Fotografia

Com Água e Terra do Jequitinhonha

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Fotógrafo/Photografer:
Milton Dines

Do livro/from the book:
Brasil das Artes
Editado por/edited by:
São Paulo ImagemData

Numa região banhada por rio como o Jequitinhonha, em que na baixa das águas o que mais se vê é o serpentear do leito parcialmente seco, é natural que a população ribeirinhav encontre algo a fazer com aquele barro (terra seca muitas vezes), que é farto e com cores de várias nuanças do marrom ao preto vivo. Como em outras regiões do país, a atividade artesanal com o barro passa primeiro pela cerâmica utilitária, com vasos, panelas, gamelas, potes, para grãos e vasilhas com inúmeras aplicações. Aos poucos, um ou outro artesão desenvolve um estilo próprio, faz um castiçal, um objeto decorativo, aqui ali põe uma florzinha do mesmo material, mostrando à comunidade outras possibilidades, que são absorvidas, imitadas,
oferecendo um outro caminho criativo. Não muito distante da cerâmica utilitária, cozida em fogo sob diversas formas em todo o Brasil, inicia-se aí uma repetição de formas conhecidas extraídas do cotidiano de cada artesão. É vez dos bichos, das árvores decoradas, das casinhas e, como que por acaso, talvez até como uma manisfestação bem-humorada, alguém faz um bonequinho para o filho brincar ou mesmo reproduz no barro a figura de um vizinho.
Outras formas, também incorporadas em vários sítios brasileiros, dão à cerâmica um certo caráter místico, ao reunir figuras de homens e animais em vasos, estes com aparência assustadora, aqueles com imagens de santos, etc.

Mas, no vale do Jequitinhonha precisamente em Santana do Araçuí, cidade fincada a uns 10 quilômetrosda estrada Rio-Bahia, ainda no estado de Minas Gerais, acontece algo completamente diferente e espetacular. Primeiro que o rio que passa perto deles não merece o nome de rio: é um córrego de onde sai o barro. Segundo, porque o trabalho que realizam – antropomórfico da melhor qualidade – chega a assustar pela fidelidade de expressões que conseguem transpor para a cerâmica, mesmo sendo um trabalho rústico na sua natureza.

É impossível, ao ver um dos bonecos realizados por Dona Isabel Mendesda Cunha ou por seu genro, João Pereira de Andrade, não reconhecer alguma semelhança com pessoas que conhecemos em nosso cotidiano. É, sem exagero, uma das mais perfeitas expressões da fisionomia do povo brasileiro, aquele das ruas, do mercado, das lojas. E com as cores de roupas, textura de peles, cor dos olhos próprias da nossa identidade. Esses tons, entretanto, são obtidos em diferentes pontos do solo árido da região do Jequitinhonha, sendo aplicados sobre as peças já moldadas, usando faquinhas, sabugo de milho e, mais uma vez, as mãos, que viabilizam esse fantástico resultado. Mas não é só isso. Tem o processo da queima da cerâmica feito em torno onde o calor deve circular o tempo todo, o que obriga o artesão a controlá-lo por mais 12 horas.

Na família de Dona Isabel, hoje 3 gerações trabalham se esculpindo, transportando para o barro as feições das muitas noivas e noivos, casais e namorados, a mãe que amamenta, a moça da janela, o barbudo da cara brava, a jovem de queixo erquido – "metida" como diz quem a vê. Todos muitos bem vestidos, cabelos arrumados, curtos ou caindo sobre os ombros. Os tipos físicos e temperamentos que vemos em qualquer rua de Santana de Araçuaí, ou nos sobrados e casas de qualquer cidade do interior do Brasil.

Cleber Papa

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