asiáticas apresentadas na Grande Exposição Universal do fim do século, torna-se motivo de inspiração para escritores, artistas e músicos. Continente idealizado, terra de delícias e mistérios, crimes e prazeres, sensualidade e crueldade, esta era a imagem que Ravel encontrava no ciclo de Klingsor e à qual o grande mestre das nuances, das sutilezas e da orquestração deu a melodia de sonho capaz de transportar essa Ásia de pacotille em paraíso perdido.

A inspiração de L'Horizon Chimérique é o mar, o horizonte, seus apelos à viagem, suas promessas de sonho e evasão. O autor do ciclo de poemas, Jean de la Ville de Mirmont, é um poeta parnasiano que, como bom parnasiano, proclamava a sensualidade mais imediata por meio da ligação com o passado, principalmente com o século 18, a pintura de Watteau e a descoberta do Oriente. Fauré, utilizando uma interpretação "harmônica" - aí difere da interpretação "prosódica" de Debussy -, procura a atmosfera, a cor justa. Sua música sutil parece mascarar a alma, esconder pudicamente a verdade profunda que está contida (é bem o termo) neste ciclo que é a aspiração à felicidade. A melodia segue o movimento infinito dessa busca nostálgica e constante como o mar e seu horizonte quimérico.

Já a inspiração de Granados não provém de uma paisagem imaginária. Ela brota da árida, rude e fascinante terra ibérica e de sua gente. É uma música que, se elevando de raízes populares, oferece aos que a ouvem a sensação de estar dentro de uma cultura especial e única, com características inconfundíveis. Retrata a alma do povo com a autenticidade que emana das obras impregnadas de "sinceridade" artística trabalhada pela competência criadora. Sobre poemas de Periquet La Maja Dolorosa, Granados utilizou a forma
tradicional da tonadilla.

Na obra de Camargo Guarnieri destaca-se a criação de peças para voz e piano. São cerca de 260 melodias das mais variadas inspirações, desde os poetas maiores do Brasil - Drummond, Bandeira, Mário de Andrade, Cecília Meireles, entre outros, até as que contêm fortes elementos folclóricos. Entretanto, o refinado músico paulista tratou esses elementos tradicionais com depuração, sem fazer apelo ao exotismo fácil. Todas as canções são em idioma português, afro-brasileiro e ameríndio, mas existe, entre elas, uma curiosidade: a canção Den-bau , cujas palavras são inventadas pelo autor, mostrando uma faceta divertida próxima dos modernistas de 22. As Quatro Cantigas sobre poesia do folclore brasileiro ilustram bem o trabalho esmerado do compositor.

Belém, julho, 2005
Maria Sylvia Nunes

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