Ensaio Aberto

Roberto Duarte

Iara, a ópera amazônica- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2006

Pelo simples fato de colocar em cena uma lenda amazônica, a ópera Iara , de José Cândido da Gama Malcher (1853-1921), já poderia ser considerada um marco importante no cenário musical brasileiro. Entretanto, o seu inquestionável valor musical e artístico a coloca nesse pedestal. Malcher viveu numa época áurea para a ópera. Ouvia, em Belém, grande centro musical brasileiro no final do século XIX, o que havia de melhor no mundo lírico internacional. Conviveu com músicos de primeira grandeza durante sua estada em Milão e, além disso, era um homem do ramo: regente de ópera.

Convidados pelo dr. Paulo Chaves Fernandes (Secult) e dr. Gilberto Chaves (Theatro da Paz), figuras importantes no desenvolvimento cultural de nossa terra, aceitamos, nós e a Duarte Produções de Arte Ltda., empresa especializada em edições musicais, a honrosa empreitada de recuperar tão preciosa jóia da nossa música.

Revisar, elaborar a redução para canto e piano, traduzir do italiano para o português o libreto e coordenar a edição da partitura de canto e orquestra de quase 400 páginas foi uma tarefa complexa e árdua, porém extremamente prazerosa, realizada em pouco mais de seis meses. A edição tem como objetivo principal preservar e divulgar o que há de melhor na produção musical brasileira no campo da música lírica. Além disso, as partituras de orquestra e a redução para canto e piano proporcionarão aos regentes, diretores de cena, cantores, coristas, ensaiadores e estudiosos da música lírica uma edição de trabalho completa, prática e segura.

Foram poucas as fontes a que tivemos acesso:

1. Autógrafo, em três volumes, da ópera completa em partitura de canto e orquestra, conservados pelo Instituto Carlos Gomes;

2. Libreto impresso em Milão, em 1894, de autoria do próprio Gama Malcher, escrito em italiano, tendo como base um poema sobre a lenda amazônica homônima do naturalista italiano conde Ermano de Stradelli (1852-1926);

3. Prelúdio, em partitura editorada pelo pesquisador Vicente Salles e revisada por Emílio de César.

Ainda assim, a edição foi concluída sem maiores percalços. Inconsistências de notação foram racionalizadas, alguns enganos do compositor corrigidos e ajustes editoriais realizados onde faltavam indicações necessárias à correta execução da obra. Mantivemos o texto original em italiano por ser quase um dever sagrado o uso da língua de Dante nas composições líricas da época. É interessante observar que Malcher, antecedendo a Heitor Villa-Lobos, usou no início da cena III do Atto Primo uma língua indígena: o nheengatu ou língua geral. Com isso o sabor local está ainda mais presente. A brasilidade, ao que parece, nunca abandonou o compositor...

" Iara , o melodrama, nasceu e morreu em Belém do Grão Pará", escreveu Vicente Salles na edição do Prelúdio. Agora, com partituras novas e uma cuidadosa e bem elaborada produção de Cleber Papa e Rosana Caramaschi no Theatro da Paz, na mesma cidade de Belém do Grão Pará, renasce para o Brasil e, esperamos, para o mundo.

Roberto Duarte

 

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