12 de agosto a 15 de setembro/2004
às 20:00 horas, no Theatro da Paz
Rua da Paz,
no centro da Praça da República
Bairro do Comércio
Belém / Pará - Brasil
Recital de Piano
3 de setembro
O outro piano Hausmusik
e Transcrições na Música
do Século 19
A prática do piano tocado por dois executantes (quatro mãos)
está intimamente associada à chamada hausmusik, exercício
da música em ambiente doméstico, muito em voga no século
19 e que compreendia desde a execução de obras originais,
didáticas ou de concerto, até as transcrições
(de óperas, sinfonias, canções, etc.) ou paráfrases.
Raras eram as famílias de boa situação econômica
que não dispusessem de um ou mais pianos em suas residências,
bem como vários “pianistas” na família e
no círculo próximo, o que fazia das noites e reuniões
sociais ocasiões sempre propícias para performances musicais,
individuais ou coletivas. Schubert, Schumann, Brahms, Tchaikovsky e
Debussy (estes dois últimos compuseram música desse gênero
sob a encomenda e os auspícios de uma mesma mecena, Nadejda
von Meck) legaram importantes peças para piano a quatro mãos,
algumas das quais constituem obras-primas que continuam a figurar no
repertório dos grandes intérpretes. É exatamente
esse o caso de Fantasia em fá menor, opus 103 (D. 904), de Schubert,
composta entre janeiro e fevereiro de 1828 e dedicada a condessa Caroline
Esterházy. Dez anos antes, Franz fora contratado para uma estada
na residência de verão dos Esterházys, em Zseliz,
na Hungria, com o objetivo de cuidar da educação musical
das jovens condessas Marie e Caroline. O compositor, então com
21 anos, não tardou a se apaixonar por Caroline, chegando a
confessar a amigos que toda música composta naquele período
foi por ela inspirada. Várias peças a quatro mãos
foram compostas naquele verão, bem como no de 1824, quando a
maratona musical se repetiu, sendo tocadas nos saraus da casa, tanto
por ambas as moças quanto por uma delas e seu genial mestre.
Esta Fantasia soa como uma espécie de recordação
afetiva do alegre período (um dos poucos momentos amenos na
curta existência do compositor), desfilando, em seus três
movimentos, todo lirismo e melancolia da poética schubertiana.
Um tema cíclico, apresentando nos primeiros compassos do Allegro
Molto Moderato, escrito em forma sonata, confere grande unidade à obra,
atravessando o dramático Largo e explodindo na vigorosa fuga
do movimento final (Allegro Vivace).
A arte da transcrição – que consiste na transposição do
texto musical de um meio, vocal ou instrumental, para outro – vem sendo, também,
uma prática comum na história da música, desde as famosas transcrições
para cravo que Bach preparou para os concertos de Vivaldi até os nossos dias. Os lieder
(canções para voz solista e piano) foram objeto de várias dessas adaptações,
normalmente para piano-solo, e seus dois maiores expoentes românticos, Schubert e Schumann,
encontram-se entre os mais contemplados com boas transcrições. Neste programa,
Ana Cláudia executa transcrições de Franz Liszt para duas canções
de Schubert – respectivamente Ständchen (a conhecida Serenata, originalmente para
contralto ou barítono, coro feminino e piano) e Auf dem Wasser zu Singen (Cantar na Água),
uma canção de Schumann, Widmung (Dedicatória), e uma do compositor dinamarquês
Eduard Lassen, cujo centenário de morte é lembrado em 2004. A canção
de Lassen, com texto original em alemão, seguindo a tradição romântica
do lied, é Loese, Himmel, Meine Seele (Oh, Céus, Redimam Minha Alma). Franz
Liszt foi, sem dúvida, o mais conhecido transcritor de todos os tempos, tendo vertido
para o idioma pianístico obras de Bellini, Donizetti, Paganini, Schubert, Verdi e
Wagner, entre muitos outros, além de todas as sinfonias de Beethoven. Porém,
um outro nome que se destacou na arte da transcrição (ou transcriação,
como preferem os semiólogos) de peças de Schubert foi o pianista e regente
russo Leopold Godowsky (1870-1938). Menos literal do que Liszt, conferiu, porém, maior
complexidade harmônica e elasticidade frásica às peças sobre as
quais se debruçou. São da pena de Godowsky as transcrições que
Ira Levin interpreta de Morgengruss (Saudação Matinal) – oitava canção
do ciclo Die Schöne Müllerin (A Bela Moleira) –, do Momento Musical, opus
94, nº 3, originalmente para piano a quatro mãos, e do balé integrante
da música incidental composta por Schubert para a peça Rosamunda, Princesa
de Chipre, escrita por Helmina von Chézy e estreada em 1823.
Recuando ao universo da música vocal barroca, sacra e secular, serão apresentadas
duas transcrições. A primeira delas recai sobre duas danças lentas (Sarabanda
e Chacona), momentos de música instrumental, portanto, da ópera Almira, de
Händel, um dos mais prolíficos compositores líricos de todos os tempo,
cuja imensa produção para o teatro cantado vem sendo redescoberta nas últimas
décadas, com interesse crescente de regentes, musicólogos e platéias
de todo o mundo. A transcrição, a ser executada por Ana Cláudia, foi
preparada por Liszt, demonstrando, mais uma vez, a erudição e o bom gosto deste
grande gênio romântico, pois se interessou por essas peças em um período
histórico no qual a ópera barroca estava praticamente esquecida. Em seguida,
Ira Levin toca a ária Schafe Können Sicher Weiden (Possam os Cordeiros Pastar
em Segurança), da Cantata BWV 208, de Johann Sebastian Bach, de impressionante beleza
e intensidade. A transcrição é de autoria do próprio Levin, integrando
uma coleção de duas dezenas de peças de Bach que, tendo o privilégio
de tê-las ouvido, uma a uma, logo após suas composições (transcrever é,
sem qualquer dúvida, compor), testemunho serem absolutamente fiéis ao espírito
do mestre de Eisenach e, ao mesmo tempo, incrivelmente pianísticas.
A obra que encerra o programa, também executada por Ira Levin, é uma homenagem
ao universo da ópera e ao Festival de Belém. Trata-se das Reminiscências
de Liszt sobre a Valsa Infernal da ópera Robert le Diable, de Meyerbeer, aqui executadas
com revisão e coda do próprio maestro Levin. Hoje pouco gravada ou apresentada,
Robert le Diable estreou em Paris, no ano de 1831, e foi a ópera mais popular de sua época.
As Reminiscências (misto de transcrição e comentário ou paráfrase)
de Liszt constituíram um caso singular de sucesso editorial no mundo da música,
pois sua primeira edição se esgotou em poucos dias, fenômeno (impensável
nos dias atuais) que corrobora nossa afirmação inicial relativa à intensidade
da hausmusik no século retrasado.
Henrique Lian