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Profetas de Pedra

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João Fávero

Do livro/from the book:
Brasil das Artes
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São Paulo ImagemData

Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é o mais conhecido artista do período colonial brasileiro. Escravo e bastardo por ser filho de uma escrava e do arquiteto português Manoel Francisco da Lisboa, pouco mais se conhece das suas origens e infância. Ao que tudo indica, deve ter estudado com o próprio pai e com o pintor e desenhista João Gomes Batista. Existem também algumas citações de que provavelmente tenha estudado com os entalhadores Francisco Xavier de Brito e José Carlos Noronha, mas pouco se sabe de sua formação como escultor. Sabe-se que já trabalhava em 1777, quando foi acometido de uma série de doenças, inclusive a provável lepra nervosa que o deixou mutilado em todos os membros, passando a depender de pessoas para ser transportado e de amarrar instrumentos nos braços para realizar suas peças.

Apesar disso, sua obra ganhou fama, levando-o a trabalhar em várias cidades e na maioria das vilas coloniais mineiras, sendo responsável por uma considerável produção artística, principalmente o conjunto de obras de Congonhas, executadas durante 9 anos.

São 78 estátuas, que marcam o chamado barroco mineiro, sendo encontradas muitas obras também em Ouro Preto, nas Igrejas de São Francisco de Assis, Nossa Senhora do Carmo, de São José. Matriz Nossa Senhora do Pilar, entre outras. A pedra-sabão utilizada em grande parte dos seus trabalhos acabou se tornando um registro preciso da região onde esse mineral de consistência mole, mas muito resistente, é encontrado em abundância. Nos mesmos sítos onde trabalhou Aleijadinho, em Congonhas, foi encontrado "seu" Brás Henrique, artista que se dedica a realizar em pedra-sabão réplicas dos profetas tão conhecidos, além de imagens de santos e santas católicas.

Aos 48 anos e trabalhando desde os 14, "seu" Brás começou fazendo cerâmica utilitária. Depois de aperfeiçoar o uso das diversas ferramentas e estudar desenho, passou a redescobrir nas pedras as imagens já imortalizadas por Aleijadinho.

Em Cachoeira do Campo, distante de Congonhas cerca de 150 quilômetros e próxima de Ouro Petro, vive outro artista, Roni Assis Gomes, com 27 anos e 12 como escultor. "Sou um aprendiz", reconhece ele que já tira santos da pedra-sabão com grande qualidade. Seu aperfeiçoamento é resultado dos estudos que tem realizado sobre o período barroco, na arte sacra e, principalmente, na obra de Aleijadinho, de onde extrai os fundamentos das proporções, formas e relevos. "O 'seu' Brás é um mestre"– reconhece Roni. "Um dias desses preciso ir lá conhecê-lo. Trocar idéias e, com certeza, ganhar alguns anos de aprendizado com ele". Uma constatação interessante é que dois artistas, separados por idades e formações diferentes, com distâncias também relativamente grandes entre suas cidades, mesmo sem se conhecer pessoalmente, têm como meta o aperfeiçoamento a partir da inspiração em Aleijadinho.

Ambos diferentes, mas curiosos e instigados pela mesma referência e busca. Apesar de natural que esse trabalho que está nas ruas e igrejas de Congonhas e Ouro Preto sirva de inspiração, é muito confortável saber que a técnica persiste e com uma perspectiva concreta de continuidade por meio de dois novos nomes.

Cleber Papa

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