Festival de Ópera do Theatro da Paz 2004

12 de agosto a 15 de setembro/2004
às 20:00 horas, no Theatro da Paz

Rua da Paz,
no centro da Praça da República
Bairro do Comércio
Belém / Pará - Brasil

Inspiradas Mulheres do Pará
10 de setembro

As Compositoras

CARVALHO, Júlia das Neves (Belém-PA, 08/11/1873; id. 1969). Estudou piano com Alfredo José dos Santos e composição com Clemente Ferreira Júnior. Residiu algum tempo no Rio de Janeiro, tendo aí publicado a mazurca Soluçando, no suplemento musical da revista carioca O Malho (nº 140, de 23/07/1910). Voltando para Belém, dedicou-se sempre à composição e ao seu instrumento, brilhando nos salões e em audições radiofônicas nos tempos pioneiros da radiodifusão. Aos 80 anos, ainda tocava nos recitais radiofônicos promovidos pela Rádio Clube do Pará. Foi a mais fecunda e original compositora paraense no estilo dos “pianeiros” do passado. Mas tinha boa leitura e conhecimentos teóricos, de maneira que ela própria, tal como Chiquinha Gonzaga, escrevia e harmonizava as suas músicas. Produziu 33 valsas, 11 xotes, três polcas, seis marchas, cinco tangos, duas gavotas, duas mazurcas, um fox, um one-step, um romance e uma Ave-Maria. Produziu ainda músicas para dramas pastoris, como Terpandro, de Cantidiano Nunes, representado na temporada de 1906/1907, e Belkiss, na temporada de 1908/1909, ambos encenados pelo Gardênias Clube no seu teatrinho próprio. Musicou também o drama Bernardete, do mesmo autor, representado em maio de 1907 pelo mesmo elenco e no mesmo teatro. Tem músicas editadas e em manuscrito nos acervos da Seção de Música da Biblioteca Nacional e Coleção Almirante, no Museu da Imagem e do Som, Coleção Mozart de Araújo, Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e nos acervos de Fernando Medina do Amaral (Niterói) e Vicente Salles (Museu da UFPA-Belém).

CARDOSO MAUÉS, Olindina (Belém-PA, 06/02/1906). Filha do compositor Augusto José Cardoso, estudou violino e violoncelo. Tocou violoncelo na orquestra feminina do Clube Euterpe Paraense, sob a direção da professora Serra Freire, e na Orquestra Sinfônica Paraense. Organizou sua própria orquestra feminina e um quinteto feminino que teve atuação, em Belém, a partir de 1929, com suas irmãs Edith e Luzia e as senhoras Leonília Sousa e Gracinda Camarão. Produziu: O Cacete, maxixe; Zinha, fox; Não Vais Mais ao Bosque, marcha; Poema Musical e Serenata Paraense, para cordas. Na Biblioteca Nacional, encontram-se: Espia Só..., one-step; Beijos de Mãe, valsa; No Chicote, samba, editados pela Livraria Bittencourt; Cinco a Um, samba, e Dr. Dionysio Bentes, marcha, edições do Empório Musical.

CHERMONT, Dora de Abreu (Belém-PA, 06/10/1886; Rio de Janeiro data desconhecida). Dora Chermont Lisboa pelo casamento com o dr. Clementino Lisboa. Aluna do Instituto Carlos Gomes, aperfeiçoou os estudos de piano com Paulino Chaves. Produziu diversas peças para piano e canto, tendo publicado a valsa de concerto Hilda e, mais tarde, a valsa De Longe, para canto e piano, com versos de Ermelinda de Almeida. A valsa Hilda foi orquestrada por José Cândido da Gama Malcher e apresentada num concerto no Theatro da Paz em 07/07/1902, orquestra sob a regência de Gama Malcher. Produziu também música sacra, destacando-se uma Ave-Maria, cantada na igreja de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, por ocasião da festa de Nossa Senhora de Nazaré ali promovida pela colônia paraense ao tempo do vigário monsenhor Mac-Dowell.

