Ensaio Aberto

Renato Borghi

"Faltava uma linguagem de aproximação com a platéia"  

Renato Borghi, ator e diretor de montagens memoráveis do teatro brasileiro, é um dos idealizadores da Mostra de Dramaturgia Contemporânea, ao lado de Élcio Nogueira Seixas. Nesta entrevista, ele fala sobre o nascimento da idéia, os objetivos da mostra e os resultados que espera.

Confira:

Como surgiu a Mostra de Dramaturgia Contemporânea?

Foi um estalo da minha cabeça que imediatamente foi incorporado pelo meu sócio no grupo Teatro Promíscuo, o Elcio Nogueira Seixas. Nós fizemos dois Tchekhov ("Tio Vânia" e o "Jardim das Cerejeiras") e não estávamos com vontade de montar Shakespeare (como se fosse obrigatório!). Sentíamos falta de uma linguagem de aproximação com a platéia, queríamos discutir os temas concernentes a nós e a platéia. Tchekhov discute isso de maneira universal, distante do ponto de vista do imediatismo. E pensamos que seria interessante reunir os autores que estão escrevendo desde de 1990 para cá. Fazer uma mostra. Jogar luz sobre essa nova dramaturgia que até agora tem se apresentado de uma forma esporádica, em centros culturais ou em horários alternativos nos teatros da cidade. O Sesi teve total sensibilidade em nos apoiar nesse projeto, que catalisa as atenções sobre a nova dramaturgia brasileira. Não há como fugir de um fato histórico: os dramaturgos do passado continuam maravilhosos e fantásticos, mas quem vai fazer o teatro brasileiro daqui a dez anos são esses que a gente está trazendo agora. Então, por que não jogar luz sobre eles e revelar para nós uma linguagem nova de comunicação com o público? Eles pegam aquilo que eu chamo de sentimento de mundo, como você se sente, como eu me sinto, como a platéia se sente com essa mudança que houve do final dos anos 80 pra cá. Esse mundo que se transformou tanto. Como as pessoas ficam com a grande facilidade estabelecida pela internet? Estão sozinhas apesar disso? Como estão convivendo com a economia? Essas novas situações geram um sentimento nas famílias, entre os profissionais, os operários, o povo. Todo mundo sente algo meio indefinido ainda, e eu acho que a dramaturgia é o veículo perfeito de captação disso. Não demos um tema específico para que os autores pudessem falar daquilo que sentem, pedimos uma peça no formato de 30 a 40 minutos, assim podemos apresentar três peças no mesmo dia. Todo mundo teve um interesse enorme em escrever e percebeu a importância dessa mostra para o Brasil, que pretendemos levar pra outros Estados e abrir para a dramaturgia local, ou seja, movimentar ao mesmo tempo a dramaturgia dos locais por onde a gente passar.

Existe algum evento semelhante a esse no Brasil?

Que eu saiba, não. Houve, no ano passado, no teatro Ágora, em São Paulo, que é um centro de movimentação artística e cultural, uma mostra de dramaturgia brasileira. Mas uma mostra diferente da nossa, por que eram menos peças e baseadas numa temática que o Ágora forneceu: eram algumas perguntas e os dramaturgos tinham que responde-las com uma peça. Além disso, atores de vários núcleos participaram e não havia um recorte temporal na escolha dos autores. Não vi nada no formato da nossa mostra, acho que ela é absolutamente inédita nessa liberdade dada aos autores.

Você propõe uma nova ruptura do teatro?

Eu não tenho essa pretensão, nem Nelson Rodrigues tinha a pretensão de fazer a ruptura que fez. Isso acontece quando a História reconhece o rompimento. Mas, de qualquer maneira, pensar em ruptura quer dizer uma coisa muito significativa: temos uma dramaturgia que vai lindamente bem, que vem vindo de autores com experiência desenvolvida desde a década de 60, que escrevem dentro de um determinado estilo e agora surge essa nova dramaturgia que rompe com tudo isso. Eu, a Débora Duboc, a Luah Guimarães, o Fernando Bonassi e o Elcio Nogueira Seixas fizemos um pacto. Para levar um projeto desses adiante é preciso saber que as outras pessoas também estão dispostas a levá-lo até o fim e vão dar conta do recado. Ninguém vai sair, ceder ao apelo de fazer uma campanha publicitária ou de qualquer outro trabalho enquanto não fizermos isso. Depois vieram o Cleber Papa e a Rosana Caramaschi, da São Paulo ImagemData, que se juntaram a nós, possibilitando a realização do projeto.

Como é a proposta de ir num sentido contrário ao estilo Broadway?

As pessoas têm o hábito de nos colocar sempre contra alguma coisa. Eu não estou contra nada. Acho que quem escreve muito bem no estilo Broadway são autores da maior competência, por que não é nada fácil escrever peças que são catalisadoras de um grande público, que divertem muitas pessoas e que podem ter dentro de si um conteúdo importante.

Não sou contra eles. Faria com o maior prazer uma peça de qualquer um deles. O que estamos fazendo é abrir uma porta para revelar outra tendência, dando visibilidade para esse outro caminho da dramaturgia brasileira. Não queremos negar, queremos somar.

Entrevista concedida por Renato Borghi ao jornal "Imparcial",
de Araraquara, publicada em 7 de março de 2002.

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