Veja as fotos/See the photos
Fotos/photos:
Gal Oppido
Cidade/city:
São Paulo - Brasil
Onde já se viu mostrar uma cidade a partir de seus
degraus? De uma cidade que tanto tem a oferecer de cartões
postais naturais, porque a escolha de uma tema tão
absolutamente inusitado para apresentá-la em livro?
As respostas a estas perguntas indicam o caráter editorial
do projeto Imagens e Construção: propor novos
parâmetros de observação da terceira maior
cidade do mundo. Quem vive e conhece a cidade de São
Paulo, sabe que são poucas as oportunidades em que
se vê o seu detalhe. É natural, ainda que indesejado,
ser engolido pela cidade, suas ruas, edifícios, praças,
casas e a inevitável oferta de opções
ao olhar.
Quem não conhece São Paulo pode se chocar à
primeira vista, dependendo da expectativa com que busca a
cidade. O comércio intenso, o excesso de informações
visuais e de cores, o trânsito, a ocupação
desordenada e as transformações diárias
contribuem para que não se consiga ter uma única
impressão. São Paulo muda todo dia, de ninfa
a borboleta centenas de milhares de vezes, quase que num piscar
de olhos. Quarteirões inteiros desaparecem para uma
avenida nascer. Onde havia um amontoado de casas surge uma
nova estação do metrô, uma nova praça.
Mas, independente da dinâmica de suas construções,
a cidade muda com a mesma velocidade com que a informação
globalizada se torna acessível. No entanto, o detalhe
continua lá. Imutáveis e permanentes quase sempre,
alguns elementos resistem numa teimosa necessidade de manterem-se
incorporados às ruas e pessoas da cidade, encobertos
por uma névoa de displicência de quem os usa,
transita, esbarra, sem sequer dedicar um segundo de sua atenção
para notá-los ou agradecer por sua existência
em alguns casos. A Cidade é cheia de detalhes e intervenções
que a foram construindo, criando sua identidade e deixando
as marcas de quem os inventou - podemos assim dizer, fazendo
da história de São Paulo uma infindável
fonte de reconhecimento. Imagens e Construção
tem este caminho: observar a cidade de São Paulo num
determinado momento, sob um certo ponto de vista, para identificar
a sua história, permitindo reconhecer os seus próprios
desafios. Por isto, neste segundo livro da série, optamos
pelos degraus de São Paulo. São tantos e tão
anonimamente presentes que acabam por ser a imagem da própria
Cidade e de quem com ela convive. Em grande parte das cidades
brasileiras chamam-no meio-fio. Em São Paulo, chamam
de guia aquela pequena barreira que delimita a área
de tráfego de veículos e de trânsito de
pedestres. Não são as guias uma escada de um
único degrau? E não se multiplicam em milhares
de quilômetros por toda a cidade? No entanto, poucos
se detêm em observá-las, sua forma de construção,
o material utilizado, sua altura, suas interrupções
acidentais. Mas basta sua ausência, para transmitir
insegurança, falta de cuidados ou perceber-se a sua
necessidade. Como as guias desapercebidas todo o tempo, as
escadas da Cidade têm apenas observadores ocasionais.
São Paulo cresceu desprezando as dificuldades de relevo
e suas escadas foram sendo construídas para facilitar
o acesso às elevações ou baixios, dependendo
do ponto de vista. E o que inicialmente era apenas um jeito
de chegar mais rápido no alto, acabou adquirindo ares
de arte, com belíssimos projetos arquitetônicos
que ainda hoje guardam, impressos em seus degraus, a memória
de ilustres e desconhecidos que as utilizaram por longos anos.
Algumas ficaram famosas como as escadas do Bexiga. No prédio
da Gazeta, na Av. Paulista, aconteceram toda as grandes manifestações
populares dos últimos anos: um lugar para comemorar
a vitória, na política, no futebol, nas corridas
de São Silvestre. Dos 16 milhões de pessoas
que vivem em São Paulo, são incontáveis
quantos já usaram as escadas da Galeria Prestes Maia.
Poucos, entretanto, conhecem a histórica escada do
Beco do Pinto, ao lado do Solar da Marquesa, no centro velho
da cidade. E as passarelas? Não são uma escada
democrática que permite o acesso de quem usa outros
meios que não as próprias pernas? Não
são elas uma lembrança diária de que
é necessário equipar as outras escadas para
não restringir seu uso? A Praça das Bandeiras
oferece uma visão estonteante desta escada serpente
onde mais de um milhão e meio de pessoas passa por
dia. Se olharmos para os edifícios então, criamos
uma infindável coleção de soluções
arquitetônicas. Está bem. Lembremos apenas das
escadas da Estação da Luz, o primeiro contato
com a cidade para muitos que encontraram em São Paulo
a possibilidade de recomeço. A pura verdade é
que cada uma das escadas da cidade deixa de ser anônima
quando se a vê de perto e, mais ainda, se confrontada
com o que está em seus entornos. Foi com este olhar
que o fotógrafo Gal Oppido andou com suas muitas câmeras
por São Paulo e das escadas e degraus extraiu imagens
apaixonantes, com seu contexto lembrado aqui e ali por Helena
Saia que oferece um pouco mais da dimensão histórica
da metrópole. O projeto Imagens e Construção
é patrocinado pela Intermédica-Sistema de Saúde
com o apoio das demais empresas do Grupo Notre Dame-Intermédica
e procura traduzir através da fotografia a fantástica
complexidade da cidade de São Paulo, dando uma nova
dimensão ao olhar e fazendo com que seja reconhecida
sob outras formas e pontos de vista. Uma São Paulo
inédita que convida à reflexão e sugere
outras propostas para o futuro.
Cleber Papa