CORDEIRO, Júlia Cesarina Ribeiro (Belém-PA, c. 1867; Recife-PE, 08/10/1947). Estudou piano com Joaquim Pinto da França e Henrique Bernardi. Seu nome começou a aparecer nos salões nos últimos tempos da monarquia. A primeira notícia recolhida data de 17/07/1887, quando tocou no salão nobre do Theatro da Paz Grande Fantasia sobre a Ópera Pátria, para piano e orquestra, de Henrique Bernardi, regência do autor. Era um concerto vocal instrumental em benefício da diletante Maria Passini. Uma das primeiras figuras femininas a aparecer como compositora no Pará, boa formação e muito talento, produziu obra que teve seu momento de popularidade. Publicou diversas peças para piano, geralmente orquestradas por Henrique Bernardi, divulgadas pelas orquestras de salão de Belém na última década do Império e primeiros anos da República. Decidindo ingressar na vida religiosa, entrou para o noviciado em 08/09/1891, tomando o hábito das Irmãs Dorotéias com o nome madre Júlia Maria Cordeiro. Seguiu para a Itália a fim de fazer estudos superiores e desenvolveu também a prática da música, especialmente de violino e harpa. Compôs numerosos hinos e destruiu seus manuscritos de música profana. Salvaram-se as que foram editadas, tais como as valsas Glorinha, Rosa, Sinhá, Teresina e a polca Boas Festas, publicadas pelas editoras paraenses. Como religiosa, compôs: Cor Jesu Flagrans, texto em latim, motete ao Ssmo Coração de Jesus, Meu Brasil, hino à Infância Brasileira, com palavras de Coelho Netto, Hino, à venerável madre Paula Frassinetti, fundadora do Instituto Santa Dorotéia, impressa no Rio de Janeiro pela Casa Vieira Machado, Invocações a Maria Santíssima, Tota Pulchra es Mariæ, et Verbum, Senhor, Eu Não Sou Digno, A Maria Santíssima, A Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Ao Ssmo Coração de Jesus, Recordai-vos, Lembrai-vos, etc. Produzia música e letra.
Madre Júlia Maria Cordeiro foi superiora das Irmãs Dorotéias no Rio de Janeiro (cuja casa instalou) e no Recife, onde viveu os últimos dias. Ainda como religiosa, produziu músicas festivas para atividades escolares e infantis, Barcarolle e Tolice de Criança, para piano.

FIGUEIREDO, Maria de Nazaré (Belém-PA). Não tem biografia conhecida. Sabe-se que muito jovem ganhou o primeiro prêmio num concurso de música popular paraense, na era do rádio, com a marcha Cidade Morena. Irmã do antropólogo Arthur Napoleão Figueiredo, residiu em Brasília, onde foi bem-sucedida empresária. Deixou esse hino de amor à cidade natal, única obra impressa.

GUAMÁ, Marcelle Corrêa de (Paris-França, 13/04/1892; Rio de Janeiro-RJ, 29/03/1978). Filha de Émile Henry Lainiez e Mary Eugêny Bolage, Marcelle Gabrielle Lainiez casou-se muito jovem com o paraense Flávio de Miranda Corrêa de Guamá e foi residir em Belém. Tinha boa formação musical e era pianista e cantora. Estreou em Belém, em 19/12/1918, cantando Le Crucifix, letra de Victor Hugo, música de Fauré, acompanhada ao órgão por Conchita de Araújo nas solenes exéquias mandadas celebrar pelo cônsul francês em Belém, mr. Eduard Payan, como homenagem póstuma aos mortos da guerra. Teve importante atuação na capital paraense como professora e cantora. Manteve curso particular de canto muito freqüentado. Por volta de 1945 fixou-se no Rio de Janeiro. Compositora de canções líricas, quase todas com versos de poetas brasileiros, tais como: Pobre Cega, Carta, versos de Guilherme de Almeida; A Prece que me Pediste, de Luiz Octavio; Arithmetica, Barcarola, de Sylvio Moreaux; Tirana, de Castro Alves; Lamento, de A. Gil.; Amar, de Humberto de Campos; Compreensão, de Dulcinéa Paraense; Momento, de Tarqüínio Neto; A Hora Recolhida, de Olegário Mariano; Musa Cancioneira, de Adelmar Tavares; Milagre, de Leôncio Correia; O Coração e Visão, de Antero de Quental; Recordar e Eterno, de Ermelinda Almeida; No Lago..., de Sylvia Patrícia; Chanson du Doute, A. Lemain-Lacroix, etc., além de peças para piano: O Sapo Ferreiro, Felicidade, e música sacra: três Ave-Marias, em latim; O Salutaris, duas vozes e piano, Minha Prece, letra de Tarqüínio José Lopes, Panis Angelicus, andante religioso, em latim, etc. O Sapo Ferreiro como canção foi executada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 23/07/1950, recital de Laura Netto do Valle, acompanhada ao piano por Alceo Bocchino.

