Ensaio Aberto

Maria Sylvia Nunes

O Feminino em Mozart- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2006

As personagens das óperas de Mozart reunidas neste recital representam, com ternura e humor, uma boa parte do uni-verso feminino, visto pelos olhos di-vertidos desse músico irreverente. Estão agrupadas nobres senhoras, astutas criadas, ingênuas jovens, rainha-feiticeira, amadas devotadas, amadas abandonadas. Todas elas - orgulhosas ou humildes, vin-gadoras ou clementes, espertas ou simplórias, alegres ou trá-gicas - são sempre mulheres, intemporais mulheres de carne, osso e belas vozes, ostentando os atributos que se costuma conferir a seu sexo.

O desfile das heroínas mozartianas começa pela ária Ruhe Sanft, que traduz o encanto da cativa Zaïde, prisioneira no harém do sultão Soliman, pelo também escravo Gomatz, que, adormecido, não se dá conta do apelo amoroso que a bela Zaïde lhe dedica. Esta deixa ao lado do amado seu retrato, o que vai garantir a reciprocidade dessa paixão. No século das Luzes, a Europa descobre, encantada, o Oriente e a diferença, daí a moda de incluir turcos, asiáticos e outros povos "exóticos" numa estranha mistura nas obras de arte do momento. Zaïde, ópera inacabada de Mozart, traz o gérmen da futura obra O Rapto do Serralho . Zaïde é como a Constanze de O Rapto do Serralho, a imagem do amor eterno que afronta, corajosamente, todos os obstáculos e vence todas as dificuldades.

Enquanto Zaïde canta a esperança do amor, a astuta Susanna, de As Bodas de Fígaro, percebendo que seu recém-desposado Fígaro a espreita, finge, numa das mais belas árias de Mozart, Deh! Vieni non tardar, que aguarda um oculto amante para coroá-lo de rosas e beijos. Na verdade é uma canção de amor, por tabela, ao próprio Fígaro. A bela e sábia criada da Condessa e seu esposo conduzem toda uma estratégia para reunir o Conde e a Condessa e evitar a corte que o nobre faz à Suzanna. Numa noite de enganos e loucuras, o Conde conquistador inveterado é desmascarado e só lhe resta pedir perdão à sua Condessa.

Em Così Fan Tutte, duas irmãs amam dois cavalheiros militares que apostam a fidelidade de suas amadas com um incrédulo filósofo, que diz que "assim fazem todas". Ele, porém, refere-se à infidelidade que atribuiu a todas sem exceção. Apresentando-se às amadas sob disfarce para conquistá-las e perder a aposta, ou serem rejeitados e vencendo, proclamarem as virtudes de suas damas, os jovens primeiramente fingem partir para a guerra, deixando as moças desconsoladas. Vemos Fiordiligi na ária Come scoglio afirmando a sua fidelidade inabalável como rochedo, que fica indiferente aos assédios das vagas do mar. Esta lealdade, bem como de sua irmã, vai se revelar bastante precária diante das palavras de seus cortejadores.

Já a criada das duas, Despina, saída diretamente da Commedia dell'Arte com sua sabedoria e humor populares, explica às irmãs na ária In uomini, in soldati que de homens e de soldados não se deve esperar fidelidade. Despina, como Suzanna, de As Bodas de Fígaro, toma parte nas tramóias do velho filósofo Alfonso para vencer a aposta, chegando a travestir-se de doutor e notário segundo as necessidades das tramas desse cético.

Elvira, abandonada por Don Giovanni, sai à sua procura e tenta convencê-lo a trilhar o caminho da fidelidade conjugal, coisa que repugna profundamente o espírito volátil de Don Giovanni. Nesta ária Ah! Chi mi dice mai, a desesperada Elvira busca, ao chegar à hospedaria, seu amado infiel, proclama a própria desonra e promete arrancar-lhe o coração se ele a abandonar. Na verdade, Elvira é uma criatura apaixonada e foi, é e sempre será uma adoradora ardente do conquistador.

