Festival de Ópera do Theatro da Paz - O Canto Lírico da Belle Èpoque

Biografia dos compositores

Henrique Eulálio Gurjão (15/11/1834 | 27/07/1885), primeiro destaque do Pará na história da música brasileira, o único a viver inteiramente a experiência do século XIX, deixou obra abundante, em grande parte inédita. Com formação européia, seguiu para a Itália em maio de 1852, onde permaneceu oito anos, concluindo todos os cursos do Instituto Santa Cecília, de Gênova.

Diplomado, embarcou de volta ao Brasil. Viajou diretamente para o Rio de Janeiro, relacionando-se ali com o mundo artístico. Trouxe em sua bagagem várias obras, entre elas a ópera Idalia . Mas decidiu voltar para Belém, desembarcando em 14 de novembro de 1861. Festejou no dia seguinte os 27 anos de idade e aqui passou a viver de sua arte, compondo e exercendo o magistério. Além de vasta obra sacra, escreveu música para dois vaudevilles, representado no Teatro Providência, Amor e Martírio , de Marcelo Lobato de Castro, em 1862, e Uma Experiência , da dupla Marcelo Lobato de Castro e Luiz Alfredo Baena, encenada em 1873 pela Companhia Vicente Pontes de Oliveira, tendo nos principais papéis Xisto Bahia, Joaquim Infante da Câmara e Maria Bahia. Esta segunda peça fez muito sucesso e foi levada em várias capitais nordestinas, chegando ao Rio de Janeiro em 30 de janeiro de 1875.

Idalia , Cavatina, talvez a parte mais popular - ou popularizada - da obra de Gurjão, cantada na estréia pela soprano Giuseppina Senespleda, depois em recitais de ilustres cantoras paraenses como sua filha Henriqueta, Virgínia Sinay Bloch e Helena Nobre. Conta a tradição da família, narrada pelo dr. José Henrique Gurjão, que após a audição da última récita de Idalia , no Theatro da Paz, em 10 de novembro de 1881, o autor sobraçou os três volumes do spartito e, chegando em casa, guardou-o num "baú de zinco", falando à mulher e aos filhos: "Aqui guardo este tesouro, pois nunca mais será ouvido por ninguém". O vaticínio foi levado a sério pela família. Contudo, a partitura foi publicada pela Editora M. J. da Costa e Silva, pouco depois da morte do autor, em versão reduzida para piano pelo maestro Henrique Bernardi, cerca de 1886, o que permite a qualquer tempo sua audição - ainda que com o esforço de reorquestração. Além disso circularam cópias manuscritas de alguns trechos, como a Cavatina, uma das quais localizamos na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, na coleção do crítico Andrade Murici. É a cópia feita especialmente para a cantora Helena Nobre, que a cantou no recital de 3 de novembro de 1922, na Hora Musical, realizada pelo Centro Musical Paraense em homenagem à data da primeira representação dada em 3 de novembro de 1881. Essa cópia baseia-se na redução procedida por Bernardi. É a oportunidade que tem Patrícia de Oliveira de recriá-la e apresentá-la neste recital e gravá-la pela primeira vez com o acompanhamento do maestro italiano Fabrizio Del Bianco.

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José Cândido da Gama Malcher
(02/11/1853 | 17/01/1921) estudou em Milão e viveu para o teatro lírico, como compositor e empresário. Autor de quatro óperas completas e uma inacabada. Desse acervo restam apenas duas: a primeira, Bug-Jargal , depositada na Biblioteca da Escola Nacional de Música, no Rio de Janeiro, e a segunda, Iara , depositada na Fundação Carlos Gomes (Belém). Ambas foram apresentadas na capital paraense, no Theatro da Paz, em 1891 e 1895, respectivamente.

Compondo preferentemente sobre libretos em italiano, Gama Malcher tem algumas singularidades que o tornam compositor altamente representativo de sua época e da geração que girou em torno de Carlos Gomes, dele recebendo influência, visível em Bug-Jargal , estreada no Theatro da Paz, em 1890, e reapresentada no mesmo palco, no Festival de 2005. Mais independente musicalmente, deixou-se influenciar por Wagner, principalmente em sua segunda ópera, aquela que recorre ao imaginário amazônico, orquestrada com esmero e montada com requintes cênicos considerados deslumbrantes em sua época.