NOBRE, Helena (Belém-PA, 27/09/1888; 27/12/1965). Aparece como figura feminina de grande destaque no canto lírico no Pará, soprano spinto, tendo participado ativamente da vida artística de Belém. Também cantou em Manaus, São Luís, Recife e Rio de Janeiro. Embora filha de músicos, a arte de Helena foi espontânea e não teve formação sistemática. Seguiu, é verdade, a orientação de alguns mestres amigos. Iniciou-se muito jovem, orientada por Josefina Aranha, depois por Ettore Bosio, mais amigos do que professores. Intérprete da canção de câmara brasileira e sobretudo paraense, foi quem lançou numerosas primeiras audições de obras de nossos compositores. Em 1933 apresentou Gentil Puget, como cançonetista, participando do primeiro recital que este realizou como compositor. Interpretou ainda a música de Waldemar Henrique, Marcelle de Guamá, Gama Malcher, Meneleu Campos, Ettore Bosio, Alípio César, Henrique Gurjão e Manuel Luís de Paiva. Contudo, tinha no repertório lírico sua maior admiração e eram os trechos de óperas que, com Ulysses, apresentava mais assiduamente. Dedicou-se ao magistério e publicou a valsa-canção Vem, Amor. Não se considerava compositora, mas cantora de suas mágoas. Produziu outras canções, que costumava cantar em festivais, entre elas Quando Eu Canto e Anseio. Também fez música para os versos de Remígio Fernandez, Canção de Helena.

PELUSO, Rachel Angélica Mattera (Santarém-PA, 02/03/1908). Primogênita do casal italiano Domingos e Marieta Mattera Peluso, iniciou os estudos de piano com sua mãe e aos 7 anos participava de um festival realizado no Teatro Vitória, na cidade natal, sob a regência do professor José Agostinho da Fonseca. De 1920 a 1923, foi pianista de pequena orquestra denominada Tapajós, também dirigida por José Agostinho da Fonseca. Em 1923, o casal Peluso mudou-se para São Paulo e Rachel ingressou no Conservatório Carlos Gomes, de Campinas. Mais tarde, residindo na capital paulista, estudou com Italiano Tabarin e João Rocella. Fez curso de magistério com Lamberto Baldi e iniciou uma série de estudos teóricos e práticos de harmonia, composição e regência, órgão, contraponto, bandolim, violino, etc., no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, aperfeiçoando-se ainda em canto com o maestro João Gomes de Araújo. Durante algum tempo exerceu atividades de maestrina no Orfeão do Externato Santa Cecília; foi professora e depois diretora do Instituto Gomes Cardim, de Campinas. Em 1945, fundou o Instituto Musical Padre José Maurício, na capital do Estado, que manteve com sua irmã, Gioconda Peluso. Também dirigiu o Grêmio Recreativo Líbero Badaró e o Teatro Lírico Experimental do mesmo estabelecimento de ensino.
Compositora, tem produzido e publicado peças para piano e muitas canções. Em 1997, aos 90 anos, lançou o CD duplo Rachel Peluso – Quis Fazer-te uma Canção, contendo 28 canções, acompanhada por diversos intérpretes, e 14 peças para piano-solo.

ROCHA, Sarah (Belém-PA, 07/12/1880; id. c. 1960). Estudou no Instituto Carlos Gomes com Clemente Ferreira Júnior e Henrique Bernardi. Foi muito festejada nos salões como pianista e compositora. Produziu os tangos Três-Zero-Nove, Não me Amole, com letra, sucesso no carnaval de 1922, editado pela casa Ceará Musical, Fortaleza, e Já Começa, editado em Belém pela Livraria Bittencourt; valsas Ítala, Lágrimas Amorosas, Chuva de Beijos (editada pela Livraria Bittencourt), marcha Tiro Brasileiro, etc.

Fonte: Música e Músicos do Pará, Vicente Salles.
2ª edição. Brasília: Microedição do autor, 2002.

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