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Brinquedos de Miriti

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Fotógrafo/Photografer:
Luiz Braga

Do livro/from the book:
Brasil das Artes
Editado por/edited by:
São Paulo ImagemData

Miriti ou Buriti. Uma palmeira brasileira que é doce, é vinho e é brinquedo: os Brinquedos de Miriti. Nascidos da espetacular capacidade de adaptação do caboclo brasileiro à natureza que o circunda, os Brinquedos de Miriti são a expressão da sensibilidade e da representação ingênua do universo ribeirinho da região de Abaetetuba, uma cidade vizinha de Belém, distante hora e meia de carro e balsa, ou duas horas de barco, o transporte mais usado, talvez até pela calma e placidez que a floresta e os igarapés sugerem.

Os brinquedos são feitos uma única vez por ano, no período de Agosto e Setembro, sendo somente comercializados durante as festividades do Círio de
Nazareth. A confecção dos brinquedos começa com a coleta dos talos (braços) da palmeira, no meio do mato, em Sirituba, um logradouro que se atinge de barco. O miriti escolhido geralmente é jovem e da planta se colhe apenas os braços onde estão as folhagens. Com isto, a confecção dos brinquedos não é uma atividade predatória uma vez que a árvore é mantida viva e crescendo normalmente.

Para se obter a matéria prima dos brinquedos os braços do miriti são descascados para utilização do miolo. As cascas que são bem flexíveis, depois de secas transformam-se em cestas, paneiros e varetas de papagaios e pipas. O miolo, trabalhado com facões de mato, é alisado e transportado em feixes para os produtores dos brinquedos. Os artistas com ferramentas rústicas (normalmente facas e facões) esculpem, montam peças segundo suas referências pessoais. Alguns especializaram-se em barcos, outros em bonecos dançarinos, cobras, jacarés, madeireiros, pássaros, vaquinhas, aviões, rádios de pilha, televisões e a escolha deste ou daquele motivo é parte da crônica individual de cada autor ou família de autores.

Depois de prontas, com as partes coladas e secas, é aplicado o desenho-base da pintura final feita por membros das famílias (homens, mulheres e crianças) que repetem em cada peça o padrão estabelecido. Os brinquedos são estocados e, à véspera do Círio de Nazareth, são levados para Belém, onde são expostos nas praças ou comercializados em girândolas.

As girândolas são uma espécie de cruz com vários braços, também feita de miriti, onde são espetadas ponteiras da casca do próprio miriti para amarração de cerca de uma centena de brinquedos. A venda é feita pelos próprios artistas ou amigos que trabalham neste período. Ao contrário de outras formas de artesanato da região como as réplicas de cerâmica marajoara ou tapajônica, cujas referências estão em achados arqueológicos expostos no Museu Emílio Goeldi, os brinquedos de Miriti são uma manifestação artística expontânea e reflexo da criatividade dos produtores seja no uso de cores primárias e poucas misturas (azul, vermelho, amarelo, verde, preto), seja na forma utilizada que sempre reflete o universo caboclo, suas influências urbanas e afetivas.

O Miriti, ou os brinquedos de Miriti, são exclusivos e inéditos, somente encontrados em Belém, no período do Círio de Nazareth e não foram ainda descobertos como produto de exportação, a exemplo de outras modalidades de artesanato encontrados em várias cidades brasileiras e mesmo no exterior, em galerias e museus. Esta característica sazonal, talvez leve o Miriti ao desaparecimento uma vez que, sendo produzido apenas uma vez por ano, induza os produtores – principalmente seus filhos que são a garantia de continuidade do trabalho – a buscarem outras fontes de renda e de especialização profissional.

Hoje ainda se vê muitas crianças aprendendo e produzindo e já se fala, na região, da organização de cooperativa dos produtores.

A expectativa é que a divulgação deste trabalho auxilie sua continuidade como forma legítima de expressão artística e, sobretudo, como reflexo da inventiva das várias culturas que compõem o país.

Cleber Papa

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