Stabat Mater dolorosa
Luxta crucem lacrimosa
Dum pendebat Filius |
A mãe sofredora
Estava em prantos junto à cruz
Enquanto o Filho lá estava pregado |
O Stabat Mater foi definido pelo erudito religioso Frei Pedro
Sinzig no seu dicionário musical como: "Palavras
latinas, pérolas da poesia do franciscano Jacopone
de Todi, que entrou no Breviário como Seqüência
na Missa da festa das Sete Dores da Bem-Aventurada Virgem
Maria". É, pois, um poema sacro que, dado o contexto
em que se insere, tem caráter dramático.
O Stabat Mater, juntamente com a ópera - ou como querem
alguns, o intermezzo cômico - La Serva Padrona, são
as obras mais representativas do compositor napolitano Giovanni
Baptista Pergolesi.
A Nápoles do final do século XVII e início
do século XVIII, célebre por seus cantores e
pelo gênero lírico, competia com Veneza como
capital da ópera na Europa. Seus conservatórios
e escolas de música produziram alguns dos maiores músicos
do gênero lírico-dramático. Alessandro
Scarlatti foi o mais célebre, além de Stradella
que, embora não sendo napolitano, ligou-se pelo seu
estilo de composição àquela escola. Os
famosos castrati Farinelli e Caffarelli, entre outros, estudaram
nos conservatórios de Nápoles, assim como o
mítico Caruso, já no final do século
XIX e início do XX, considerado um dos maiores cantores
da história da ópera. Lalane, crítico
musical francês, escrevia em 1769: "Música
é o triunfo especial dos napolitanos..."
Pergolesi viveu apenas vinte e seis anos, mas firmou-se como
uma das personalidades musicais mais influentes do início
do século XVIII. Escreveu inúmeras óperas,
relativamente bem sucedidas, porém não proeminentes.
Sua música eclesiástica, no entanto, estabeleceu
um novo padrão musical quando, no início daquele
século, precisamente na transição do
alto barroco para o classicismo, conseguiu unificar os estilos
novo e antigo, preservando o contraponto erudito de stile
antico ao mesmo tempo que trazia para a Igreja a linguagem
decorativa e ornamentada da ópera italiana. Esta característica
musical de antigo/novo foi o elemento fascinante do Stabat
Mater para o século XVII, estendendo-se sua influência
até Mozart e Haydn.
Pergolesi concluiu seu Stabat Mater no mosteiro franciscano
de Pozuolli durante a fase aguda de sua enfermidade, possivelmente
tuberculose. Os duetos são uma preciosidade do estilo
antigo. Já os solos tratam a linha melódica
com uma nova visão musical, que iria encantar aquelas
e as novas gerações de músicos. No dueto
Sancta Mater, istud agas cria uma cena dramática moderna
e sofisticada, já próximo do estilo clássico
no apogeu de seu desenvolvimento. Pergolesi morreu em circunstâncias
obscuras semelhantes às de Mozart, e seu Stabat Mater,
por sua originalidade e valor artístico, permanece
no repertório dos grandes intérpretes e nos
catálogos de gravação até nossos
dias.
Felipe Andrade e Silva
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