12 de agosto a 15 de setembro/2004
às 20:00 horas, no Theatro da Paz
Rua da Paz,
no centro da Praça da República
Bairro do Comércio
Belém / Pará - Brasil
Inspiradas Mulheres do Pará
10 de setembro
Começo da História
Não é dado a qualquer platéia provinciana, no Brasil,
usufruir a audição de 25 obras de dez compositoras, tratando-se
de aplaudir a criação poética e musical de suas
próprias conterrâneas. No Pará isso é possível
e vai além da conta.
Este programa mostra o começo da história narrada para
as novas gerações, capítulo especial resumido do
que é possível extrair de um único acervo localizado
aqui mesmo, em Belém, a Coleção Vicente Salles,
hoje sob a guarda do Museu da Universidade Federal do Pará, onde
a pesquisa do repertório localizou vasto material disponível,
partituras impressas e manuscritas.
A pesquisa comprova que a mulher paraense começou a demonstrar, em meados do século
19, seus pendores musicais e a registrar em partituras as habilidades criadoras. Antes da queda
do Império (1889) já contávamos número expressivo de compositoras
que se exprimiam principalmente através do piano. Naquela altura, além dos “salões” burgueses,
dispúnhamos de excelente “sala” para esse tipo de demonstração
artística – o Theatro da Paz –, de sofisticado comércio importador
dos melhores produtos europeus, que atendia satisfatoriamente nosso interesse de consumo, de
várias lojas de fabricação e manutenção de instrumentos
musicais – inclusive fábricas de pianos! –, além de editoras que
estampavam partituras de nossos compositores em oficinas próprias ou mandavam imprimi-las
em estabelecimentos gráficos europeus. O Pará caminhava vertiginosamente para
viver a sua belle époque, bafejado com os recursos oriundos da exportação
da borracha.
O primeiro destaque feminino foi talvez Idalina Pinheiro França (1845-1900), pianista
e cantora, casada com o pianista e professor Joaquim Pinto da França (1830-1907), casal
fundador de uma dinastia de excelentes músicos. Mas o nome que realmente abriu a cortina
do passado com sons novos e insinuantes é, sem dúvida, Ana Amaral (1860-1900),
recordada como pioneira e criadora de obra originalíssima, com partituras impressas
em Milão e no Rio de Janeiro. Vida singular, casada com o major Sebastião A.
do Amaral, que serviu no Rio de Janeiro, ali se encontrava no ano da morte do grande flautista
Antônio Callado (1880). Muito jovem teria composto a elegia Uma Lágrima a Callado,
para piano, publicada pela Casa Arthur Napoleão. Produziu a valsa de concerto Amazônia,
publicada em Milão, e outras obras que estão catalogadas no Manuel Universel
de la Littérature Musicale, de Franz Pazdirek, publicado na Suíça (vol.
1, p. 201).
A obra de Ana Amaral parece definir um fenômeno que será notado neste programa,
a aproximação da música popular carioca e a música popular paraense,
através das modalidades mais típicas, principalmente o choro, o tango (brasileiro)
e o samba. O fato permeia grande parte deste concerto. A demonstração disso está na
primeira obra do programa, o buliçoso tanguinho Já Começa?, produzido
por uma pianeira da mesma estirpe, Sarah Rocha (1880-1960).
A escolha das obras e das compositoras visou a preencher um programa de qualidade. A variedade
e diversidade dos estilos têm como suporte fundamental a voz. Contempla dessa forma algumas
das mais bonitas vozes paraenses da atualidade, entre as residentes em Belém (pois há tantas
pelo mundo afora!): as irmãs Márcia e Madalena Aliverti, Patrícia Oliveira,
Alpha de Oliveira e Dione Colares. Nos solos e nos acompanhamentos de piano, Ana Maria Adade,
que conta no seu currículo ter sido aluna de uma das compositoras, Rachel Peluso.
O primeiro bloco contempla a voz da soprano Márcia Aliverti com quatro compositoras:
Marcelle de Guamá, Musa Cacioneira, toada, com versos do poeta pernambucano Adelmar
Tavares (1888-1963); Helena Nobre, Vem, Amor! (valsa); Rachel Peluso, Belém de Nazaré (toada),
com versos do jornalista paraense Osório Nunes; e o provocativo samba Cinco a Um!, de
Olindina Cardoso, mostra da influência do futebol no cancioneiro popular paraense. No
segundo bloco, Madalena Aliverti, com três peças da versátil Júlia
Carvalho: Saudades, valsa, Mágoas Secretas, tango argentino (sic!), e Eu Não
Digo pra Você (samba), e a valsa Recordar..., de Marcelle de Guamá, com versos
da paraense Ermelinda de Almeida.
Em seguida, Ana Maria Adade executa outra peça-solo de Sarah Rocha, a valsa para piano
Chuva de Beijos, editada em Belém pela Livraria Bittencourt.
O terceiro bloco, a cargo de Patrícia Oliveira, destaca duas belas canções
de Marcelle de Guamá, No Lago, cuja partitura foi impressa em Belém na década
de 30, com versos de Sylvia Patrícia, dedicada à cantora Helena Nobre e por esta
cantada pela primeira vez no festival anual dos Irmãos Nobre, em 13/03/1934; e A Hora
Recolhida, poema de Olegário Mariano (1889-1958); Rachel Peluso, Cantiga Cabocla, versos
de Vicente Salles, inspirados num “coco” recolhido em Benevides (PA); e Dora
Chermont com a valsa lenta De Longe, versos de Ermelinda de Almeida.
Alpha de Oliveira, a experiente soprano paraense, canta o quarto bloco quase inteiramente
dedicado a Marcelle de Guamá: inicia com Panis Angelicus, hino religioso, seguido da canção
A Prece que me Ensinaste, letra do poeta campineiro Rodrigo Octavio (1886-1944), e O Coração,
do poeta português Antero de Quental (1842-1891). Conclui com a canção
Uma Saudade, de Rachel Peluso, cujos versos lhe foram oferecidos pelo notável barítono
Paulo Fortes (1923-1997).
O terceiro solo de piano traz de volta Júlia Carvalho com a schottisch Dolorosa.
Dione Colares canta o quinto bloco com cinco peças: duas de Marcelle de Guamá,
Compreensão, versos de Dulcinéa Paraense (1918), que fora sua aluna de canto
em Belém, e a canção Lamentos, versos do poeta português Augusto
Gil (1873-1929), partitura manuscrita datada do Rio de Janeiro, agosto de 1949. Ainda entre
o sagrado e o profano, a invocação Lembrai-vos, de madre Júlia Cordeiro,
seguida da valsa Anseio, de Helena Nobre, e, por fim, Prece, de Rachel Peluso, letra da paulista
Suzana de Campos.
As cinco cantoras se reúnem para encerrar o programa com a marcha Cidade Morena, de
Maria de Nazaré Figueiredo, hino de amor à cidade natal.