A majestosa Rainha da Noite aparece anunciada por trovões e relâmpagos aos olhos admirados do Príncipe Tamino na ária O zittre nicht, mein lieber Sohn!, pede a ele que nada tema, pois é puro, sábio e bom. Só ele será capaz de libertar sua filha, Pamina, raptada por um celerado, e assim devolver a paz a um coração de mãe. A recompensa será a própria Pamina. O jovem sente-se arrebatado pela aura heróica da empresa e pela felicidade de ter Pamina. Mais tarde, porém, saberia a verdade sobre a Rainha da Noite. Tudo se passa num Egito de sonhos maçônicos que nada tem a ver com a realidade, mas está ligado à tradição popular do Singspiel, misturada ao ideário da maçonaria, da qual tanto Mozart como Schikaneder, seu libretista de A Flauta Mágica, eram filiados.

Ao reconhecer em Don Giovanni o misterioso mascarado que tentou possuí-la e que matou seu pai em duelo quando o Comendador veio socorrê-la, Donna Anna se entrega à idéia de vingança. Na ária -
Or sai chi l'onore, quer dupla vingança: o da morte do pai e do atentado à sua honra. É isso que pede ao seu amado Don Ottavio. Sua fúria exige que os ultrajes sejam lavados com sangue. Hoffmann, o grande escritor alemão, analisando esta ópera, presume que Donna Anna é secretamente apaixonada por Don Giovanni e por isso não o perdoa, pois uma paixão não retribuída facilmente se transforma em ódio. No entanto, durante toda a ópera, o sentimento que a orgulhosa Donna Anna exprime é ódio, um ódio que pede vingança e que só a vingança poderá aplacar.

Zerlina, a pequena camponesa, está deslumbrada com a corte e o assédio de Don Giovanni. Ela se encanta com os modos e a lábia de tão alto senhor e esquece, por um momento, os atrativos bem mais rústicos e verdadeiros de seu prometido Mazetto. Ao vê-lo espancado e maltratado por Don Giovanni, sua ternura pelo jovem camponês renasce e ela propõe na ária Vedrai carino curá-lo das dores com o melhor remédio que é natural, não tem mau gosto, não é encontrado na farmácia mas, sim, no coração amoroso de Zerlina.

Elettra é talvez a personagem feminina mais trágica e desesperada de todo teatro mozartiano. Filha de Agamenon marcada, pois, por ascendência maldita, essa Átrida é vítima da paixão amorosa e do furor ciumento que a devoram e a levam à loucura. Contudo, Elettra não é somente fúria vociferante; é também um ser frágil que sofrimentos intensos abalam. Os acentos sombrios desse papel não se repetirão em Mozart. Alguma coisa da histeria de Elettra aparecerá na Rainha da Noite. Na ária aqui apresentada, Elettra, louca de ódio por ver seu amado nos braços da rival, parte furiosa anunciando na ária Oh smanie! oh furie! que em breve estará nos tenebrosos abismos infernais junto aos heróis suicidas Ájax e Orestes.

Completamente diversa é a dor de Pamina, em
A Flauta Mágica, cantada na ária Ach, ich fühl's, quando crê que Tamino não a quer mais. Também ela pensa em morrer, porém suas lágrimas não têm a veemência nem a fúria das de Elettra. Para Pamina, que será a companheira ideal e solidária do Príncipe Tamino, percorrendo com ele os difíceis caminhos e provas que levam à virtude, a dor é contida. Apenas ela pensa que não poderá viver sem Tamino e procura repouso na morte, que não chega, pois os gênios benfazejos a dissuadem com palavras sensatas.

A Condessa de As Bodas de Fígaro também sofre de penas de amor, já que seu marido revelou-se bem diferente do apaixonado jovem que conquistou a bela Rosina, em O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Na ária Dove sono, a Condessa suspira pelos belos momentos de doçura e prazer que não existem mais. A lembrança da felicidade passada, porém, não se apagou no coração que continua constante, fiel e amoroso. Resta a esperança de mudar o coração do ingrato e inconstante Conde.

Na ária Der Hölle Rache , a Rainha da Noite mostra sua face maligna, exigindo que a filha, Pamina, mate Zarastro, sumo sacerdote das forças da Luz. Proclamando que uma cólera terrível lhe abraze o coração, a Rainha entrega um punhal à doce jovem e a ameaça de abandono, da quebra dos laços maternos, se não consumar a vingança reclamada: a morte de Zarastro. E desaparece, depois de cantar a ária mais famosas e conhecida das que Mozart escreveu, entre raios e trovões, deixando Pamina aterrorizada e marcando as dessemelhanças e as oposições morais e vocais dessas duas mulheres fascinantes.

Maria Sylvia Nunes

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