Ensaio Aberto

Márcio Souza

Abrem-se as cortinas - Publicado durante o III Festival Amazonas de Ópera, 1999

 

Esta tem sido de fato a postura do Ministério da Cultura, através da FUNARTE – Fundação Nacional de Artes, em sua iniciativa de apoio à realização de óperas no Brasil.

Por um significativo retrocesso na história da música lírica, praticamente se interrompeu a regularidade de produção de ópera nos anos 70, em que as temporadas, principalmente do eixo Rio-São Paulo, passaram a ser substituídas por raras e dispendiosas encenações, rompendo uma tradição que é parte da cultura nacional e que sempre teve enorme apelo popular.

Apesar de um grande número de cantores estarem se preparando no Brasil, não existe a prática regular de apresentações, o que trunca o desenvolvimento individual. O número de cantores formados por professores particulares e conservatórios é maior que as possibilidades de apresentação. Iniciativas como o Concurso Nacional de Canto Lírico, da FUNARTE, começaram a consolidar uma possibilidade principalmente entre os jovens cantores. Ao mesmo tempo, começam a surgir focos de produção em Curitiba e Belo Horizonte, com jovens encenadores e diretores. Em 1997, inicia-se o Festival Lírico em Manaus, por iniciativa do Governo do Estado. Simultaneamente, o Ministério da Cultura, através da FUNARTE, pela primeira vez, na história de uma Instituição Federal, passa a apoiar uma série de programas para óperas. Investiu no aprimoramento de orquestras sinfônicas e organizou um programa para restaurar as partituras de Carlos Gomes. Passou a apoiar institucionalmente a produção do Projeto Carlos Gomes, iniciativa da São Paulo ImagemData, que está montando na Europa as óperas do compositor, gravando-as em CD e Vídeo e exibindo-as em televisão, como parte de um amplo programa de difusão da ópera dentro do Brasil e da cultura brasileira no exterior. Deste trabalho já resultaram as produções de O Guarani, Fosca e Maria Tudor, tendo esta última sido realizada em novembro de 1998. Nesta mesma direção, diversos projetos nacionais estão sendo estudados para que este segmento possa ser contemplado com novas iniciativas.

O III Festival Amazonas de Ópera é uma mostra desta perspectiva. Trata-se de um trabalho pioneiro no país com fortes implicações na difusão cultural e no turismo para a região. A criação de um pólo regional, com uma vocação nata para a ópera, é relevante, no momento em que o país passa por uma efervescência em todas as direções e os seus rumos culturais são questionados e desenhados, talvez como nunca na sua história. Este despertar para a cultura é esperado como resultado de um amplo programa de investimentos que vêm sendo realizados através do apoio direto a projetos de pesquisa e de produção, da renúncia fiscal através dos incentivos, da participação maior da iniciativa privada com recursos próprios e, na esfera dos Estados, da uma consciência por parte dos governantes da importância de priorizar medidas como o III Festival. Estes fatores combinados promovem uma verdadeira revolução cultural em que os benefícios são assimilados em todas as faixas da sociedade, reforçando os princípios elementares da cidadania e do bem-estar comum.

Márcio Souza
FUNARTE
Fundação Nacional de Arte
Presidente

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