Ensaio Aberto

Vicente Salles

Revivendo a música paraense- Publicado durante o Festival de Ópera do Theatro da Paz 2006

O festival anual de ópera do Theatro da Paz, instituído em 2002, revelou, desde sua primeira versão, a possibilidade de mostrar, ao lado da produção universal, a produção local. Esse tem sido o traço característico do festival: dar ao ouvinte de nosso tempo exemplos dos acervos mais ricos do teatro lírico mundial e do brasileiro, capazes de alimentar, ainda durante algum tempo, apreciável número de espetáculos.

Já em 1938 o musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, ao enumerar as óperas produzidas no Brasil de 1860 a 1937, reconheceu a importância da produção paraense e salientou, referindo-se a Belém do Pará: Nenhuma cidade do Brasil, sem contar o Rio de Janeiro, naturalmente, ostenta, como a capital paraense, essa autonomia de vida artística. E a Idalia, de Gurjão, o Bug-Jargal e a Iara, de Gama Malcher, além de Os Heróis, de Meneleu Campos, das quais só a última não chegou a ser representada, são óperas que marcam as etapas da gloriosa vida artística do grande Estado do Norte. (Relação das óperas de autores brasileiros, 1938, p. 22.)

Naquela altura, apenas quatro óperas tinham sido oferecidas como première no Theatro da Paz: Idalia (1881), de Gurjão; Bug-Jargal (1890) e Iara (1895), de Gama Malcher, e Notte Bizarra (1917), de Alípio César. Não incluiu Duque de Vizeu , dada em 1895, e Ideale , 1900, de Ettore Bosio, porque o autor era italiano, embora se tenha legitimado brasileiro e paraense pela aceitação da cidadania e da identidade cultural. Mas ainda lembrou óperas inéditas de Gama Malcher, Meneleu Campos e Iberê de Lemos. No quadro que elaborei para a segunda edição de Música e Músicos do Pará (edição do autor, 2002), indiquei 10 óperas representadas e 12 inéditas, algumas extraviadas.

Exatamente dentro da programação do 1º Festival, quando da reabertura do Da Paz, ouvimos, em concerto, no Programa Inéditos da Música Paraense do Século XIX, quatro compositores, entre outras destacáveis figuras, nascidos nos oitocentos e revividos por intérpretes paraenses no século XXI. Henrique Eulálio Gurjão, José Cândido da Gama Malcher, Octávio Meneleu Campos e Paulino Chaves. Esses compositores se colocam na linha de frente de nossos melhores músicos, por sua formação e pelo que produziram.

A Secult revive agora, dentro do Festival de Ópera, na voz de Patrícia de Oliveira, coadjuvada em dois momentos pelo tenor João Augusto Ó de Almeida e do Coral Marina Monarcha, dirigido por Vanildo Monteiro, obras daqueles quatro representantes de uma época áurea, criadores de alguns dos mais belos momentos da produção musical brasileira. No acompanhamento, ao piano, temos o privilégio de contar com a virtuose italiana Reana de Luca, pianista do Teatro Giuseppe Verdi, em Trieste, cidade italiana ao norte do Mar Adriático, onde atualmente Patrícia de Oliveira completa seus estudos de canto.

O repertório inclui uma maioria de obras inéditas, agora gravadas em CD, lançado esta noite pela Secult, que documenta esta época histórica da música paraense.

 

Vicente Salles

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