Ensaio Aberto

Sergio Casoy

Para entender melhor a Flauta Mágica - Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2003

A Flauta Mágica é uma ópera que fala do amor. Sua mensagem é ao mesmo tempo simples e profunda. Um casal que se ama só atinge o estado ideal de comunhão de almas quando os dois trabalham juntos na superação de inúmeras dificuldades que a vida lhes coloca, fortalecidos pela virtude e pela confiança. Sob esse aspecto, é uma fábula sobre o amor espiritual, puro e sereno, cuja moral foi tão bem-aceita e assimilada em sua estréia (1791) quanto o é hoje. Existe, porém, outro aspecto que, embora facilmente percebido pelo público vienense da ocasião, hoje nos escaparia totalmente se uma série de estudiosos não tivesse, ao longo do tempo, analisado a ópera em detalhes e publicado suas observações.
A Flauta Mágica é repleta de símbolos e alegorias relativos à maçonaria, da qual faziam parte tanto Emmanuel Schikaneder, autor do texto da ópera, quanto seu compositor, Mozart, que viria a falecer apenas dois meses depois da estréia, e que havia encontrado grande conforto espiritual no seio daquela fraternidade, em seus últimos anos.
O número três, muito importante tanto na filosofia quanto nos ritos maçônicos, é citado com freqüência no texto e na música. São três as damas que salvam Tamino do dragão, e três são os meninos que o conduzem às três portas dos três templos, o da Razão, o da Sabedoria e o da Natureza. A nona cena do primeiro ato tem como personagens três escravos de Monostatos. No início do segundo ato, Sarastro responde a três sacerdotes sobre a iminente prova de Tamino, enumerando três atributos do jovem: Virtude (Tugend), Discrição (Verschwie-genheit) e Caridade (Wohltätig). O diálogo seguinte, entre Sarastro e o Orador do Templo, é interrompido por três toques de trompa, cada um deles constituído de três acordes iguais. Esses três acordes, que já haviam sido ouvidos no início da abertura da ópera, representam as três batidas rituais com as quais o aspirante a maçom pede para ser admitido na Loja. Sua tonalidade é mi bemol maior, que se indica na partitura grafando-se três bemóis ao lado da clave. Essa simbólica tonalidade aparecerá em muitos outros trechos da ópera. Ainda quando Tamino e Papageno são levados ao templo para aguardar as provas, a percussão executa uma série de três trovões, que se misturam às vozes.
Também o número dezoito, múltiplo de três, que, dentro da hierarquia maçom, equivale a um dos importantes Graus Capitulares, o de Soberano Príncipe Rosa-Cruz, aparecerá várias vezes. Sarastro faz sua primeira aparição na ópera durante a 18a cena do primeiro ato. O libreto original observa que o cenário do início do segundo ato deve apresentar dezoito cadei-ras, onde se sentarão dezoito sacerdotes. O hino O Isis und Osiris, welche Wonne (Oh Isis e Osíris, que alegria), entoado mais adiante pelos sacerdotes, tem dezoito compassos e abre a 18a cena do segundo ato. E Papagena, que aparece inicialmente como uma mulher muito velha, arranca risadas da platéia quando diz a Papageno ter apenas dezoito anos. O Grau Rosa-Cruz é citado indiretamente quando os três meninos, ao trazer de volta a flauta mágica e o carrilhão, entram em cena, segundo o libreto, numa plataforma voadora coberta de rosas. O lema daquele grau hierárquico, Virtude e Silêncio, enumera as qualidades exigidas de Tamino antes do início das provas.
Outro aspecto alegórico importante é que os principais personagens de A Flauta Mágica representam, metaforicamente, personalidades ou instituições da vida real. A perversa Rainha da Noite teria sido inspirada na Imperatriz Maria Teresa, cujo governo de cunho absolutista, simbolizado pelas trevas que acompanham a personagem, proibiu a existência da Maçonaria. O belo príncipe Tamino seria, na verdade, José II, o filho de Maria Teresa que a sucedeu no trono. Seu governo foi muito mais liberal que o da mãe e permitiu que as assembléias maçônicas voltassem a se reunir. A doce Pamina representaria a Áustria, que o iluminado Tamino/José II liberta das trevas e traz para a luz da verdade maçônica com o auxílio do grão-sacerdote Sarastro, personagem inspirado no geólogo Ignaz von Born, o respeitadíssimo líder da Loja A Verdadeira Harmonia, uma das mais importantes agremiações maçônicas austríacas.
Para que não restem dúvidas, o texto da segunda ária de Sarastro, In diesen heil'gen Hallen (Nestes sagrados recintos), é a reprodu-ção dos altos ideais da maçonaria. Papageno, por sua vez, encarna o bom e simples camponês, o homem comum, com seus valores autênticos, cujas preocupações são encontrar uma boa esposa, constituir família e contar sempre com a tranqüilidade de uma mesa farta. Finalmente, o mouro Monostatos tem sido interpretado como uma sátira aos jesuítas, que se trajavam de negro, e cuja ordem se opôs à maçonaria com todas as suas forças.
Embora alguns livros sobre ópera afirmem que a ópera se passa no Egito da Antigüidade - país onde se acredita que a maçonaria tenha nascido -, nenhuma referência no libreto nos permite tomar essa afirmação como absolutamente correta. É preferível, então, imaginarmos que a ambientação de A Flauta Mágica se dá num distante país oriental, nos tempos da Antigüidade.

Sergio Casoy

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