Da ópera Iara , revivida no CD histórico da Secult, ouviremos neste recital, com intensidade dramática, as cenas finais para soprano, tenor e coro. Iara canta o trecho Giovinotto che pel regno mio passi , seguida do arioso Sorpreso sei del magico canto , mostrando as riquezas do seu reino e dialogando sobre o amor com o seduzido e jovem índio Begiuchira. O coro interno das ninfas conduz o final da cena e da ópera, estreada no Theatro da Paz, em 1895.

Gama Malcher gozou dos momentos mais venturosos da chamada belle époque no Pará e aqui permaneceu os momentos mais difíceis da quebra da borracha.

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Octavio Meneleu Campos (22/06/1872 | 20/03/1927) é outro mestre ilustre que decidiu enfrentar as adversidades no Pará, no momento da quebradeira da borracha, quando acabou em pouco tempo a vida exuberante que transformara Belém e Manaus em símbolos tropicais da belle époque .

Coincidentemente no mesmo ano em que Paulino Chaves se transferiu para o Rio de Janeiro, também viajou ele com o coração partido, entre outros motivos, pelo suicídio de sua filha, Sulamitha, jovem, bonita e talentosa. Viajou para não voltar à cidade natal. Encontrava-se em Niterói quando faleceu subitamente de um colapso cardíaco.

Meneleu Campos também exerceu intensa atividade artística em Belém e foi diretor do Instituto Carlos Gomes (1900-1906). É como autor de música de câmara e sinfônica que mais se distingue Meneleu Campos entre os compositores paraenses. Deixou obra vocal importante e bem construída. Usou vastamente o italiano, em menor escala o francês e o português. Combina muito bem a harmonia com o canto. Este concerto ressalta alguns destaques do que produziu, numa seleção que revela "inéditos" para as gerações mais novas: Infiniment . Poesia de Pierre d'Amor, certamente pseudôni-mo singular pela mistura do francês com o português. La cacciatrice , romança sobre palavras de um clássico, Pietro Metastasio (1698-1782), autor de tragédias notáveis que se transformaram em óperas de compositores ilustres, entre outros Mozart. Os versos desta singela romança falam da vida campestre e revelam o estilo puro e harmonioso deste poeta italiano. Ainda representativas da sua escrita em italiano, estão as canções Ricordati di me , Canto lontano e a belíssima peça Un sogno. Primeira audição dada na Catedral de Belém a 16/07/1902 pelo coro de 65 vozes do Instituto Carlos Gomes, regido por Ettore Bosio, Guarda , dueto para soprano e tenor, obra de -extrema beleza e plasticidade. A valsa Ideal revela sobretudo o gosto da belle époque paraense. Todas as obras hoje executadas constam no fascinante CD editado pela Secult.

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Paulino Lins de Vasconcelos Chaves
(25/06/1880 | 31/07/1948), compositor brilhante nascido exatamente no ano da primeira estação lírica realizada no Theatro da Paz, ano em que também chegou ao Pará, com quatro meses de vida, vindo de Natal (RN), onde nascera. Aqui formou seu talento, estudando piano. Criou as primeiras composições aos 8 anos de idade e aos 15 já era considerado o pianista jovem de maior conceito no Pará. Destinando-se à vida musical, viajou para Leipzig em 1898 e fez brilhante curso no Real Conservatório, classe de Roberto Teischmüller (piano), Salomon Jadassohn e Paul Quasdorf (harmonia, contraponto e fuga).

Em 1902, ganhou o Mozart Stipendium e tocou o Concerto em mi maior, de Liszt, com orquestra. Em 1908, fez sua primeira viagem ao Rio de Janeiro e tocou num dos concertos da Exposição Nacional, com orquestra dirigida por Alberto Nepomuceno. Ao retornar, encontrou desativado o Conservatório. Em 1910, foi para Manaus, ali permanecendo até 1913, quando viajou novamente para Leipzig. Regressou em 1914, radicando-se novamente em Belém e aqui resistiu, durante muitos anos, à quebradeira da borracha, tentando sobreviver de sua arte. Foi uma época de grande produtividade. Em 1927, decidiu transferir-se para o Rio de Janeiro, ali vivendo até o fim de seus dias.

O recital de Patrícia de Oliveira nos traz a já conhecida e consistente Ave-Maria , cuja parte pianística é de uma riqueza não encontrada em outras peças do gênero, como podemos constatar e nos deliciar no já referido CD O Canto Lírico da Belle Époque.

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